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João Nogueira deixa saudade imensa no peito dos amigos

João Nogueira
Por Paulo César Feital*
(Especial para Na Caixa de CD)
João Nogueira – Foto: Reprodução

João Batista Nogueira Júnior! força nenhuma no mundo interfere quando chega a hora de encerrar a função, de fechar a cortina e recolher-se ao camarim de Deus. Assim partiu, faz duas décadas, um melodista, cantor e compositor dos mais geniais da música brasileira deixando um vazio em nosso cancioneiro deixando um vazio no cancioneiro nacional e uma saudade imensa no peito dos amigos. Falar do talento e obra é cair na armadilha do lugar do comum. Narrar os becos e vielas daquela personalidade é coisa para poucas testemunhas e eu me considero uma delas.

João era um prato cheio para a psicanálise. Brilhante, generoso, ácido, raivoso, apaixonado, malando, otário, chorão, amigo dos amigos – o cão para os inimigos -, alma poética da boêmia carioca.

Um amigo, se ele pudesse, jamais passaria necessidade. Retinha no âmago do espírito alguns segredos do céu e do inferno e para quem o conhecia, sem surpresa alguma, era capaz de postar na mesma mesa de um boteco qualquer da Lapa, em torno de um balde de cerveja, Deus e o tinhoso para discutirem o rumo do rubro-negro da Gávea.

Era dono de uma gigantesca consciência socialista e posicionava-se sempre politicamente no front da defesa do oprimido e, não raras às vezes, em que deu a cara para bater nos usurpadores dos direitos dos músicos contra as gravadoras e desvarios do Ministério da Cultura.

O Clube do Samba, grande sonho de Nogueira, nada mais era do que o aquartelamento da, já naquela época, torturada e esfacelada memória nacional. Reuniu em torno dele todos os grandes nomes da música brasileira: Clara, Beth, Alcione, Martinho, Paulinho da Viola, Roberto Ribeiro, Giza Nogueira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Paulinho Pinheiro e tantos outros. Desfilaram no sagrado palco todos os acima citados e, atendendo a um apelo meu e de Giza, a MPB pousou ali orgulhosa. Gilberto Gil, Nana Caymmi, Chico Buarque, Fágner, Silvio Caldas, Caetano, Elizeth Cardoso e tantos outros.

Eu, humildemente, tive a oportunidade de dirigir muitos desses espetáculos e devo a Nogueira o retomar do prazer de viver quando, em momento dificílimo da minha existência, apareceu do nada o meu parceiro e amigo que me convidou para trabalhar no Clube do Samba.

O Clube do Samba, como instituição física, já não existe. Mas tenho a certeza de que o sonho está tatuado na alma de todos que conviveram com o que João almejava. Chega! Não quero chorar de saudade. Tenho certeza de que lá de cima ele há de gritar: “Ângela, Clarisse, Tatiana, Diogo, Valéria, Giza, Didu, Fábio e meus netos! Perante Deus eu cumpri a minha missão”.

*Compositor, poeta e teatrólogo

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