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Caetano canta (e conta) sobre o universo digital

Caetano Veloso
Caetano lança seu olhar sobre o universo digital alternando acidez e humor - Foto: Fernando Young
Caetano lança seu olhar sobre o universo digital alternando acidez e humor – Foto: Fernando Young

Poucos criadores da música brasileira têm o dom de exercer uma narrativa cinematográfica em sua obra como faz Caetano Veloso. Cidadão do Recôncavo, do Rio de Janeiro e do mundo, o cantor e compositor baiano é desde o fim dos anos 1960 uma testemunha ocular dos sentimentos mais íntimos da pessoa humana e também do comportamento de uma sociedade com olhar crítico e poético. Cirúrgico.

E essa narrativa que parece acoplada a um longametragem volta à tona em “Anjos Tronchos”, primeiro single do álbum de inéditas que o artista lançará nos próximos meses por sua nova gravadora, a Sony Music.

Como bem observou o cantor e compositor Leoni nas redes sociais, a figura do anjo troncho parece saída do anjo torto anunciado por Carlos Drummond de Andrade em seu “Poema de Sete Faces”. Com versos densos e salpicados entre um take e outro, “Anjos Tronchos” é uma e uma reflexão sobre a tecnologia e internet, o universo cada vez mais digital em que vivemos e aprofundado durante a pandemia.

O cantor, compositor, escritor e cineasta explica como veio a inspiração: “É uma canção que pensei que não ia poder fazer por inteiro, por causa do meu desconhecimento da matéria, do assunto. Eu prometi a mim mesmo que se eu quisesse fazer uma coisa dessas, precisaria saber muito mais. Para saber mais, eu precisaria usar mais a internet, saber mais o que acontece nas redes sociais”, pontua Caetano, que não gravava um álbum de estúdio com canções inéditas desde ‘Abraçaço” (2012). Desde então seus lançamentos fonográficos resumiam-se a álbuns ao vivo, com destaque para “Dois Amigos, um Século de Música” (2015), registro da turnê que fez com o amigo, parceiro e conterrâneo Gilberto Gil.

E Caetano acrescenta mais detalhes do processo criativo de “Anjos Tronchos”. “Embora eu não conheça muito a questão da tecnologia e das suas consequências, fiz uma canção que parece mexer em questões muito maiores do que seu autor é capaz de dominar. Tem muitas canções que tiveram resultados políticos, na formação da cabeça de gerações, de áreas da sociedade, e que não foram feitas por uma pessoa que conhecesse teoricamente a complexidade daquele assunto. Eu terminei pensando: ‘Deu para fazer uma canção que pode ser como uma dessas’”.

Caetano acerta em cheio em seu mergulho na contemporaneidade em versos como “Agora a minha história é um denso algoritmo / Que vende venda a vendedores reais, / Neurônios meus ganharam novo outro ritmo / E mais e mais e mais e mais e mais”. Ou ainda na ácida crítica sobre fake news e cancelamentos tão em voga: “Um post vil poderá matar / Que é que pode ser salvação? / Que nuvem, se nem espaço há / Nem tempo, nem sim nem não. Sim: nem não”. E faz a ponte com sua própria trajetória quando canta “Mas há poemas como jamais / Ou como algum poeta sonhou / Nos tempos em que havia tempos atrás / E eu vou, por que não? Eu vou, por que não? Eu vou”, em referência mais do que explícita a “Alegria, Alegria”, seu hino tropicalista de 1968.

A faixa, não poderia ser diferente, estreou nas plataformas digitais e com ela o videoclipe, dirigido por Fernando Young e Del. O clipe clipe transmite a densidade da música em imagens que trazem Caetano, entre sombras e espelhos. “Buscamos produzir efeitos reais, de maneira artesanal, sem pós produção ou efeitos que tirassem o foco da performance do Caetano. Assim veio a ideia de construir cenários super minimalistas que contrastam com a multiplicação dos reflexos e algoritmos, um link direto ao vazio digital”, explicam os idealizadores.

Minimalista também foi o contexto da gravação da faixa, uma coprodução dividida entre Caetano e Lucas Nunes, que também gravou os sintetizadores, foi o técnico de gravação e o responsável pela mixagem. Pedro Sá gravou guitarra e baixo e Pretinho da Serrinha pilotou os instrumentos da cozinha rítmica (zambumba e triângulo).

A Sony informa que ainda há diversas ações previstas para os próximos meses, incluindo o próximo álbum, que promete ser uma viagem por dentro da cabeça do artista, mostrando como funciona seu cérebro durante a criação de canções.

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