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Carlinhos Vergueiro entre novas e antigas tabelinhas

Carlinhos Vergueiro_Nina Jacobi para o blog
Capa do álbum 'Tô Aó' - Foto: Divulgação
Capa do álbum ‘Tô Aó’ – Foto: Divulgação

Ele é paulistano, viveu no Rio e regressou à terra natal há poucos anos. Conhece o melhor dos dois mundos e musicalmente pode ser definido com um sambista da ponte aérea. O cantor e compositor Carlinhos Vergueiro acaba de lançar “Tô Aí”, seu primeiro álbum de inéditas desde “Vida Sonhada” (2012). O disco, que deveria ter sido lançado em fins de março, já está disponível nas plataformas digitais e em formato físico, sendo um dos primeiros títulos lançados nesta configuração desde o início da quarentena. “Quando as medidas de isolamento foram decididas nas duas cidades (13 de março, uma sexta-feira), eu estava no Rio para reuniões com a gravadora (Biscoito Fino) para o lançamento do álbum e fomos surpreendidos por aquilo tudo. Houve aquele impasse de como conseguiria voltar para casa: não sabia se o voo de volta estaria disponível, se precisaria alugar um carro…”, conta ele, que conseguiu regressar na quarta-feira. Não sem antes bater uma bolinha no Polytheama, o campo de futebol do amigo Chico Buarque.

O futebol é uma paixão antiga deste torcedor do Fluminense que, dentro das quatro linhas, gosta de atuar pelos lados e distribuir passes aos colegas. Na música, porém, está sempre rondando a área para balançar as redes com muito ritmo. “Sou um privilegiado de ter conhecido e convivido com ídolos como Cartola, Nelson Cavaquinho, João Nogueira, Elton Medeiros, Adoniran Barbosa, Geraldo Filme e Paulo Vanzolini, que me influenciaram demais. Foi muita sorte”, arremata de primeira Carlinhos Vergueiro, autor de mais de 150 canções gravadas, entre elas  em parcerias com Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Toquinho, Sueli Costa, J. Petrolino, Paulo César Pinheiro, Elton Medeiros, João Nogueira, Paulinho da Viola, entre outros.

Quem não conhece canções como “Por que será?” (com Vinicius de Moraes e Toquinho, de 1977), “Torresmo à Milanesa” (com Adoniran Barbosa, de 1980), “Camisa Molhada” (com Toquinho, de 1976), “Como um Ladrão” (1975) e “Nosso Bolero” (1986), com Chico Buarque), “Tocaia de Cobra” (com Paulo César Pinheiro, de 1998) e “Dia Seguinte” (com J. Petrolino, de 1978), gravada por Beth Carvalho, precisa conferir essas lacunas musicais. Aqui vamos facilitar o dever de casa da galera e deixar o leitor com a bola na marca do pênalti com “Torresmo à Milanesa”:

Amigo desses bambas da velha guarda, Carlinhos Vergueiro também atuou como produtor no primeiro álbum do sambista Geraldo Filme, em 1980, quando o compositor tinha 52 anos. Um dos grandes nomes do carnaval paulistano, Filme foi um dos fundadores da Unidos do Peruche onde emplacou vários sambas-enredo. mas acabou fazendo história na Vai-Vai. Também produziu “Flores em Vida” (1984), o derradeiro álbum de Nelson Cavaquinho. “Eu consegui que ele fizesse o disco pela (gravadora) Eldorado, junto com um documentário e outras homenagens em vida”, orgulha-se.

E Carlinhos sempre encontra tempo para falar de Adoniran Barbosa que ele conheceu inicialmente, acredite, mão como cantor e compositor mas como ator de programas de rádio. “Antes de conhecer o Adoniran pessoalmente eu era fã dele como ator por causa de um programa humorístico que eu sempre ouvia, o História das Malocas, em que que ele fazia o personagem Charutinho”, recorda. E essa formação como ator deu a Adoniran, como lembra Carlinhos, muitos de seus recursos de palco. “Ele tinha uma presença cênica incrível. Era um grande contador de histórias. Muito bom nos cacos… Aprendi muito com ele”, diz, sempre com grande carinho pelo velho mestre, que compôs uma das canções preferidas do discípulo. “Sempre gosto de cantar ‘Saudosa Maloca’ em meus shows”, revela, em alusão às famosas crônicas musicais de Adoniran ora trágicas ora tragicômicas.

Filho de ator e com a avó morando no Rio, Carlinhos Vergueiro frequentava a cidade dese pequeno. Ao se profissionalizar na música, adotou a ponte aérea como um estilo de vida. “Eu sempre procurei defender o Rio em São Paulo e vice-versa. Prefiro estar acima do bairrismo”, explica. Como sempre transitou com facilidade na cena musical das duas cidades, Carlinhos evita classificar ou marcar as diferenças entre o samba paulista e o carioca. “O Adoniran sempre era perguntado sobre isso e sua resposta era sempre a mesma: ‘samba é samba’. Ele não tinha muto saco para ficar explicando. É claro que aqui existe uma reverência natural ao samba do Rio, mas sempre houve bons sambistas em São Paulo. Vadico, o maior parceiro de Noel Rosa, era paulista. Garoto também. A Marlene era daqui. A questão é que naquela época todo mundo ia pro Rio, por causa das rádios. Hoje existe um movimento inverso”, dribla rápido.

Adepto da liberdade para criar, Carlinhos sempre evitou rótulos para definir seu estilo e seus caminhos. Embora tenha atestado de bamba, o artista mescla seus trabalhos com valsas, boleros, baiões… “O Brasil é extremamente rico em ritmos e acho um desperdício não explorar isso”, argumenta

O Politheama, numa pelada em 2016, com Vinícius França, Rodolfo Fernandes, Carlinhos Filé, Chico Buarque, Rodrigo Paiva, Lulinha, Carlinhos Vergueiro e Bibi - Foto: Sérgio Pugliese / Museu da Pelada
O Polytheama, numa pelada em 2016, com Vinícius França, Rodolfo Fernandes, Carlinhos Filé, Chico Buarque, Rodrigo Paiva, Lulinha, Carlinhos Vergueiro e Bibi – Foto: Sérgio Pugliese / Museu da Pelada

Malandro em campo e nas melhores rodas se samba, o artista avisa que “Tô Aí” representa uma renovação, tanto no repertório quanto nas colaborações, quase todas nascidas a partir de seu retorno a São Paulo, o que promoveu o encontro do compositor com nomes da nova cena musical da cidade, seu berço e ponto de partida profissional. E onde esse encontro teria se dado? “Eu foi adotado pelo Madrugada Futebol e Samba”, conta, referindo-se a uma reunião futebolística musical realizada nas noites de terça-feira com vários integrantes da cena contemporânea do samba paulistano. “A pelada vai das dez até meia-noite. Como depois tem a resenha só dá para chegarem casa de madrugada”, comenta.

Foi lá que as tabelinhas com Arthur Tirone e Bruno Ribeiro pulou do gramado para o estúdio e rendeu frutos como a faixa que batiza a álbum e “De Mais a Mais”, dois sambas bem temperados, assinados pelo trio. “Valsa do Esquecimento”, de Carlinhos e Tirone, canta o lamento dos que sofrem com a perda de pedaços da vida apagados da memória. Com Cadu Ribeiro e Gregory Andreas, também do Madrugada, Carlinhos compôs “Cantei meu samba”,um hino de amor e esperança, enquanto “A Flor do meu lugar brotou do reencontro com o compositor Douglas Germano.

O futebol sempre andou lado a lado com a música para Carlinhos Vergueiro. “Foi assim que conheci parceiros como o Chico, o Toquinho, o Novelli… E mais uma vez isso se repetiu. O futebol está me fazendo muita falta nesta quarentena”, desabafa.

A nova geração de craques recebe reforço de craques conhecidos da galera e que sempre jogaram com Carlinhos, caso de J. Petrolino (“Liberdade”), Paulo Cesar Pinheiro (“A Cruz e a Estrela), Eduardo Gudin (“Meu Delírio”) e Francis Hime (“Por Tudo o Que Eu Te Amo”). A seleção se completa com as 100% autorais “Pra quem não sabe” e “Linha de fogo”.

“Tô Aí” conta com preciosas participações, como as de Hilda Maria, Cadu Ribeiro e Arthur Tirone nos vocais; Eduardo Gudin e Douglas Germano no violão e de Francis Hime ao piano, além de um time de músicos e arranjadores com vaga nos melhores times da MPB.

Todas as gravações ganharam registros em vídeos que podem ser assistidos nas páginas oficiais do cantor e da Biscoito Fino, responsável pela distribuição do disco nas plataformas digitais e lojas físicas. Ouça aqui:

 

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