Bossa Nova

Ainda João Gilberto

É um dos meus maiores ídolos, numa lista de poucos nomes. Aprendi a ouvi-lo desde criança e, tão logo pude, comprei todos os seus CDs lançados no Brasil (apesar de já ter tido uma coleção de mais de 10 mil peças, JG é um dos poucos nomes dos quais tenho quase tudo).

Passei (ou quase passei) uma divertida história com ele. Em certa ocasião, fui entrevistar Paulinho Tapajós, outro craque da música. Ao sair do trabalho, eu e meus amigos estávamos próximos do restaurante Degrau, onde João sempre pedia delivery. Entramos lá e fiz uma delicada negociação para obter seu telefone. Desconfiávamos de que ele era vascaíno e não tricolor, o que se confirmou, mas imagine conseguir conversar com João Gilberto sobre futebol? A fonte me passou o número mas pediu todo cuidado, alertando que o risco de não ser atendido era grande.

Tentei por um mês diariamente, usando vários telefones diferentes. Tocava, tocava, tocava, ninguém atendia. Era ele mesmo.

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Até ontem, João Gilberto era o maior artista brasileiro vivo em qualquer área de atuação. Ao lado de nomes como os de Pelé e Garrincha, Glauber Rocha, Paulo Autran, Oscar Niemeyer, Haroldo e Augusto de Campos, mais seus parceiros da Bossa Nova, JG ajudou a construir aquele que talvez tenha sido o período mais rico da vida cultural brasileira, fincado entre o fim dos anos 1950 até o golpe de 1964.

Um momento em que o Brasil parecia mostrar ao mundo a que veio.

Não é à toa que João seja unanimidade em todo o Estado Maior da MPB: Chico, Gil, Gal e Caetano são seus discípulos diretos. Toda a segunda geração da Bossa Nova lhe reverencia entusiasmada: Marcos Valle, Carlos Lyra, Dori Caymmi.

A partir de então, a lista é interminável. Ninguém soube valorizar tanto os nossos heróis musicais do passado como ele: Ary Barroso, Alcyr Pires Vermelho, Noel Rosa, Dorival Caymmi. As interpretações são únicas e imbatíveis.

Morto, ele continua sendo o maior artista brasileiro vivo.

Aqui seu último concerto, por ocasião das celebrações dos 50 anos da Bossa Nova, que jamais existiria sem ele.

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Muito se tentou atribuir a JG em termos de excentricidade e humor, às vezes colocando sua obra monumental em segundo plano. É certo que o próprio artista ajudou nisso, mas nunca se cogitou que sua reclusão fosse também fruto de uma enorme decepção com o Brasil que ele ajudou a construir e no que se tornou.

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Num desses infindáveis documentários BN, há um depoimento de Sérgio Ricardo, outro orgulho nacional para quem o conhece, contando sobre como João Gilberto lhe apresentou as ideias marxistas.

Sérgio é outro dos nossos monstros maiores.

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O fim chega para todos, mas certas pessoas deveriam ser proibidas de morrer. João Gilberto certamente era uma delas.

Que um dia sua obra seja reverenciada à altura de um brasileiro que conseguiu entrar de igual para igual numa disputa de Grammy com ninguém menos do que os Beatles.

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O Brazil ainda precisa conhecer o Brasil.

@pauloandel

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