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Amália Rodrigues – o primeiro centenário de uma lenda

Nesta quinta-feira celebra-se o centenário de nascimento de uma das grandes vozes do século e da língua portuguesa. Amália Rodrigues (1920-1999) projetou a música das vielas de Alfama para muito além das tradicionais casas de fado lisboetas e correu o mundo com sua arte. Seu magnetismo pessoal, a beleza e, obviamente, a voz conquistaram o mundo como numa nova era das navegações. A artista arrancou aplausos nos maiores palcos do planeta. Lenda em seu Portugal, a fadista , deixou imensa discografia e participa de incontáveis compilações. A cantora manteve relação íntima com o Brasil, sua música e alguns de nossos mais expressivos artistas, entre os quais Elizeth Cardoso, Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes.

Amália atuou em espetáculos de revistas e operetas antes de firmar-se em carreira solo - Foto: Reprodução
Amália atuou em espetáculos de revistas e operetas antes de firmar-se em carreira solo – Foto: Reprodução

Fã assumido de Amália, o jornalista e pesquisador Ricardo Cravo Albin situa a cantora portuguesa como uma das cinco cantoras decisivas do século 20 num panteão no qual figuram a francesa Edith Piaf, a americana Billie Holliday e a brasileira Elizeth Cardoso. “Sua voz ia do agudo ao grave de forma absolutamente perfeita. Foi a intérprete perfeita para levar o fado ao mundo inteiro”, comenta.

Cantora, atriz, poetisa, Amália da Piedade Rebordão Rodrigues trabalhou como costureira, operária e vendedora. Desde a infância, demonstrava aptidão para o canto. Iniciou a carreira profissional em 1939, na casa de fados Retiro da Severa e atuou em espetáculos de revista e operetas até 1947.

A conexão com o Brasil começa em 1944 quando se apresenta com enorme sucesso no Cassino Copacabana. No ano seguinte, volta ao país para gravar seus primeiros fonogramas em formato de compactos de onde sairiam temas como “Fado Xuxu” e “Ai Mouraria”, ambos de Amadeu do Vale e Frederico Valério. Gravou ao todo 16 singles, com acompanhamento de orquestra de guitarras portuguesas sob a direção de Fernando de Freitas.

Em 1949, Amália gravou pela Continental canções como “Sabe-se Lá… “ (Frederico Valério / Silva Tavares), “Confesso” (Frederico Valério / José Galhardo) e “Fado da Saudade” (Frederico de Freitas / José Galhardo) e “Dá-me Um Beijo” (Frederico de Freitas e Silva Tavares).

Amália gravava no Brasil porque a indústria fonográfica de Portugal era insipiente, mas suas constantes vindas ao país deixaram influência em sua obra. A cantora gravou temas do cancioneiro brasileiro como “Calunga” (Capiba) e “Cabecinha no Ombro” (Paulo Borges). E um de seus maiores sucessos, “Barco Negro”, com poesia de David Mourão Ferreira, é, na verdade, uma versão com novo ritmo, arranjo e letra para “Mãe Preta”, da dupla Piratini e Caco Velho. Assista aqui uma interpretação de Amália para esta canção em Cannes, na França, em 1962:

Em projeto com o compositor luso-francês Alain Oulman, Amália gravou “Naufrágio”, poema da brasileira Cecília Meireles. Do Brasil ainda buscou outro título, “Formiga Bossa-Nova”, do português Alexandre O’Neil que Oulman também musicou. Popular no país, até em novela atuou: fez uma participação especial na novela “Os Deuses Estão Mortos”, de 1971, exibida pela TV Record.

A cantora apresentava-se regularmente em palcos tradicionais de Paris e Roma. Levou as canções que tocam no fundo a alma portuguesa ao Japão e à Broadway. No Brasil, sua casa de afeto era o extinto Canecão. Seus shows no templo da MPB eram sempre lotavam e renderam o álbum “Amália no Canecão” (1973). Neles, a cantora apresentava-se com coro e orquestra rompendo com a formação tradicional fadista de voz, violão e guitarra portuguesa. “Amália se sentia muito à vontade no Canecão, pois o Mário Priolli (dono da casa de espetáculos) fazia de tudo para agradar a ela e aos músicos. E Amália, por sua vez, não cansava de dizer ao Priolli que o canecão era um dos melhores palcos em que ele se apresentara”, recorda Ricardo Cravo Albin. Ouça o álbum completo aqui:

Capa do álbum 'Amália/ Vinicius', de 1970, registro de um encontro histórico na casa da cantora dois antes - Foto: Divulgação
Capa do álbum ‘Amália/ Vinicius’, de 1970

E um de seus trabalhos mais interessantes também foi gravado ao vivo, mas de sua casa. Lançado em 1970, “Amália Vinicius” é fruto de uma visita do Poetinha à cantora em Lisboa, em 1968. Nesse encontro também estavam os poetas portugueses Ary dos Santos e Natália Correia. Os registros originais desta reunião poético-musical têm duas horas de duração. Para caber num LP, foram reduzidas pela metade. “É um dos álbuns mais interessantes tanto da Amália quanto do Vinicius. O encontro varou madrugada adentro e Vinicius tomou mais outras do que umas e sua voz estava particularmente muito macia. Os dois trocam conversas e versos de forma muito autêntica”, conta Cravo Albin que lembra de ter recebido o álbum das mãos de Amália bem antes que este fosse lançado no Brasil, o que só viria a ocorrer em 2001 aos cuidados da Biscoito Fino. Entre as faixas, destaca-se “Saudades do Brasil em Portugal” (Vinicius de Moraes e Homem Cristo), que tem duas versões no álbum, uma cantada por Vinicius e outra por Amália. Mesmo em Portugal, o álbum não teve o destaque merecido pois sofreu restrições pelo famigerado DIPE, o órgão de censura da ditadura salazarista. Ouça esta preciosidade aqui:

E, no caminho inverso, Amália também fez a cabeça de intérpretes brasileiros: o fado clássico “Estranha Forma de Vida” (Amália Rodrigues e A. Duarte Marceneiro) ganhou releituras de intérpretes brasileiros como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Roberta Miranda e Joanna. Veja aqui a releitura de Caetano neste belíssimo clipe:

Acusada de simpatizar com a ditadura de Salazar, a artista perdeu popularidade em Portugal após a Revolução dos Cravos (1974), mas o escritor José Saramago revelou, anos depois, que a cantora ajudava financeiramente o Partido Comunista Português (PCP) nos anos mais terríveis do salazarismo.

Nascida na tradição fadista, Amália Rodrigues também contribuiu para a ressignificação do gênero – Foto: Reprodução

Embora escrevesse poemas, Amália só viria a gravar um álbum 100%, em 1980: “Gostava de Ser Quem Era”, com dez fados originais com letras de sua autoria. Em 1997, seus poemas foram publicados no livro “Versos”. Muitos deles, musicados, são sucessos de sua carreira, como “Estranha Forma de Vida” e “Trago o Fado nos Sentidos”.

Embora nascida nas tradições fadistas, Amália foi decisiva na renovação estilística do gênero. Até na indumentária, quando adota o xale negro em substituição ao colorido das vestes de outras fadistas. Além de gravar fados clássicos, Amália musicou versos de grandes poetas portugueses como Luís de Camões e Bocage.

Ao longo da carreira, a voz da diva passa por transformações. Os agudos do início da carreira passam a dar lugar a timbres em regiões mais baixas, mas sempre mantendo afinação exemplar e frases bem delineadas em interpretações de alta carga de dramaticidade. Amália vive!

 

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