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‘Back in Black’, do AC/DC (e do rock), aos 40 anos

João Victor Ferreira
Especial para o Na Caixa de CD

Mesa de bar. Cerveja gelada. Ânimos à flor da pele. Eis que um elemento mais animado começa a discursar sobre música, rock em particular, e declama em alto e bom som aquilo que pode soar como um chavão clássico capaz de gerar controvérsias: “AC/DC é a maior banda de rock de todos os tempos”.

A banda australiana que conquistou os ouvidos do mundo inteiro é sem dúvida um dos primeiros nomes a serem lembrados, quando tratamos do gênero rock n’roll. Seja pela simplicidade dos riffs, dos refrões que grudam na cabeça ou toda iconografia imagética que faz o grande público associar aqueles cinco velhinhos ao rock mais clássico possível. É sem dúvida o espírito que a banda carrega que faz ela ser desde a década de 1970 até hoje.

Em 2010, com o lançamento da trilha sonora do filme “Homem de Ferro 2”, AC/DC fica pela 3ª vez em 1º lugar nas paradas do Reino Unido e pela 8ª vez entre os 10 mais dos EUA. Desde a sua formação, a banda conseguiu proezas incríveis como vender mais de 200 milhões de títulos por todo o mundo. Algo que não começou em 1980, com “Back in Black. Na verdade, alguns anos antes disso.

A família Young e o nascimento do AC/DC

Angus Young, o eterno colegial, numa das primeiras apresentações do AC/DC, ainda na Austrália – Foto: Reprodução

Tudo começou no início dos anos 1970, na cidade de Sydney, com dois irmãos e uma ideia não tão original: formar uma banda de rock. Vindos de uma família operária escocesa que se mudou para Austrália, George Young, o irmão mais velho, já havia formado uma banda, nos anos 1960, que havia feito moderado sucesso: os “Easybeats”. Foi com a experiência de George e o incentivo de Margaret, a primogênita e única irmã da família, que Malcom e Angus Young criaram asas e fundaram a banda, em 1973. Malcom era o coração da banda: os riffs, a força e a sonoridade. Angus personifica o corpo: a imagem e símbolo que a banda se tornou (usando inclusive seu uniforme de colegial).

Há toda uma mística em cima do nome AC/DC. Já foi confirmado pela irmã Margaret Young que Angus tirou o nome da máquina de costura que ela usava para costurar a sua roupa de colegial. Na máquina, a sigla AC/DC significa “corrente alternada/corrente contínua”. No imaginário coletivo, o nome da banda é pronunciado uma letra por vez, mesmo que na Austrália ainda sejam popularmente chamados de “Acca Dacca”, por uma variância na língua.

Em 1975 lançam, primeiramente na Austrália, seu primeiro álbum intitulado “High Voltage”. Os irmãos Young nas guitarras, Mark Evans no baixo, Phill Rudd na bateria e finalmente Bon Scott nos vocais. Scott era uma figura peculiar e de extrema importância para a história da banda. Primeiro por substituir a tentativa falha que a banda teve com Dave Evans, seu primeiro vocalista, em 1974. Scott trouxe com seu estilo e personalidade grande parte da imagem do AC/DC. Suas performances hipersexualizadas, sua irreverência e sensualidade no palco e a ironia com que tratava qualquer tema, marcou a banda nesses primeiros 10 anos. Outro fator importante eram os vocais rasgados e potentes que se casavam perfeitamente com a potência das guitarras. Afinal, foi na voz de Scott que músicas como “It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock n’ Roll)” e “Highway to Hell” foram fixadas do DNA da banda.

Em 1979, com o lançamento de “Highway to Hell”, a banda chega ao sucesso e reconhecimento mundial, alcançando o 17º lugar no top 100 americano, o que impulsionou a nova fase de sua carreira em Londres. Mas nem tudo foram flores…

Tragédia e renovação

Bon Scott, a síntese humana do trinômio sexo, drogas e rock and roll – Foto: Reprodução

Mesmo sendo um excelente vocalista e frontman, Bon Scott vivia fora do palco tudo aquilo que deixava no palco, ou seja, “sexo, drogas e rock n’roll” em estado puro e sem retoques. A quantidade de drogas que consumia excedia o rendimento do seu corpo, somado ao fato do cantor já ter um histórico asmático. Dito e feito. Em 19 de fevereiro de 1980, Scott é declarado morto depois de beber durante toda a madrugada com um amigo num pub londrino. O documento oficial da biopsia indicou uma morte por aspiração pulmonar de vômito. Algumas inconsistências no documento criam teorias de conspiração, dizendo que a causa real da morte de Scott foi uma overdose de heroína, ou ainda que foi morto dentro do carro que o levou para o hospital. Fato importante foi o baque que a morte do vocalista representou para uma banda que vinha escalando vertiginosamente o olimpo da fama.

Depois de algumas reuniões e discussões entre os membros da banda, foi decidido que o AC/DC continuaria, mesmo depois da morte de Scott. Foram dezenas de audições em Londres para achar o novo frontman da banda, que cogitou nomes como Buzz Sherman e Terry Slesser. No fim das contas, foi o ex-vocalista da banda Georgie, Brian Johnson, que logrou a condição de liderar o AC/DC em sua retomada. Uma audição que quase não aconteceu, uma vez que Brian havia errado duas vezes o andar do prédio onde a banda o esperava para avaliá-lo. Depois de algumas tentativas ele desiste e vai até o primeiro andar, onde acontecia uma partida de sinuca. Brian para por ali e joga com os competidores. Relatos cômicos em documentários indicam que Malcom e Angus tiveram que descer para achar o aspirante a vocalista que não conseguia chegar na audição. Os agudos de Johnson conquistaram a banda que viu nele uma espécie de redenção.

De volta e de luto

Brian Johnson ao centro, uma nova voz e um novo recomeço para a banda – Foto: Reprodução

De um lado, a dor da perda de um dos integrantes, algo ainda muito recente na memória da banda. De outro, a força e o impulso renovador da mais nova e potente voz de Brian Johnson. E é com essa mistura de amargo/doce na boca, no conflito das forças de caos e ordem, yin e yang, que AC/DC lança o álbum mais importante da banda e, quiçá como insinua o nosso amigo do início do texto, o maior álbum de rock n’roll de todos os tempos. Em 25 de julho de 1980, o mundo é apresentado ao lendário “Back in Black”.

Um álbum maduro e denso em sua estrutura temática. A começar pela 6ª faixa (ou 1ª do lado B) que dá nome ao álbum, “Back in Black” (que, em tradução livre, pode significar “De Volta do Luto”) é até hoje um dos maiores hinos do rock. Experimente tocar o riff inicial da música e comprove que é quase impossível encontrar quem não reconheça a canção de primeira, seja qual for sua idade. Em diversas intepretações, a música significaria a trajetória de Bon Scott, que teria a sua vida continuada por meio de música, ao lembrar de algumas passagens da letra, como: “Forget the herse ‘cause I never die” (Esqueça o carro funerário, porque eu nunca morri).

A música não só marca uma espécie de “volta por cima” da banda depois de uma tragédia, como ecoa através dos tempos, tornando-se um produto atemporal e contemporâneo até hoje. Na lista das 40 maiores canções de metal do VH1, ela ficou na posição de número 4. Em uma compilação das 500 maiores canções de todos os tempos, da revista Rolling Stones, alça a 187ª posição. Não só isso, mas o álbum é tão relevante que ainda é o álbum mais vendido da história do rock n’roll, além de constar como o segundo álbum mais vendido na história da música, perdendo apenas para “Thriller” (1982), de Michael Jackson. São mais de 51 milhões de cópias vendidas pelo mundo, sendo 22 milhões apenas nos EUA. “Back in Black” também é um dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.

Capa Original de ‘Back in Black’ – Foto: Divulgação

Parte do sucesso se deve ao esmero musical. Há aqui uma unidade sonora e rítmica, em contraste com a variedade de tons entre as músicas. Temos um lado A que começa na primeira marcha, até chegar ao topo e, em contraste, um lado B que continua nesse topo e vai desacelerando. Tudo isso parece natural e bem pensado, quando ouvido de cabo a rabo. Começando com “Hells Bells” e seus famosos sinos do inferno, esperando a chegada de Bon Scott. O tom fúnebre inicial da música entra em confluência com a guitarra base, moldando o ritmo da canção, até que a bateria e guitarra solo levam o título a outro patamar que passa a ser elevado em cada segundo. Vamos com tudo para “Shoot to Thrill” que dispensa apresentações: é aqui que AC/DC realmente puxa seu gatilho. Basta imaginar o Homem de Ferro voando com a sua armadura que essa música já começa a ser tocada. Finalizando o lado A, vem a dobradinha “What Do You Do for Money Honey”, “Giving the Dog a Bone” e “Let Me Put My Love Into You” todas muito simbólicas do álbum. Ritmos de bateria e baixo marcados no famoso 4×4, potência vocal, guitarra base moldando o tempo dos vocais, guitarra solo soprando força e vida.

Se o lado A ainda não te deu um ataque do coração, ainda vem aí o lado B. A começar pela faixa-título já comentada. Em seguida “You Shook Me All Night Long”, uma das músicas mais interessantes pelo estranhamento que gera. Até hoje uma das maiores “baladas” do AC/DC e muito marcada pelo estilo rockabilly. É a “música dançante”, mesmo que cheia de camadas: a começar pela letra envolvente e o duelo de guitarras entre os irmãos Young. “Have a Drink on Me” e “Shake a Leg” tem a animação e presença de um clássico do hard rock, seguindo a linha histórica da banda e até aludindo a melhor fase de Bon Scott, relembrando a composição de músicas como “Problem Child” (1976).

“Rock n’ Roll Ain’t Noise Pollution” fecha o álbum e não poderia ser diferente. A música-manifesto da banda casa junto com “For Those About to Rock” (1981) no hall das canções que dizem: “se você é roqueiro, precisa cantar essa letra com todo ar dos pulmões”. O ritmo de blues – um velho conhecido da banda desde os tempos de Bom Scott – casa bem com a canção, com o intuito de rememorar historicamente a formação do gênero do rock. A música vem como uma resposta ao senso comum de que o rock é apenas barulho, além das suposições históricas de que o gênero acabaria. A maior poesia por trás do hino é a verdade da sua letra, em momentos célebres como a afirmação: “Rock n’ Roll is just Rock n’ Roll” (Rock n’ Roll é apenas Rock n’ Roll). Ainda assim, o que faz a música se destacar como “a última” é o seu comprometimento com o tema interno do luto que o álbum explorou desde o seu primeiro acorde (com os sinos fúnebres tocando), até a cor preta de sua capa.

Aqui fica claro: Bon Scott nunca foi um estorvo para banda, depois que morreu precocemente. Na verdade, Scott é como um combustível do passado que fez a banda voar, não uma âncora que a prendeu. É por isso que AC/DC é uma banda contemporânea e atemporal. E é por isso que na última música do álbum, a banda faz questão de lembrar isso para você: “We’re talkin’ about future (Estamos falando do futuro) // Forget about the past (Esqueça o passado) // It’ll always be with us (Ele sempre estará conosco) // It’s never gonna die, never gonna die (Ele nunca vai morrer, nunca vai morrer)”. Ouça este álbum emblemático aqui com a gente:

 

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