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Anitta, feita em Honório para desnudar preconceitos

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Por Maninho Pacheco

Fui um moralista musical até por volta de 2017. Enchia a boca cheia de dentes para desancar o funk, por supremo subproduto da vulgaridade. Me arvorava um sujeito de sofisticação e bom gosto musicais. Desancava letras e melodias das comunidades, sobretudo as do Rio, mas também as dos hip-hop das quebradas paulistanas. E as afrontava com Tom, João, Bossa Nova e jazz, a partir de um velhaco discurso moralista em defesa da “pureza” e do “bom gosto” da MPB. Mal sabia eu que a estupidez não estava nos proibidões ou nas letras sacanas e nas de forte apelo erótico-pornográfico do funk. A estupidez residia na arrogância de uma farsa intelectual que eu assumia como personagem. Eu era o estúpido. Até que, em 2017, o clip “Vai malandra”, de Anitta, me chamou atenção.

E a artista me prendeu, por todo o sempre. Sua atitude provocante e sensual me foi um tapa na cara. Um sacode, para me despojar das velharias preconceituosas que vinham em mim se acumulando, com tudo para me tornar um velho arrivista e mal-humorado, saudosista e resistente ao novo. Fui salvo por Anitta dessa degradação pessoal.

Banner da série 'Anitta - Made in Honório', da Netflix - Foto Divulgação
Banner da série ‘Anitta – Made in Honório’, da Netflix – Foto Divulgação

Nesta sexta de Natal, deixei de lado a leitura do excelente “Samuel Wainer – O homem que estava lá”, de Karla Monteiro, para um necessário escapismo. Acessei a Netflix e maratonei a série em seis episódios “Made in Honório”, de Andrucha e Pedro Waddington, um recorte da vida de Anitta no ano de 2019. Um instigante diário de bordo de uma artista ligada, full-time, nos 220 volts.

“Made in Honório” nos mostra a vida da malandra Anitta como ela é: uma profissional completa, cônscia de cada detalhe de sua atividade, controle total e absoluto desde a meticulosa escolha do vestuário ao design da luz, além da coreografia, segurança pessoal, logística delirante a bordo de seu jato particular em todo o país, EUA e Europa e, claro, letras das canções, melodias e arranjos. Nada escapa a essa artista, cujo empresário é a própria.

Mas, a partir do documentário, não se aprende apenas o lado empresarial e artístico da personagem Anitta. Mas, sobretudo, sobre a menina Larissa, do subúrbio do Rio, de Madureira e Honório Gurgel. E a devoradora de homens e mulheres. Sem frescura alguma. Se é para ficar com meninos, ela fica. Se a caça for meninas, idem. Tudo isso contado às gargalhadas. Mas essa é apenas a parte humana e engraçada. O que salta aos olhos é a perfeccionista Anitta que não admite erros, falhas, atrasos. E tome de esporro na equipe, 24 horas por dia. Veja o trailer da série aqui:

Anitta é nossa workaholic self-made woman, imagino, sem paralelo no cenário musical. Talvez Bethânia tenha tanto controle de sua vida artística. Anitta nos prova que a periferia, as comunidades, as favelas desenvolvem uma produção cultural central, que reproduzem em canções e batidas o universo que se vive nesses locais. Aos velhacos que pateticamente torcem o nariz para o som que surge do preto e do favelado, nunca é demais lembrar a origem oprimida do jazz, nas plantações de algodão de uma América segregacionista, ou do samba, na época em que sambistas eram associados a malandro e gatunos, e eram presos por tocarem violão e baterem instrumentos de percussão.

Vai malandra!

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