Memória

Bibi Ferreira, uma artista de um tipo que não existe mais

Neste domingo (28) completam-se 80 anos da estreia profissional de Bibi Ferreira em palcos brasileiros. Diretor musical dos últimos espetáculos dessa grande estrela, o músico e arranjador Flávio Mendes nos conta algumas histórias de bastidores dessa gigante do teatro e da música. 

Por Flávio Mendes

Bibi Ferreira é a artista mais incrível que eu conheci na vida. Do tipo de artista que não existe mais, fruto de uma época que não existirá mais. Bibi atravessou o século XX inteiro em cima dos palcos, e, pra nossa sorte, ainda passou mais quinze anos do século XXI exercendo o seu ofício.

bibi ferreira
Procópio Ferreira, Aida Izquierdo e sua filha Bibi Ferreira – Foto: Reprodução

Algumas pessoas já conhecem essa história, mas é bom repetir: seus pais se conheceram em um espetáculo da companhia de Abigail Maia, sua madrinha – segundo ela, o pai queria puxar o saco da dona da companhia, por isso ela se chamou Abigail Izquierdo Ferreira. Bibi tinha 20 dias de vida quando a boneca que participava do espetáculo foi perdida minutos antes de o espetáculo começar. Bibi estava lá na coxia, porque a mãe já havia voltado pro trabalho, e acabou entrando em cena no lugar da boneca.

Procópio não era um ator com muito cartaz na época, estava começando a carreira, terceira fileira, contava Bibi. E sua mãe, Aída, era uma das coristas do espetáculo. Sua mãe tinha 15 anos quando engravidou. Era de uma família de circo, os Querolo, rodava a América do Sul fazendo espetáculos. Quando Bibi tinha menos de dois anos a sua mãe foi contratada pela companhia Velasco, da Espanha, para uma turnê pelo cone sul. Os pais não eram casados e, obviamente, Bibi seguiu com a mãe.

Quando estávamos fazendo o último espetáculo dela, “Por Toda a Minha Vida”, de 2017, eu perguntei qual a primeira canção que ela se lembrava de cantar. Ela cantou um trecho desse espetáculo que a mãe fazia com a Companhia Velasco, um trecho em que ela imitava a grande estrela da companhia, Maria Caballé. Foi assim: de tanto assistir ao show ,Bibi, aos 3 anos, já imitava todos os trejeitos de Caballé, inclusive cantava.

Num entreato ela atravessou a cortina, entrou no palco e começou a fazer a mesma cena que tinha sido apresentada. A plateia veio abaixo! Bibi foi contratada aos 3 anos. Passaram por Buenos Aires e o La Nación deu uma página inteira para a pequena artista, com a manchete: “Una nena de tres años que resulta una gran artista”. Estive com a Bibi na Argentina em 2010 e vi esse jornal.

Nesses primeiros anos de vida, Bibi só falou em espanhol, só foi aprender português quando voltou ao Rio. Aí que foi conhecer o pai e os pais finalmente se casaram. Segundo Bibi, o pai se apaixonou por ela e por isso se casou com a mãe – esse humor é muito dela.

Nesse show de 2010, nós, a banda dela, de brasileiros, dividíamos o show com uma orquestra de tangos, chamada El Aranque, com quem Bibi faria a segunda parte, só cantando tangos. Na primeira parte do show ela só se dirigiu ao público em português, e eu não entendia nada, porque ela não falava castelhano, a sua língua materna? Quando terminou a nossa parte, eu estava saindo do palco e vi quando, para anunciar o grupo de tangos, ela falou em castelhano, daqueles perfeitos, de uma nativa. Eu vi no rosto da plateia a incredulidade: como essa artista brasileira fala tão bem, como se fosse uma de nós?

Uma artista que nunca subestimou a plateia

Bibi Ferreira
Bibi tinha muito respeito pelo público. E pelos seus companheiros de cena – Foto: Reprodução

Bibi sempre tinha repertório pra surpreender o público. Nunca subestimou a plateia, nunca achou que tinha que facilitar alguma coisa no show. Ao contrário, o seu lema sempre foi: vamos fazer o mais difícil, deixa o fácil pros outros, nós podemos fazer sempre mais. Mas sempre tendo em mente que o objetivo é o aplauso do público, isso era o que ela mais gostava. Tanto que exigia de mim, como maestro, que não iniciasse outro número com a orquestra até que a última palma fosse ouvida.

Bibi tinha muito respeito pelo público. E pelos seus companheiros de cena. Sempre se referiu aos músicos como “professores”, e ela sabia o que é ser musicista, porque ela foi uma, estudou muito. Tocava Beethoven e Chopin no piano, era lindo. Sempre me pediu a partitura das músicas novas pra estudar, só no fim que a visão não a permitia mais ler, nem partituras e nem livros. Foi uma tristeza pra ela, Bibi sempre leu muito. Virava a noite lendo sem parar.

Quando tinha 7 anos foi proibida pelas freiras de estudar no Colégio Sion, em Laranjeiras por ser filha de artistas – e nessa época Procópio já era o maior ator do Brasil. Pior pro Sion, melhor pra ela, que foi estudar na Escola Inglesa e se alfabetizou em inglês. Contas de tabuada, só fazia em inglês. Seven seven, forty nine. Já falava um inglês perfeito quando passou anos na Inglaterra estudando teatro.

Bibi gostava de estudar e de ensaiar. Por ela ensaiaríamos todos os dias, e normalmente passávamos uns seis meses pra levantar um novo espetáculo, eu, ela e o pianista. Sempre depois das cinco, de preferência às seis, porque ela nunca acordava antes de 3 da tarde. Fizemos um show com o repertório do Sinatra, o cantor que ela mais gostava. E a música que ela mais gostava sempre foi a norte americana. Vejam um trecho desse espetáculo, numa performance arrebatadora de Bibi em 22 de julho de 2016, no Teatro Serrador, no Rio:

Eu lia a biografia do Sinatra ao mesmo tempo em que montávamos o espetáculo, e eu sempre chegava com uma história nova, lida na noite anterior. Num desses ensaios eu comentei com ela que o Sinatra achava que o rock tinha sido o seu grande rival (Sinatra era o cantor da juventude até chegar o rock). E ela falou: “vamos então cantar um rock!” No meio de um repertório cheio de Cole Porters e Gershwins, o número mais aplaudido sempre foi “Rock Around The Clock”.  Você tem que entregar pra plateia mais do que eles esperam, ensinava Bibi. No show seguinte eu dei a ideia de ela abrir cantando “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”. Ela arrasava, muito. Qual artista de 93 anos poderia cantar aquela música? Só Bibi Ferreira.

Fiquem com uma apresentação completa de Bibi no espetáculo Histórias e Canções, de 2013, com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais:

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