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Aldir Blanc (1946-2020): ‘Sentindo frio em minh’alma’

“Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu”… Tomos emprestado versos de chico Buarque para resumir a tristeza que assola o Brasil com a perda de outro autor gigante da nossa MPB. Aldir Blanc, o cronista das ruas, dos bares, de amores e dores, o poeta de versos finos e chulos, nos deixou após 24 dias de enfrentamento contra esta praga de vírus. Impedido de beber por motivos de saúde, há anos Aldir Blanc saía pouco de casa e poderia nos dar úteis conselhos sobre como viver em dias de isolamento. Embriagava-se de livros, sorvia mais e mais conhecimento e tinha muito mais a nos ensinar fosse numa nova letra fosse uma conversa descompromissada. Mas sua vida, suas palavras e seu canto não resistiram ao vírus global que nos roubou um cidadão do mundo que nunca deixou o país, mas soube como poucos nos dar os versos certos para cantar por quem precisava para cá voltar quando voltar era preciso.

E assim foi feito. E nós sonhamos “com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu / num rabo de foguete”. Gerações inteiras foram embaladas pelas canções eterna da parceria João Bosco & Aldir Blanc, um doce Flamengo X Vasco que terminava sempre numa boa. Mei primeiro contato com a obra de Aldir foi por meio de um vinil que não era pequeno demais para ser um LP e grande demais para ser um compacto da maravilhosa coleção de História da MPB que a Editora Abril levava às bancas. Colecionei muitos deles e me apaixonei irremediavelmente por música brasileira nessa época em que já ouvia riffs de rock and roll. Quando eu tinha dez anos dez, doze anos de idade, era comum a garotada ouvir Rolling Stones; difícil era um moleque cantarola o “Mestre Sala dos Mares”, “Agnus Sei” ou a veloz “Kid Cavaquinho”. Embora não negasse jamais o rock, eu era um desses. Aldir Blanc ajudou a forjar minha identidade musical embora instrumento algum eu toque ou venha a tocar.

O noticiário (duro) sobre sua perda eu não vou trazer aqui. O poeta já sofreu demais, sua família já sofreu demais. Pelas redes sociais, soube do apelo da família. Fui acompanhando o drama pedindo os últimos relatos de amigos com acesso à família, e não o fazia por dever de ofício mas com o coração aflito de quem estava “sentia frio em minh’alma”. Escrever sob o impacto do luto é difícil, pois você mal sabe como começar e jamais tem a ideia de como vai terminar. Desde cedo, vi vários depoimentos de artistas e intelectuais sobre este viaduto que caiu sobre nós na madrugada de 4 de maio. E tomo do bravo Xico Sá sua reação: “Aldir Blanc não, pelo amor de Deus”.

Baterista na juventude, médico, escritor e letrista da constelação de Noel, Vinicius e Chico Buarque. Jamais estive com ele, mas sabia de sua generosidade, sua docilidade. Acho que Aldir não rimava mais com esse Brasil repugnante de ódio e preconceito que bate à nossa porta, mas foram os versos do poeta que nos ajudaram a chutar o bicho feio da ditadura para escanteio e será com eles que vamos vencer de novo. Você já fez muito por nós, mestre. Chegou nossa hora de fazer por ti.

Pouca gente sabe que Aldir nos deixou um belo álbum em que nos apresentava sua boa voz. E quem melhor para cantar as criações do que seu criador, com aquele emissão que vem direto do sentimento. Moacyr Luz, parceiro de Aldir nos conta uma história divertida sobre o álbum “Vida Noturna” (20050, que consagra Aldir também como um sabiá de nossa música: “O CD ‘Vida Noturna’ foi uma produção que eu realizei ao lado do parceiro, negociando as limitações dele, sempre recluso… Convenci o Aldir a cantar aquelas músicas mais densas que a gente tratava como ‘drink music, música da madrugada’… Levei o projeto pra lua discos, pouca verba, mas precisava ser feito. em três visitas do Cristóvão fechamos os tons e andamentos…. Aldir sugeriu os convidados… eu apresentei o Helio Delmiro e o repertório se definiu… Prometi ao Aldir que ele só iria ao estúdio em três sessões…prometi ao Aldir que o Almerio, taxista do ponto na rua seria o seu condutor por todo esse período de gravação… Ah, também prometi que haveria sempre duas garrafas de uísque na cozinha do estúdio. Em três dias alternados, quatro bases definitivas por sessão até fechar a cortina num sábado quente com todos realizados e conscientes que estava nascendo um clássico”.

Fiquem com “Vida Noturna”:

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