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Boca Livre não resiste à polarização política

Boca Livre

Na noite do último sábado um comunicado da produtora Memeca Moschkovich postado em suas redes sociais selou um racha que já vinha sendo imaginado em um dos mais inventivos conjuntos vocais brasileiros. A irmã do cantor e compositor Zé Renato avisou aos fãs e ao mercado que ele e o colega Lourenço Baeta decidiram deixar o Boca Livre.

Embora a nota da produtora não explicite os motivos é notório que divergências políticas profundas motivaram a ruptura. “Comunico que os músicos Zé Renato e Lourenço Baeta não integram mais o grupo vocal Boca Livre, seguindo em suas respectivas carreiras solo. A partir dessa data, não gerencio mais as atividades da marca Boca Livre. Agradecemos as realizações dos shows e o carinho dos fás que nos acompanharam nesses 40 anos de carreira”, disse Memeca em nota dirigida aos fãs e contratantes.

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Lourenço Baeta, Maurício Maestro, Zé Renato e David Tygel, em 1980 – Foto: Reprodução

No domingo, o clima geral era de frustração por parte dos fãs. Em suas redes sociais, Zé Renato confirmou a decisão. “Não é fácil tomar uma decisão, abrindo mão de um trabalho que me trouxe tantas alegrias. Eu e Lourenço, por razões pessoais, chegamos a conclusão que o nosso ciclo no Boca Livre terminou. Porém é importante saber que o trabalho do grupo continuará e esperamos sinceramente que tenham sucesso e principalmente saúde”, declarou o cantor, que integrava a formação original do grupo desde 1978, mas tendo se afastado entre os anos de 2000 e 2005, para retornar no ano seguinte.

“Desses mais de 40 anos em que estive no grupo, guardo boas lembranças. Do tempo e da música. Foi um ciclo que se fechou”. Agora vou me dedicar a outros projetos e boa sorte a quem segue”, disse Lourenço Baeta, que chegou ao grupo em 1980, em substituição a Cláudio Nucci.

“Sinto que não é hora de sair, embora, por maiores que sejam a as dificuldades nesses tempos tão sombrios”, comentou David Tygel, que também é um aclamado compositor de trilhas sonoras para o cinema. Ele optou em permanecer no grupo, acrescentando que está motivado a buscar um entendimento entre Zé Renato, Lourenço Baeta e Maurício Maestro, que detém o controle sobre a marca Boca Livre. Maestro ainda não se manifestou sobre a saída dos colegas.

Ainda que o Boca Livre siga com novos integrantes, os fãs dizem que suprir a ausência de Zé Renato será um tanto difícil – seu preciosismo vocal e um timbre personalíssimo eram uma das marcas registradas  do grupo. Além, disso, Zé Renato estava entre os autores dos maiores sucessos do grupo como “Toada” (em parceria com Claudio Nucci e Juca Filho) e “Quem Tem a Viola (com Claudio Nucci, Juca Filho e Xico Chaves). Fiquem aqui com a participação do grupo no programa Todas as Bossas, da TV Brasil, com seu show comemorativo de 40 anos, em 2019:

O Boca Livre começou a ganhou projeção ao acompanhar Edu Lobo em apresentações do saudoso Projeto Pixinguinha  da Funarte. Seu álbum de estreia, lançado em 1979 de forma independente, teve uma venda surpreendente para a época (mais de 500 mil cópias durante o lançamento). De lá pra cá foram 13 álbuns e um DVD, incluindo excursões bem sucedidas no exterior. O requinte de seus arranjos vocais, ora extremamente harmônicos ora dissonantes (e incrivelmente coesos) os levou a serem comparados com o quarteto formado por Crosby, Stills, Nash & Young. Sem nacionalismos baratos, afirmo que o Boca Livre é muito melhor que o C,S,N&Y! Nos anos 1990, o grupo já não fazia o mesmo sucesso avassalador da década anterior, mas construiu uma sólida legião de fãs, entre os quais sempre me situei. O último trabalho do grupo em estúdio foi “Viola do Bem Querer”, de 2019, cuja turnê acabou sendo prejudicada pela pandemia. Ouça aqui o álbum:

Leia mais em:

Boca Livre apresenta “Viola de bem querer”, seu 14° álbum

Foto em destaque: Leo Aversa

2 thoughts on “Boca Livre não resiste à polarização política

  1. Veja a que ponto chegou essa polarização. Que coisa absurda!
    Uma harmonia musical sem igual do Boca Livre. Pena que destoava nas perspectivas políticas e deixaram serem presos a isso. E, o desrespeito as diferenças foram maiores que os longos anos e os objetivos comuns que os aproximavam.. Espero que revejam suas decisões, voltem a se harmonizarem e sejam “livres” e não presos a intolerância de não se deixarem respeitar opiniões divergentes! Que tenham bocas livres no falar e no cantar!

    1. Foi mais que uma questão política, meu caro. Houve uma divergência profunda relacionada a um grave problema de entendimento em torno da pandemia. Acho difícil recompor nesses termos. Mas é uma lástima o que aconteceu. Obrigado por aparecer aqui e comentar, Laelson. Espero que aprecie o restante do site e sinta vontade de compartilhar com os amigos.

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