MPB

Boca Livre apresenta “Viola de bem querer”, seu 14° álbum

Desde o Bando da Lua, passando por Tamba Trio, Demônios da Garoa, MPB4 e Quarteto em Cy, a Música Popular Brasileira tem boas referências de grupos vocais, mas talvez nenhum deles tenha alcançado a visibilidade e popularidade do Boca Livre. O ano era 1978 e quarteto na época formado por Cláudio Nucci, David Tygel, Maurício Maestro e Zé Renato iniciava sua trajetória acompanhando Edu Lobo em concertos pelo Brasil pelo saudoso Projeto Pixinguinha. No ano seguinte, o álbum que levaria o mesmo nome do grupo, lançado de forma independente,  se tornaria sucesso com mais de 100 mil cópias vendidas. Treze álbuns depois, dois deles gravados no exterior, o Boca Livre lança agora “Viola de Bem Querer”. A faixa-título é assinada por Breno Ruiz e por Paulo César Pinheiro, o compositor com mais canções gravadas na MPB (cerca de 1.400).

Mas uma das grandes surpresas do repertório é um samba: “Vida da minha vida” (Sereno/Moacyr Luz). “Gravar ‘Vida da minha vida’ foi instigante, pois o samba é um ritmo com o qual o Boca Livre não costuma mexer muito”, admite Maestro. Duas outras canções conhecidas que integra o repertório são as belas “Amor de índio” (Beto Guedes / Ronaldo Bastos) – canção eternizada na voz característica de Beto Guedes – e “Um Violeiro Toca” (Almir Sater / Renato Teixeira). O álbum já encontra-se disponível para audição nas plataformas digitais. Ouça aqui.

 

Fórmula simples e complexa

Após seis anos sem novas gravações, o quarteto reforça neste trabalho  uma profissão de fé e de canto numa fórmula tão simples mas tão complexa que é a soma de vozes. Timbres diferentes que destacam a beleza das melodias e versos. “Estamos munidos com o que sabemos fazer melhor: cantar um repertório que foi escolhido com o rigor habitual e que nos inspirou a chegar em um resultado, antes de mais nada, prazeroso. O prazer de cantar juntos é o que nos move. Assim foi e sempre será”, explica Zé Renato. “Nosso desafio diário é cantar. Cantar mais e melhor. Atrair novos públicos. Muita coisa mudou nesses 40 anos, mas sempre haverá espaço para a música boa”, completa Tygel.

Com direção musical do próprio quarteto e arranjos vocais de Mauricio Maestro, o repertório de “Viola de Bem Querer” traz ainda composições autorais, como “Santa Marina” (Lourenço Baeta / Cacaso), “Noite” (Zé Renato / Joyce), “O Paciente” (David Tygel) e “Eternidade” (Mauricio Maestro). Há espaço também para a composição recém-lançada por Geraldo Azevedo, “Um Paraíso Sem Lugar”, dele com Fausto Nilo. Um time de músicos convidados participou da gravação do álbum: Pantico Rocha (bateria), João Carlos Coutinho (piano elétrico e acordeon), Bernardo Aguiar (pandeiro), Thiago da Serrinha (percussão) e Marcelo Costa (percussão). Nos shows no Rio de Janeiro, João Carlos Coutinho e Lucas Videla (percussão) acompanham o Boca Livre.

Sucesso que veio rápido

Na década de 70 gravar num estúdio demandava um investimento alto, ao contrário dos dias de hoje em que um computador com os programas certos resolve tudo. “Artistas como o Antônio Adolfo já gravavam álbuns independentes, mas aquele disco abriu caminhos naquele momento. Provamos ser possível fazer sucesso fora de um esquema envolvendo as gravadoras”, diz Lourenço Baeta, que substituiu Cláudio Nucci em 1981. “A gente terminou de gravar e concluiu que se vendêssemos 5 mil cópias, já estaria de bom tamanho para um álbum independente”, revela Maurício Maestro. “Foi um sucesso que veio muito rápido, nos surpreendeu. Em pouco tempo estávamos até em trilha sonora de novelas”, reforça Zé Renato.

E essa popularidade atravessou o tempo, atingiu novas gerações. “Uma coisa que acontece em nossos shows mais recentes é que os fãs lá do início da carreira levam filhos e netos para conhecer as músicas que faziam a cabeça deles”, observa David Tygel que, com Maestro, participou de uma experiência musical chamada Momento 4, que pode ser considerado o embrião do Boca Livre. “A influência do MPB4 era notória, até no nome. Foi nosso laboratório para chegar ao que se tornou o Boca Livre, com arranjos vocais mais evoluídos”, destaca Maestro.

A equação perfeita

Trabalhar arranjos vocais é uma tarefa que exige cuidados como cuidar do quintal de frutas, flores e temperos da canção “As moças” (Juca Filho / Zé Renato). É a formação de uma equação perfeita, segundo os quatro cantores. Geometricamente, duas vezes definem um plano. Já quatro vozes definem um espaço e múltiplas dimensões e possibilidades. Mas minha maior dificuldade é fazer arranjos vocais para as canções que escrevo porque não faço música necessariamente pensando nos vocais”, explica Maestro, o único integrante que permaneceu em todas as formações do Boca Livre e geralmente assina os arranjos vocais cheios de nuances e texturas que caracterizam a discografia do grupo. “Musicalmente, a formação de quarteto é a mais perfeita da cena musical. Veja o conjunto harmônico que é um quarteto de cordas”, acrescenta Lourenço Baeta.

Seja nas composições próprias, seja interpretando obras de terceiros, o Boca Livre deixou marcas profundas nas canções que gravou. Como não lembrar da versão burlesca de “Panis et Circenses” (Caetano Veloso/Gilberto Gil) ou do arranjo em capela para “Ponta de areia” (Milton Nascimento e Fernando Brant). “Gostamos de tirar o melhor possível das canções com que decidimos trabalhar. E trabalhar com canções de amigos é sempre prazeroso”, observa Tygel. E como é bom ter amigos de talento, afinal o Boca Livre participou de vários trabalhos nesses 40 anos, gravando com os mais variados artistas. Caetano, Gil, Milton, Ivan Lins, Joyce, Toninho Horta, Nana Caymmi, Toquinho, Jon Anderson e Ruben Blades são alguns nomes de uma lista quase interminável.

A eterna vocação estradeira rendeu reconhecimento internacional ao grupo vocal, que fez a cabeça de artistas como Jon Anderson (vocalista do Yes), o guitarrista Pat Matheney, Rubén Blades, o multi-instrumentista e cantor contemporâneo Jacob Collier, ao ponto de arrancar críticas elogiosas do “New York Times”:  “Em 1992, estávamos nos Estados Unidos na turnê dos álbum ‘Dançando nas sombras’ que gravamos por lá e uma crítica nos chamou a atenção. Nos compararam a uma espécie de mistura de Gipsy Kings com Take 6 e que nosso álbum  era um trabalho que Crosby, Stills e Nash estavam devendo”, lembra Baeta.

As harmonias vocais, em uníssono ou no recorte de cada voz, tornam as comparações com Crosby, Stills e Nash ou sua variante em quarteto com Neil Young inevitáveis. “E podemos acrescentar a isso o uso dos violões. Crosby, Stills e Nash são uma referência para nós. Assim como foi O Terço”, lembra Baeta, referindo-se ao conjunto vocal mineiro que viria a se transformar no 14 Bis.

SERVIÇO
Boca Livre – Lançamento do CD “Viola de Bem Querer”
Teatro Rival Petrobras (Rua Álvaro Alvim, 33 – Tel: (21) 2240-9796)
31/05 e 1/6, às 19h30. Ingressos: Setor A – R$ 100 e R$ 50; Setor B – R$ 80 e R$ 40

Deixe uma resposta