MPB

Aldir Blanc: Perdemos um mito

Por George Patiño
Especial para o Na Caixa de CD

Perdemos Aldir Blanc. Perdemos a capacidade de ouvir. Deixamos escapar pelas mãos de Marias e Clarices a definição do que seja, de fato, um mito. Perdemos a noção do perigo. Mito, segundo uma das definições dicionarizadas encontradas por este navegante, “é um relato fantástico de tradição oral protagonizado por seres que encarnam as forças da natureza”. Aldir era mestre-sala dos mares. Era força da natureza.  Era mito. Pode ser, eu admito, que um mito morra para a carne. Mas será eterna sua alma.
Mas calma! Não percamos a nossa esperança equilibrista e a nossa capacidade de sonhar. Pois, a despeito de momentos transitórios, de “covids” covardes, covis de piratas pirados e pandemias e pandemônios, o show de todo artista há de continuar. Mesmo que seja numa live. Há de viver! A cultura, na penúria em que se encontra, há de resistir. Governos e invernos passam. Mas é triste constatar que um artista do porte de Aldir, que tanto deu à cultura brasileira, morra por descaso, por falta de planos, de hospitais, de leitos, de eleitos. A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão, arte e saúde. A gente quer viver. Aldir propagou a vida.  Aldir musicou a vida. A morte, definitivamente, não lhe cai bem!

Aldir e João; João e Aldir: unha e carne, cordas e palavra – Foto: Reprodução

Aldir e João, João e Aldir. Eram unha e carne, voz e violão. Durante 20 anos não se falaram. Coisas da vida, alguém há de dizer. Juntos, criaram o hino da redemocratização: “A esperança e a equilibrista”.  Eternizaram o irmão do Henfil. Naquela época, realmente Betinho era apenas o irmão, mas a partir de seu retorno ao Brasil, vindo do exílio, talvez impulsionado pela música, talvez pelo desejo de um país mais justo, seguiu sua missão tentar deter a fome. Morreu Betinho infectado pelo descaso com a fiscalização aos bancos de sangue. Morreu Aldir, infectado pelo coronavírus.

Estive uma vez com Aldir Blanc e foi o suficiente. Vascaíno de boa cepa, morador da Muda, Aldir era voz. Era alto-falante.  Era alto. Era virginiano. Entra ano e sai ano, Aldir era sempre Blanc. Aldir era sempre Aldir. Era toda uma Era. Será sempre! Do samba à MPB, da medicina às crônicas, aos blocos de carnavais. Da boemia aos becos. Da Rua Garibaldi para o mundo. O mundo hoje está mais pobre. Morreram Marias e Clarices, morreram Aldir Blanc. Caia a tarde feito um viaduto, tá lá um corpo estendido no chão.

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