Coluna do Aquiles

Abrindo as cortinas da genialidade

Por Aquiles Rique Reis*

abre a cortina luiz tatit
Capa do álbum ‘Abre a Cortina’, de Luiz Tatit e Dante Ozzetti

Tudo começa de modo quase espiritual: a mente vagueia; avassaladora, a energia emerge do corpo; a cabeça tonteia; a memória vacila; a lágrima seca; o estupor impressiona. Abrindo caminho por entre neurônios encandecidos, imagens surgem de forma abstrata e a beleza se amostra inteira. É assim que tudo vem à tona. Tudo agora é um recado à alma. Ela que se deixa abraçar no CD “Abre a Cortina” (Circus), a partir de senhas cultivadas na terra. Dois personagens são os protagonistas do álbum, com o qual derrubam cercas e incentivam fantasias: o compositor, arranjador e violonista Dante Ozzetti e o professor, escritor e compositor Luiz Tatit.

Os dois deram de comemorar 25 anos de estradas tortuosas, por onde caminham com as costas voltadas para o pôr do sol, andando em busca do raiar do momento seguinte à noite. Todas as composições de “Abre a Cortina” são de autoria de Dante e Tatit. Eles cantam juntos e cantam em duos com diferentes parceiros, todos à altura das músicas inéditas. Os arranjos com bases, ora em piano, ora em violões, têm como linha que permeia todo o disco um naipe formado por fagote (Fabio Curi), cello (Adriana Holtz), viola (Fabio Tagliaferri) e flauta (Marta Ozzetti). Esse naipe, além de dar unidade, oferece um tom orquestral, quando trabalha nas extremidades com dois instrumentos de sopro e no centro com dois instrumentos de cordas. Meu Deus, o que é aquilo!?

Tudo ali tem sabor de genialidade. “Ao Menor Sinal” tem a primazia de abrir a porta da sutileza – beleza que tem o dom de confrontar a sandice das mortes provocadas por malfeitores, genocidas, que parecem matar por míseros dinheiros.

O carimbó vem assanhado pela união de díspares caminhos musicais. A ligeireza do andamento da música, ao menor sinal de sua concepção, gera a expressão que tem compromisso com a vida. Assim é que desponta o sinal, diante do qual o ouvinte se põe a matutar. E assim o ritmo ganha a força e a velocidade emprenhadas de soluções harmônicas. Tudo no aguardo de um período mais que perfeito, sem vidas desperdiçadas. Mãos que não se largam.

“ O fagote usado como parte da linha de baixo. Sua razão remete à tuba. Os detalhes dos contrapontos são feitos pelo clarinete, que faz um desenho rítmico especial, com o fagote, tocado por Zezinho Pitoco”, avisa Dante.

A fantasia utópica, vinda a nós desde o Brasil escravagista, carrega a riqueza musical que nos engrandece, ilumina e protege. Para tanto, a música de Dante e Tatit reverencia a brasilidade, esmererilando-a em mil e uma sonoridades.

Busquem o CD “Abre a Cortina”, físico ou digital, nalguma plataforma de música ou numa boa loja. Encante-se com a envergadura musical de Luiz Tatit e Dante Ozzetti. Suas canções nos trarão a esperança de que, ao abrirmos a cortina, nos depararemos com o sol de um novo dia: onde o sinônimo de vida é alma, nunca morte.

 

*Vocalista do MPB4 e escritor

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