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Adrian Smith esbanja talento em álbum com Ritchie Kotzen

Adrian Smith

Por Luis Fernando Rios

Capa do álbum 'Smith/Kotzen'
Capa do álbum ‘Smith/Kotzen’

Adrian Frederick Smith, amante de Deep Purple, Pete Travers e Johnny Winter, começou a tocar guitarra aos 16 anos, incentivado pelo seu colega Dave Murray. Este lhe comprou de presente a primeira guitarra por 5 libras. Anos de amizade se passaram e um pouco depois de terem sido colegas na banda Urchin, que acabou em 1979, ele foi convidado pra substituir Dennis Straton no Iron Maiden… o resto da história você já sabe, não é verdade?

Ritchie Kotzen, amante de Kiss, começou a aprender piano aos 5 anos e aos 7, guitarra. Sendo um músico muito profícuo, teve experiências variadas na música. Dentre elas, substituiu Paul Gilbert na banda Mr. Big, gravou um disco com a banda Poison, sendo o principal compositor, foi convidado a formar uma banda por Stanley Clarke, faz parte hoje da banda The Winery Dogs e finalmente, pode-se dizer que a sua carreira solo de mais de 20 discos, continua “de vento em popa”.

Esses dois exímios guitarristas somaram esforços recentemente e formaram uma dupla de peso, com o intuito de gravar um álbum que tivesse como base suas influências e seus gostos musicais evidenciados. Algo que fosse descontraído e livre. Conseguiram…

Ouvindo “Smith/Kotzen”, logo de cara, fica fácil perceber que tudo saiu a contento e que em todas as canções os caras conseguiram colocar toda a espontaneidade e parceria, de modo direto, simples e ao mesmo tempo, com uma competência atroz!

O álbum que gravaram não se pendurou em um virtuosismo etéreo. E sabemos bem o quão virtuosos eles são. As canções representam não as suas características individuais como instrumentistas. Elas passam de maneira muito genuína, aquilo que eles entendem por música, por melodias de guitarra, por como dois caras que tocam o mesmo instrumento e cantam, podem consorciar isso naturalmente e sem nenhuma pressão.

As faixas têm uma cadência “bluesy” que ancora as melodias perfeitamente e tudo isso é montado e desenvolvido com uma simplicidade tal, que parece que eles já são parceiros musicais há tempos. Ambos estão cantando com gosto e puxando da alma suas vocalizações. Nota-se uma descontração que embala as canções de forma equilibrada e com todo um balanço musical que certamente vem da bela parceria que aconteceu entre ambos.

O disco é surpreendente e tocante. É aqueles que você balança a cabeça e bate o pé no chão instantaneamente já na faixa de abertura e vai te levando com seus solos básicos e bem construídos, através de uma levada que tem “groove” e peso na medida. O disco apresenta características próprias do rock feito nas décadas de 70, 80 e 90, sem que isso se torne uma miscelânea sem sentido. Pelo contrário.

Depois de ouvir o álbum algumas vezes, percebemos uma multifacetada influência presente nas canções. UFO, ZZ Top, Soundgarden, Led Zeppelin, Whitesnake, Grand Funk Railroad, Creedance Clearwater Revival, Lenny Kravitz, Rod Stewart e Steve Ray Vaughn estão muito bem lembrados e homenageados aqui.

Há nisso outro ponto positivo. Dentro de uma mesma música eles encontram com facilidade a possibilidade de unir elementos dessas décadas. Seja na melodia aliada a sonoridade dos solos, seja nas vocalizações duplas e alternadas, mescladas com o instrumental feito pra duas guitarras harmonizarem em tons parecidos, mas diferentes.

De fato, a união desses dois guitarristas de gerações diferentes, proporciona uma mescla que ficou interessantíssima. Os dois são bluseiros, sendo que Adrian puxa mais pra esse lado e para a coisa do metal e “Ritchie” (Adrian o chama assim), traz uma influência R&B e Jazz Fusion bem forte. Esse blend ficou perfeito. Um músico complementou o outro e as composições saíram com um músico dando início a uma ideia e o outro terminando isso.

“Bem, nós nos conhecemos a cerca de dez anos atrás… Periodicamente, ele fazia eventos na casa dele, ele tem um cômodo com todas as guitarras lá e tudo mais, e a gente só tocava… uma das vezes alguém sugeriu que a gente tentasse compor uma música juntos, então a gente topou e a primeira faixa que eu lembro de surgir foi ‘Running’”, relata Kotzen. “Acho que Richie e eu nos complementamos muito bem… Ele é um guitarrista virtuoso, mas tem um enorme senso do que é melodia”, atesta Adrian Smith.

“Eu estou realmente fazendo isso? Tenho que me beliscar às vezes um pouco. Mas é uma grande oportunidade, é muito louco pensar que eu estou aqui fazendo um disco com um dos meus heróis, sabe”, continua Kotzen.

Além de Smith, outro integrante do Iron Maiden bate ponto neste trabalho. Trata-se de Nicko McBrain, o todo poderoso baterista da banda. “A forma como ele toca em ‘Solar Fire’ é fantástica… as viradas, o tempo… estava tudo no ponto certo. Foi muito empolgante ter a oportunidade de contar com meu nome próximo ao dele”, derrama-se Kotzen.

Amigo de longa data e parceiro de turnê de Ritchie, Tal Bergman toca bateria nas faixas “You Don’t Know Me”, “I Wanna Stay” e ‘’Til Tomorrow”. Milti-instrumentista, Kotzen assume as baquetas em outras cinco faixas.

“Take My Chances” abre o álbum e foi lançada como o primeiro single ano passado. De prima, já se nota algo diferente em se pensando no que poderia ser produzido por dois guitarristas sabidamente técnicos e solistas de mão cheia. Rock and roll básico com pequenos solos entremeados à base harmônica. Ambos dividem o vocal e isso dá uma diferenciação incrível a canção.

“Running” é a favorita de Adrian. Uma pegada blues bem sólida em seu riff, com um refrão delicioso e direto, trazendo um frescor e uma modernidade incrível. Um pouco mais acelerada e muito bem cantada pelo guitarra do Maiden.

“Scars” traz um andamento mais lento e soturno, com mudanças repentinas de tempo. Isso com ótimos vocais e um peso que se ajusta muito bem à melodia. É emocionante. Aqui Kotzen segura o baixo e a batera, além de fazer um lindo solo de guitarra.

“Some People” mostra um pouco do que ambos os guitarristas têm encruado de Whitesnake neles. Tem riff  funky e solos esfuziantes. Isso dá a canção uma característica bem impulsiva e agressiva. É uma grande harmonização entre o R&B e o rock básico.

“Glory Road” é baseada numa troca constante de um com o outro nos vocais. Tem um refrão bem grudento e agradável. Tem um riff básico calcado inteiramente no blues. E aparecem outros riffs complementando. São vários em looping. Que canção…

“Solar Fire” é puro British Blues Rock, à la Rory Gallagher. Um peso incrível e ainda como a cereja do bolo, as batidas estão metronômicas, estão a cargo de Nicko MacBrain! Tem um groove estrondoso e uma base melódica do blues que te gruda nos ouvidos.

“You Don’t Know Me” é um blues médio tempo, que lembra muito o UFO. Melodia de balada cativante e emocionante demais. Solo espetacular de Adrian e um prato cheio pra improvisações ao vivo. A maior canção de todas.

“I Wanna Say”. Essa sim é uma grande balada. Kotzen sola lindamente com uma das “Jacksons” de Adrian emprestada. Talvez seja a mais pop do álbum, mas sem destoar em nada das demais canções.

Eles fecham com a suavemente funkeada “Til Tomorrow”. Mas que com o desenrolar do riff, vai ganhando peso e os desbundantes solos vêm em sequência, dando a impressão que ela não vai terminar nunca.

Esse disco não foi desenvolvido por um supergrupo. Não foi composto com o intento de ser aclamado e tocado em grandes arenas. Ele foi feito em parceria, por dois amigos igualmente talentosos. Eles foram generosos um com o outro e sente-se um clima muito relaxado, enquanto vai se fazendo a audição do disco. Trabalhos como esse me fazem lembrar muito da parceria (David) Coverdale & (Jimmy) Page que, a meu ver, é ótima e tão subestimadíssima. Aliás, até deu vontade de ouvir agora mesmo…

 

Nota: 9 / 10

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