Crônica

A Billboard e a música non-stop

Depois de ter comido um sanduíche Big Gordon na lanchonete praticamente homônima, o garoto atravessou a rua, cruzou a Galeria Menescal – saudando a porta do Restaurante Baalbek, onde se come uma esfiha imperdível – saiu na Barata Ribeiro, virou à esquerda chegou até a porta do prédio de seu amigo, atravessou a rua e fitou o olhar na loja de discos Billboard, um dos paraísos musicais de Copacabana, já com a loja fechada mas com grades vazadas, que permitiam namorar os LPs.

Fachada da Billboard, em Copacabana, meca dos aficcionados por música – Foto: Reprodução/Facebook

Numa mesma noite de 1984, a vitrine abrigava “Seven and the Ragged Tiger”, do Duran Duran; “90125”, do Yes; “All the Best Cowboys Have Chinese Eyes”, de Pete Townshend; “O Passo do Lui”, dos Paralamas do Sucesso; “Cargo”, do Men at Work, “Undercover of the Night”, do Rolling Stones e muitos outros.

Pobre o garoto, apenas espiando os discos que não poderia comprar, sonhando que seu amigo os conseguisse com a mesada que ganhasse da mãe. Mas pouco lhe importava: a música não é somente ouvida ou consumida ou comprada. Ela também é admirada, percebida, sentida. Os discos têm alma, não são apenas objetos em plásticos transparentes cobertos por uma capa de papelão. Há muita coisa em jogo.

Ao lado, nem olhava a loja Modern Sound, especializada e mais cara. Atrás, o Bruni Copacabana, cinema cult do bairro.

O que lhe importava não era colecionar ou ganhar. O que o garoto queria mesmo era estar perto, mesmo que fosse mera subjetividade. Beliscar um pedacinho da música, da arte. Olhava, sonhava, voltava. Fez isso muitas vezes, até o dia em que as grades vazadas foram substituídas por tapumes permanentes.

4 thoughts on “A Billboard e a música non-stop

  1. Caro Affonso Nunes, quase fui às lágrimas. Lembrei-me de uma ida à Modern Sound, em 1970 (a Billboard ainda não estava ali). No bolso, carregava todas as economias. Ia buscar o Álbum Branco dos Beatles!

  2. Texto com imagens deliciosas do tempo das lojas de vinil. Muitas horas da minha adolescência foram (bem) gastas passando os discos pelos dedos, quase sempre só pelo prazer de apreciar as novidades ou conhecer a discografia deste ou aquele artista. O prazer visual das capas de vinil prenunciava o deleite auditivo. Quando o dinheiro dava, em geral, saía com um progressivo debaixo do braço: Rush, Jethro Tull, Yes ou Pink Floyd, ainda na dianteira das minhas preferências, começavam a disputar espaço na minha prateleira com a MPB e o Rock brasileiros dos 80. Chegava em casa e puxava a bolacha do envelopão acetinado. Technics pronta e showzinho de adolescente narciso em frente ao espelho.

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