MPB

A Cor do Som em versão 100% instrumental

Nos anos 1970 os jovens músicos de A Cor do Sim surpreenderam o Brasil e o mundo com sua sonoridade unia o rock progressivo às combinações intermináveis de ritmos brasileiros. Formado por músicos virtuosos, o grupo sempre introduzia temas instrumentais em seus álbuns de estúdio, antecipando o clima de improviso que transformavam suas performances ao vivo em momentos inesquecíveis. Quarenta e dois anos depois da antológica apresentação da banda no Festival de Montreux, na Suíca, A Cor do Som lança o “Álbum Rosa”, um trabalho 100% instrumental (o que é uma notícia maravilhosa!) e que traz como bônus instrumentistas muito mais experientes. O trabalho chega à plataformas digitais nesta quinta (30) e, no mesmo dia, a banda estará numa live em seu canal no YouTube, às 21h, falando sobre sua nova cria.

Olhar para trás com a bagagem de hoje fez bem aos rapazes, hoje mais senhores se si e do som que fazem. “O Álbum Rosa” reúne num mesmo lugar de tempo e espaço músicas bastante representativas da nossa trajetória, quatro delas do disco ao vivo de Montreux, duas delas nunca haviam sido gravadas em estúdio. “Dança Saci” e “Chegando da Terra” existiam apenas no registro daquele show. Fomos para o estúdio e fizemos novos arranjos pra todas elas, mais amadurecidos, até porque depois de tanto tempo, nosso olhar para a música evoluiu, como tudo tem que ser“, conta Mú Carvalho.

Essa viagem instrumental d’A Cor do Som teve produção musical e arranjos coletivos e a produção executiva tem a assinatura de Mú e de João Falcão. Uma curiosidades: a capa do diretor de arte Batman Zavareze reúne dois trabalhos distintos de Dadi (que tem se dedicado à pintura na última década) e de Mú (até os 15 anos, quando foi sequestrado pelo piano de sua mãe, ele pensava seguir Artes Plásticas, paixão que retomou nos últimos anos). É a típica junção entre cores e som.

Os oito temas se espalhavam por quatro álbuns, lançados entre 1977 e 1981, quando a então banda de apoio de Moraes Moreira ganhou vida própria e influenciou uma geração inteira de bandas seja no rock, na moderna MPB, no reggae à brasileira e até mesmo no que viria a se tornar conhecido como axé music. O “’Álbum Rosa” também resgata o quinteto original, que voltou a se reunir há poucos anos e desde então se mantém: Armandinho, Ary, Dadi, Gustavo e Mú, além de Jorginho Gomes, ex-integrantes dos Novos Baianos com passagem pela banda.

Um passeio pel’A Cor do Som e suas origens comprova as múltiplas referências de cada um de seus integrantes, o que lhe conferiu tantos sotaques musicais, mas a convivência com Moraes Moreira, uma das cabeças mais pensantes dos Novos Baianos selaria o destino do grupo.

A foto da capa do álbum ‘Magia Tropical”, o primeiro trabalho da banda sem Armandinho, que ciria a ser substituído por Victor Bilglione. A Cor do Som trouxe novas sonoridades para o rock e escreveu as primeiras páginas de alguns movimentos posteriores da música brasileira – Foto: Reprodução

Apesar da pouca idade, eles tinham boas e diversificadas experiências. Armandinho foi garoto prodígio no bandolim e o primeiro virtuose da guitarra baiana desde os tempos em que pôs a Bahia para ir atrás do trio elétrico de Dodô e Osmar (seu pai). E foi no trio que guri conheceu Moraes, que acabara de deixar os Novos Baianos para trilhar carreira solo. Aos dois se juntariam o baixista Dadi Carvalho, que já tocava na banda de Jorge Bem, e recomendou o nome do baterista Gustavo Schroeter (ex-A Bolha) e o irmão caçula Mú, pianista desde os 15 anos e amante tanto do choro quanto dos sintetizadores que marcaram o rock setentista.

Após o disco e shows com Moraes, essa formação de quarteto (acrescida de três percussionistas) lançaria o icônico álbum “A Cor do Som” (1977), que emplacou de cara sucessos como “Zanzibar” (Armandinho). “Abri a Porta” (Gilberto Gil e Dominguinhos), “Menino Deus” e “Beleza Pura” (ambas de Caetano Veloso) ganhariam releituras que tornariam-se tão clássicas quanto suas versões originais, até porque se tornaram muito mais populares. Relembre aqui a versão de estúdio de “Beleza Pura”:

E um momento marcante para A Cor do Som foi sua participação, em 1978, na concorrida noite brasileira de Montreux, palco onde monstros de nossa cena instrumental como Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal já haviam feito história. Esta apresentação foi registrada no álbum “Ao vivo”, lançado no mesmo anos, e que marcou a estria do percussionista baiano Ary Dias que conferiu a banda aquela que viria a ser sua batida característica com muito afoxé.

Mudanças de formação

Após o disco “Mudança de Estação” (1981), Armandinho deixa o grupo para retomar a carreira solo. Para substituir um grande guitarrista, só mesmo outro grande guitarrista. E o escolhido foi Victor Biglione. A nova formação grava dois trabalhos – “Magia Tropical” (1982) e “As Quatro Fases do Amor” (1983). Biglione sai em 1984 e o álbum “Intuição” foi gravado com a participação de Perinho Santana. O baiano seria efetivado no posto em seguida.

Em 1987, novas mudanças: saem Perinho Santana e Gustavo Schroeter e entram Jorginho Gomes (ex-Novos Baianos) na bateria e Didi Gomes, irmão de Pepeu, no baixo. Com isso, Dadi passa para as guitarras. Em 1996, o grupo reúne-se com a formação original para gravar o disco “A Cor do Som Ao Vivo no Circo”, registrado no Circo Voador. O revival acabou recompensado com o prêmio Sharp na categoria de melhor grupo instrumental.

Em 2005, novamente com a formação original, A Cor do Som apresentou-se no Canecão, no Rio, num show com as luxuosas participações Caetano Veloso, Daniela Mercury, Moraes Moreira, Davi Moraes, e o Coral dos Canarinhos de Petrópolis, além dos músicos Nicolas Krassic (violino), Nivaldo Ornelas (sax soprano), Marcos Nimrichter (acordeom e teclados), Jorge Helder (baixo acústico, violão, e baixolão), Jorginho Gomes (bateria e percussão), Marco Túlio (flauta), Francisco Gonçalves (oboé), Bernardo Bessler (violino), Marie Cristine (viola), e Marcio Mallard (cello). O espetáculo inspirou o CD/DVD “A Cor do Som Acústico”, um interessante momento de uma banda essencialmente elétrica.

Dissecando o ‘Álbum Rosa’

O “Álbum Rosa” é aberto por “Chegando da Terra”, composição de Armandinho que estava restrita ao disco “Ao vivo”. É uma excelente ocasião para Armandinho, um autêntico baiana-guitar hero, mostrar toda sua maestria no instrumento. O tema funde elementos e timbres dos trios elétricos e do metal, algo como um “heavy frevo”.

Em seguida vem a outra até então inédita em estúdio, “Dança Saci”, música de Mú, que pilota um moog para introduzir o tema com combustível para incendiar de forrós de pé de serra a raves contemporâneas. Teclado e a guitarra baiana dão conta do riff em uníssono enquanto o couro come solto na cozinha formada por baixo, bateria e percussão.

Do algum de estreia d’A Cor, a banda pinçou “Arpoador”, uma composição coletiva do então quarteto.

Faixa-título do terceiro disco, “Frutificar” ganha um desenho completamente distinto da gravação orifinal logo na abertura com piano acústico e que descamba para um animado baião em que Dadi cria uma interessante atmosfera com o violão de 12 cordas.

Também lançada em “Frutificar”, “Pororocas” (Armandinho / Luiz Brasil) é outra viagem pelas ricas paisagens sonoras do Nordeste. Na faixa, Armandinho troca a guitarra baiana pelo bandolim, instrumento com o qual conquistou o Brasil quando ainda era adolescente.

É do virtuose Armandinho outra faixa colhida de “Frutificar”. Trata-se de “Ticaricuriquetô” onde o músico pinta e borda num solo de guitarra baiana, pontuado por vocalizes. Seus riffs flertam com o universo do heavy metal.

Siando um pouco da linha dos baiões, “Espírito infantil” é um delicioso choro moderno escrito por Mú, um admirador confesso do gênero carioca. O tema obteve o quinto lugar de um festival de choro organizado pela TV Bandeirantes, em 1977, foi gravado no primeiro disco d’A Cor do Som e também no “Ao Vivo” em Montreux. “Quatro décadas depois, segue atemporal e provocador. Fecha o “Álbum Rosa” “Saudação à Paz” (Mú), lançada no quinto álbum “Mudança de Estação” (1981).

“O fato de voltarmos, anos e anos depois, a esses temas em estúdio é de uma rara felicidade para nós. O trabalho ficou com uma grande coerência”, destaca Mú, ao comentar um trabalho que entra para a galeria dos melhores trabalhos d’A Cor do Som.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *