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Aos Pés da Cruz – O coração continua a ter razões que a própria razão desconhece

Em 2014, Gilberto Gil gravou “Aos pés da cruz” em estúdio e ao vivo

Por André Luis Câmara

Lançado há 80 anos por Orlando Silva, o samba “Aos pés da cruz” se tornou clássico da bossa nova na interpretação de João Gilberto e depois foi recriado por Gilberto Gil. A história sobre o dia da primeira gravação desse samba poderia começar assim: aquela quinta-feira, 15 de janeiro de 1942, amanhecera na cidade do Rio com previsões de tempo bom, alguma nebulosidade e temperatura elevada. O mundo amargava a Segunda Grande Guerra, o Brasil vivia sob as amarras do Estado Novo, jornais noticiavam a instalação da “III Reunião de consulta dos ministros de Relações Exteriores de países das Américas”. Algumas manchetes denunciavam “maquinações nazistas contra a conferência do Rio”. No dia anterior acontecera, no Palácio do Itamaraty, a reunião preliminar dos chanceleres, em preparação à solenidade que marcaria a abertura da conferência entre representantes dos países das Américas, que se opunham ao eixo nazifascista formado por Alemanha, Itália e Japão.

O Brasil vivia sob uma ditadura que mantinha a Câmara dos Deputados e o Senado fechados, e a informação era controlada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o poderoso DIP. Ao mesmo tempo, na cena cultural, principalmente na música popular, o governo gozava de enorme prestígio. Getúlio Vargas, ainda como deputado federal pelo Rio Grande do Sul, foi o autor do projeto de lei que, na segunda metade da década de 1920, regulamentou o direito autoral no país.

Fachada do edifício A Noite, onde funcionou a Rádio Nacional que tinha Orlando Silva como uma de suas atrações na década de 1940

Além disso, em 1932, já como líder da nação, profissionalizou o rádio, permitindo a propaganda nas transmissões radiofônicas. Como se não bastasse, em 1940 incorporou a Rádio Nacional (criada em 1936 pelo jornal A Noite) aos bens da União, deixando, todavia, que a empresa continuasse a se manter com recursos obtidos dos anunciantes. Em pouco tempo, a Nacional se transformou em fenômeno de audiência, divulgando grande parcela de todas as preciosidades criadas pela música popular brasileira no século XX. Entre as principais atrações da Nacional estava Orlando Silva.

 

 

Canto para amenizar as guerras

Ao sediar a conferência dos chanceleres, que seria presidida pelo ministro Oswaldo Aranha, o Estado Novo formalizava a decisão de aliar o Brasil aos Estados Unidos e demais países das Américas no combate ao eixo formado por Alemanha, Itália e Japão, que até pouco tempo pareciam contar com a simpatia do governo brasileiro.

A aproximação com os Estados Unidos fora iniciada no ano anterior com o acordo diplomático que possibilitou a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que estava sendo construída em Volta Redonda, no estado do Rio. A conferência dos chanceleres acontecia um mês e meio após o ataque do Japão à base naval dos Estados Unidos em Pearl Harbor, no Havaí, a 7 de dezembro de 1941.

Naquela quinta-feira, o “cantor das multidões”, como o chamara o radialista Oduvaldo Cozzi, se preparava para a gravação do samba que viria a ser um dos maiores e últimos grandes feitos do período áureo de sua carreira. Não se sabe se dava importância aos problemas da Segunda Grande Guerra e à ditadura varguista. Certo é que, como boa parte dos artistas de rádio da época, admirava o presidente. Além do mais, tinha uma maravilhosa carreira que o absorvia, depois de uma infância pobre, e de ter trabalhado como operário, entregador, trocador de ônibus. Filho de Balbina Garcia da Silva, que era lavadeira, perdeu ainda quando muito criança o pai, José Celestino da Silva, limador da Estrada de Ferro e violonista amador, que morreu de gripe espanhola. Ainda bem jovem, teve os dedos de um dos pés esmagados por um bonde e, para aliviar a dor, tomara morfina durante certo tempo. Naquela época, não precisava se justificar (e nem hoje precisaria) de nada, queria cantar, gravar, vender discos e fazer sucesso. Enorme sucesso. Sua vida e sua arte seriam mais tarde contadas por biógrafos como Jonas Vieira e Jorge Aguiar, entre outros.

Orlando Silva nos áureos tempos do “cantor das multidões”

Para a realização da conferência no Palácio Tiradentes, que na época era a sede do DIP, desde as sete horas da manhã o trânsito fora interditado nas ruas da Assembleia e São José, e nas imediações da Praça XV. A partir das três da tarde, o tráfego de veículos ficaria ainda interrompido na Avenida Rio Branco e na Rua do Catete, para o deslocamento do presidente e demais autoridades. Vale lembrar que o Palácio do Catete era o local dos compromissos oficiais, enquanto a residência do presidente era no Palácio Guanabara, em Laranjeiras.

Reprodução de fotos publicadas no Correio da Manhã, na edição de 16 de janeiro de 1942. A legenda dizia: “Nas extremidades, o presidente da República e o sr. Sumner Welles, subsecretário de Estado norte-americano, agradecendo a manifestação popular ao chegarem ao Palácio Tiradentes para a inauguração da Conferência. Ao centro, o chanceler da Argentina, sr. Ruiz Guinazú, ao subir as escadarias do Palácio

Segundo noticiou O Jornal, um dos periódicos dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, na edição de 16 de janeiro de 1942, dia seguinte à conferência, a multidão “se comprimia contida pelos cordões de isolamento em toda a rua da Assembleia. O povo aguardava, desde cedo, a passagem dos ministros americanos e do presidente da República, que por ela deviam transitar procedentes da Avenida, tão ou mais cheia ainda”.

Embora houvesse toda essa movimentação, o Cine Pathe, na Cinelândia, continuava a anunciar a exibição de As aventuras de Robin Hood, estrelado por Errol Flynn, que ficaria em cartaz até o domingo, com seis sessões, das 2h da tarde às 10h da noite. Não muito longe dali, no Teatro Recreio, próximo à Praça Tiradentes, Walter Pinto e sua Companhia de Revistas apresentariam, às 20h e 22h, o espetáculo Você já foi à Baía (sem o “h” mesmo) escrito por Freire Júnior. No elenco, nomes de peso do teatro de revista e das chanchadas do cinema, como Aracy Cortes e Oscarito.

História feita no estúdio

Detalhe do 78 rpm com o samba gravado em 15 de janeiro de 1942

Pode ser que Orlando Silva tenha se dirigido ao estúdio da Victor (já chamada de RCA Victor, ao se fundir à Radio Corporation of America) somente após o início da conferência, quando o trânsito devia estar menos tumultuado. Se o estúdio da gravadora ficasse ainda na Rua do Mercado 22, perto da Rua do Ouvidor, no centro da cidade, certamente haveria contratempos para o deslocamento do cantor e todos os demais envolvidos. No entanto, diferente do selo de discos da Victor lançados no último trimestre de 1941, o endereço que consta no disco gravado em 15 de janeiro, e que seria lançado em março de 1942, não é o da Rua do Mercado 22, é já o da Rua Visconde da Gávea 125, na Gamboa. Fica a dúvida: em 15 de janeiro de 1942, o estúdio já teria sido transferido para o novo endereço? Naquele ano de 1942, discos da Victor apareceriam com o endereço da Praça da República 17. Teria sido lá que Orlando Silva gravou um de seus últimos grandes sucessos?

Se havia dificuldades para chegar à gravadora, pouco importava. Para Orlando Silva, era um dia de glória em sua carreira. E a manifestação cívica no centro da cidade fazia a data se tornar ainda mais especial. Meses depois, turbulências pessoais abalariam seu relacionamento amoroso com a atriz Zezé Fonseca, ele se afundaria pesadamente nas drogas (uns falam em morfina, outros em cocaína), situação agravada por um problema nos dentes que lhe causava imensa dor, e sua voz, límpida, começaria a se perder.

Contudo, era ainda o grande Orlando Silva quem, naquela quinta-feira de uma das primeiras semanas de 1942, estava acompanhado por Passos e sua Orquestra na gravação que ficaria registrada no lado A do disco 78 rpm lançado com o número Victor 34880. O samba escolhido tinha sido apresentado pelo cantor em sua excursão pelo Nordeste, no fim de 1941. Ainda menino naquela época, no Ceará, o pesquisador musical Jairo Severiano recordaria, em fevereiro de 2014, em entrevista a este redator:

“Esse samba aí, na minha cabeça, era de 1941. Naquele ano, o Orlando Silva ainda no auge do sucesso fez uma temporada em Fortaleza (CE) e a grande novidade que ele apresentou, entre setembro e outubro de 1941, foi justamente ‘Aos pés da cruz’. Posteriormente, eu vi que se tratava de um samba lançado em disco em 1942. Mas já estava no repertório dele naquela temporada no Nordeste. Para mim é uma obra-prima”, afirmou.

Parceria num samba que ficou

A composição tem dois autores. Um é José Gonçalves, que foi morar, ainda criança, no morro da Mangueira, onde se tornaria parceiro de Cartola e Carlos Cachaça, conhecido pela alcunha de Zé com Fome, personagem que interpretava nas suas participações na Companhia Teatral Casa de Caboclo, fundada pelo bailarino Duque. Outra versão era que recebera esse nome por se recusar a participar de festas onde não houvesse comida para os músicos, que tocavam sem receber pagamento. Desde o fim da década de 1930, começaria a ser identificado pelo apelido com o qual se consagraria na história da música popular brasileira: Zé da Zilda. Com Zilda, sua esposa, também cantora e compositora, formaria a Dupla da Harmonia, e depois passariam a ser Zé da Zilda e Zilda do Zé. Dele, Orlando Silva já tinha gravado, em 1938, também na Victor, “Meu pranto ninguém vê”, uma parceria com Ataulfo Alves.

A dupla Zilda do Zé e Zé da Zilda

O outro autor do samba, que se tornaria grande sucesso naquele ano de 1942, era Marino Pinto. Assíduo frequentador do Café Nice, ponto de encontro de compositores e de cantores, entre as décadas de 1930 e 1950, vinha de parcerias com Ataulfo Alves, a começar por seu primeiro samba gravado, “Fale mal mas fale de mim”, na voz de Aracy de Almeida, em 1939. Desse compositor, Orlando Silva tinha gravado o belo “Preconceito”, uma das parcerias de Marino Pinto com Wilson Baptista. Na verdade, um disco recém-lançado, gravado em julho e distribuído em outubro de 1941, e um dos últimos da Victor a saírem com o endereço da Rua do Mercado 22 impresso no selo.

Em geral se atribui a primeira parte do samba a Zé da Zilda, com música e letra dele, e a segunda parte da letra a Marino Pinto, com melodia de Zé da Zilda. Embora Marino tenha começado como letrista, passou também a compor melodias. Na sua parceria com Mário Rossi, por exemplo, que chega a 40 canções, todas as melodias são suas, já que Mário Rossi compunha exclusivamente letras. Não seria, portanto, estranho que algum trecho da música de “Aos pés da cruz” tivesse a participação de Marino Pinto.

Dele teria sido a ideia dos versos “o coração tem razões/ que a própria razão desconhece”, retirados de um axioma do filósofo Blaise Pascal (1632-1662). Para alguns, uma argumentação pouco científica, largamente utilizada por poetas líricos e compositores de música popular capazes de ver e cantar a possibilidade de um músculo ter sensações e conter razões e sentimentos.

Marino Pinto, que não tocava instrumentos, finge acompanhar ao piano a grande cantora Helena de Lima, intérprete de muitas de suas canções (reprodução de foto publicada no Diário Carioca, em 12 de junho de 1958, p.6)

A letra gira em torno de um tema comum no samba e na canção popular, o da ingratidão daquele que deixou de amar ou não é fiel ao parceiro. Este se sente desprezado, traído. No entanto, aqui parece haver certa neutralidade. Certo é que se trata de lamentação chorosa daquela pessoa que se sente abandonada, deixada de lado, e que cobra promessas amorosas feitas pelo parceiro. Ao mesmo tempo, essas promessas são relacionadas ao coração que tem “razões que a própria razão desconhece”. Como se soubesse que é assim mesmo, é do coração, acontece no amor, e não há culpa, embora a pessoa rejeitada sinta sua dor e expresse sua mágoa.

O feliz encontro das ideias e dos talentos de Zé da Zilda e Marino Pinto, a voz inconfundível de Orlando Silva e a instrumentação de Passos e Sua Orquestra, com destaque para o naipe de metais (saxofone, trompete, trombone etc.), faziam do estúdio da Victor, naquele 15 de janeiro de 1942, cenário de um momento histórico.

A voz como instrumento

Dali a um mês aconteceria o Carnaval, a Terça-Feira Gorda cairia no dia 17 de fevereiro. É provável que a gravação tenha sido, desde o início, programada para lançamento após os festejos momescos, como acontecia com as chamadas “músicas de meio de ano”. Do lado B do disco viria a valsa “Sorrisos”, de Paulo Medeiros, gravada pelo “cantor das multidões” quatro dias depois, a 19 de janeiro, com acompanhamento de regional.

No lado A, a voz do admirável intérprete, inteiramente integrada ao arranjo orquestral, mostrava estar em seu apogeu. Era ali o céu de quem, pouco depois, desceria ao inferno da decepção amorosa e da dependência química e, como todo grande artista, provaria tempos de fracasso e decadência. Como o cantor único que ousou e soube ser, se firmaria como uma das vozes mais emblemáticas e reverenciadas da canção brasileira, ressoando, décadas mais tarde, na bossa nova de João Gilberto.

Entre as décadas de 1930 e 1950,  cantores e compositores se reuniam em locais como o Café Nice. A partir da esquerda: Orlando Silva, Cristóvão de Alencar, Nássara, Roberto Martins e Evaldo Rui
Passos e Sua Orquestra acompanhavam, em muitas gravações da Victor, cantores como Carlos Galhardo, Cyro Monteiro, Aracy de Almeida, Sílvio Caldas, Linda Batista, Patrício Teixeira, entre outros. Na época, essa orquestra era constante na programação da Rádio Mayrink Veiga, e chegou a lançar discos inteiramente instrumentais, ora com frevos de Nelson Ferreira ou José Gonçalves Junior, o Zumba, ora com um choro de Zequinha de Abreu, além de um curioso arranjo para “Danúbio azul”, a famosa valsa de Johann Strauss Jr.

No mesmo 15 de janeiro, Orlando Silva gravaria, também com Passos e Sua Orquestra, o fox-canção “Volta”, de Custódio Mesquita, que sairia em outro 78 rpm, lançado em maio.

Na introdução de “Aos pés da cruz”, os metais entram suavemente, reverberando um modo brasileiro para o estilo das big bands, então em voga na música internacional, característica que estaria também em outras orquestras, como a Tabajara. Feito um instrumento melodioso, a voz de Orlando Silva aparece em seguida à introdução e eterniza o samba que passaria a ser um dos maiores sucessos da música popular brasileira.

Ele canta duas vezes a letra inteira. Passos e Sua Orquestra fazem variações sobre a primeira parte da melodia. O cantor torna a cantar, agora apenas a primeira parte da letra. A orquestra finaliza com o agudo dos metais num grand finale. São três minutos e doze segundos em que não há um exagero da dor, do sofrimento. Como em muitos momentos da canção popular, principalmente em temas de Carnaval, a letra amarga, triste, se casa a uma melodia que não pesa. Ao invés disso, se abre, se desprende, canta e encanta. Na mais banal tradição popular, aqui, quase literalmente, “quem canta seus males espanta”. Ouça a gravação original na Discografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles.

Releitura das bossas

Esse clima, esse ambiente, essa vibração retornam, de maneira mais concisa e sem alarde, no primeiro LP de João Gilberto, lançado pela Odeon em 1959. “Aos pés da cruz” aparece como a quinta faixa do lado B de Chega de saudade. Na sequência completa, em CD ou formato de arquivo digital, seria a décima-primeira faixa, a penúltima do disco, que antecede “É luxo só”, de Ary Barroso e Luiz Peixoto. Ambas estão ali como uma referência e, ao mesmo tempo, reverência a uma vertente tradicional da música popular brasileira. Juntamente com “Rosa morena”, de Dorival Caymmi, que também trazia o estilo de compositor tradicional que passava pelo “filtro” da bossa nova, assim como “Morena boca de ouro”, com letra e música de Ary Barroso.

Contracapa do LP Chega de saudade que incluiu “Aos pés da cruz” no lado B

No mesmo ano de 1959, a RCA Victor lançaria um LP de Orlando Silva, com o título de Carinhoso, reunindo em novas gravações antigos sucessos do cantor. A comparação entre os fonogramas de 1942 e 1959 deixa claro o equívoco de tentar repetir a História, ainda mais quando esta já tinha atingido seu ápice. E a diferença se tornaria mais evidente, dois anos depois, quando a mesma RCA Victor lançasse, em LP, uma coletânea de Orlando Silva, Quando a saudade apertar. Desta vez, como faixa 2 do lado A, viria a reprodução da gravação original do samba de Zé da Zilda e Marino Pinto. A grandeza da segunda fase de Orlando Silva seria mais fácil de ser notada sempre que ele viesse a gravar canções novas, ao invés de se prender ao passado, como insistiu em fazer.

Ao longo de sua carreira, João Gilberto incluiria “Aos pés da cruz” na maior parte de suas apresentações. Tinha dez para onze anos de idade quando o samba foi lançado. Procuraria imitar o modo de cantar de Orlando Silva, na adolescência, em Juazeiro (BA), no conjunto que então formara com alguns amigos. E depois, já no Rio, como integrante do grupo vocal Garotos da Lua, em 1950. Na primeira vez que grava “Aos pés da cruz”, em seu LP de estreia, já liberto do modelo no qual se inspirava, João Gilberto interpreta esse samba da seguinte maneira: canta a letra somente uma vez e completa a gravação com um assovio entremeado de frases harmônicas “cantaroladas”.

É como se com o assovio evidenciasse que se trata de uma peça popularizada na memória coletiva. Uma peculiaridade é que não canta o último verso igual a Orlando Silva, “mas depois me esqueceu”. Tira o pronome pessoal oblíquo e canta apenas “mas depois esqueceu”. A faixa tem pouco mais de um minuto e meio de duração. Dezessete anos depois da gravação original, ressalta, sem orquestração, acompanhado apenas de violão e percussão suave, as características de tradição e de modernidade contidas na composição de Zé da Zilda e Marino Pinto.
Ouça aqui essa faixa no sítio do Instituto Memória Musical Brasileira (Immub).

O samba desce o morro

Capa do disco de Roberto Silva produzido por Lúcio Rangel e que trazia “Aos pés da cruz” como primeira faixa

No mesmo ano de 1959, “Aos pés da cruz” viria como faixa de abertura do LP Descendo o morro º 2, do cantor Roberto Silva. Lançado pela gravadora Copacabana, o disco tinha a produção do crítico musical Lúcio Rangel, que torcia o nariz para a bossa nova, apesar de grande amigo de Vinícius de Moraes. Como se sabe, foi por sua sugestão que Tom e Vinícius começaram a compor juntos, em 1956, para a peça Orfeu da Conceição, de Vinícius.

A bela e envolvente gravação de Roberto Silva procura dar a esse samba um aspecto mais “autêntico” do que o de João Gilberto. Ao menos parece que era essa a intenção naquele já longínquo último ano da década de 1950. É uma alegria ver que hoje as duas gravações não se opõem, antes se completam na diversidade da música popular brasileira. Ouça a gravação de Roberto Silva no sítio do Immub.

 

Mais que moderno, eterno

Muitos se sentiriam atraídos e se deixariam levar por essa mistura de leveza e sofrimento, o instrumentista Milles Davis, inclusive, no LP Quiet Nights, com arranjos de Gil Evans e repertório dedicado à bossa nova, lançado em 1963 nos Estados Unidos. “Aos pés da cruz”, com o título escrito em português mesmo, é a terceira faixa do lado A do LP.

Em 1974, em depoimento a Fernando Faro, no programa MPB Especial (que depois se chamaria Ensaio), da TV Cultura, Zilda do Zé lembrou sucessos de Zé da Zilda que ainda eram constantemente regravados com boa vendagem de discos. Citou “Aos pés da cruz” e mais duas composições de seu amado Zé, de quem ficara viúva em 1954.
Foram muitos os outros intérpretes desse samba, como Angela Maria, Wilson Simonal, Clara Sandroni, Joyce Moreno, Noite Ilustrada, Rosa Passos, Moraes Moreira e Gilberto Gil, entre outros.

Foi esse samba que levou Gil a idealizar um disco em homenagem a João Gilberto, que veio a ser Gilbertos Samba, de 2014. Segundo contou ao jornalista Leonardo Lichote, em reportagem publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, em 29 de março de 2014, três anos antes, quando estava na Austrália com o violão no colo, a música viera à sua mente, e talvez antes a seus dedos.

“Veio com os vários significados que ela me traz. Primeiro como uma canção muito representativa de um momento importante da música brasileira, entre os anos 1930 e 1940, o disco, o rádio… depois, a regravação de João Gilberto, que a inseriu na renovação da música brasileira, a bossa nova. Estava solando a melodia, até que aquilo me levou a compor uma introdução”, declarou Gil ao repórter. 

Disco de Gil que traz “Aos pés da cruz” como faixa de abertura saiu em CD e também em vinil

É a faixa de abertura, tanto no disco gravado em estúdio quanto no que traz o registro ao vivo do show realizado em 2014. Você pode acessar essas gravações na discografia de Gil, em sua página oficial, https://gilbertogil.com.br/producoes/discografia/, ou então direto no Youtube: 

Eis que, 80 anos depois da primeira gravação de Orlando Silva, estamos aqui a cantar, em quintas-feiras com nebulosidade e temperatura elevada: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Confira a seguir a letra completa.

Aos pés da santa cruz
Você se ajoelhou
E em nome de Jesus
Um grande amor
Você jurou
Jurou mas não cumpriu
Fingiu e me enganou
Pra mim você mentiu
Pra Deus você pecou
O coração tem razões
Que a própria razão desconhece
Faz promessas e juras
Depois esquece
Seguindo esse princípio
Você também prometeu
Chegou até a jurar um grande amor
Mas depois me esqueceu

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