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Cat Stevens e um novo olhar sobre o passado

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Muitos grandes álbuns completaram 50 anos neste 2020, mas há dois trabalhos de um mesmo artista que não poderiam passar despercebidos aqui no site. Falo de “Mona Bone Jakon” e “Tea For The Tilerman”, lançados em abril e novembro de 1970, respectivamente. Embora Cat Stevens tenha aberto um grande hiato em sua obra ao se converter ao islamismo, Yusuf Islam foi aos poucos lançando um olhar de afeto sobre o passada a ponto de relançar os dois títulos remasterizados e em edições Deluxe com direito a várias faixas-bônus entre sobras de estúdio, demos e versões ao vivo. E podemos dizer que até hoje os dois álbuns trazem frescor e verdades, mesmo para um ídolo pop dos anos da contracultura que hoje professa sua fé nos ensinamentos do profeta Maomé.

Capa do álbum 'Tea for the Tilerman' (1970) - Foto: Divulgação
Capa do álbum ‘Tea for the Tilerman’ (1970) – Foto: Divulgação

De todas a vasta produção de música engajada surgida a partir do fim dos anos 1960 poucos álbuns exibem a vitalidade de “Tea For The Tillerman”, o quarto disco de estúdio de Cat Stevens. A juventude inquieta da geração Woodstock veio ao mundo trazer questões até hoje não respondidas. O ambientalismo, conflitos de gerações, mudanças, revoluções políticas e pessoais… Está tudo ali no álbum. O fato de muitas dessas perguntas não terem sido respondidas até então certamente foram motivo para a conversão de Cat em Yusuf naquele ano de 1977.

A faixa mais conhecida de “Tea For The Tillerman” é, sem dúvida, “Father and Son”, que resume aquele velho dilema entre mudar ou manter o mundo mundo do jeito que ele está e se acomodar. E na versão remasterizada desta canção uma mágica acontece. “Pegamos minha voz de 1970 para ‘Father And Son’ – a voz de um homem de 22 anos cantando no The Troubadour, em Los Angeles – e usamos essa voz [para a parte do filho]. Então hoje você pode ouvir minha voz na década de 1970 e pode ouvir minha voz de agora [cantando a parte do pai], reunida com a magia da edição digital”, orgulha-se Yusuf / Cat Stevens, em entrevista à revista Gentleman’s Quarterly. E o resultado ficou ainda mais lindo neste videoclipe em animação que você vê aqui com a gente:

O jovem Cat Stevens - Foto: Reprodução
O jovem Cat Stevens – Foto: Reprodução

“Father And Son”, reconhece Yusuf / Cat Stevens, não de refere necessariamente a seu pai. “Foi originalmente escrita para um musical. Entre 1967 e 1968, fiquei muito doente com tuberculose e tive de sair de cena. Nesse tempo, estava realmente olhando para dentro de mim e tentando descobrir onde estava meu centro e para onde estava indo… todas as grandes perguntas importantes que você se faz quando está às portas da morte – ou pelo menos me parecia”, conta. “E voltei toda minha atenção em tornar-me um compositor de musicais. Eu morava no West End (de Londres) e os musicais eram um grande acontecimento na minha vida. Me juntei ao Nigel Hawthorne e começamos a escrever um musical chamado Revolussia. Essencialmente, era sobre Nicolau e Alexandre, os últimos czares da Rússia, e contra isso há outra história sobre esta família: o pai, é claro, basicamente quer manter as coisas como estão; enquanto o filho realmente se inspira na revolução. E essa foi a inspiração para essa música. É por isso que fui capaz de representar os dois lados – embora eu sinta que minha preferência, minha ênfase, estava do lado do filho, e os argumentos do pai não eram tão fortes quanto os do filho, o que é interessante. A mudança é basicamente o tema da música. Mas eu nunca realmente adotei o pai. Mesmo que eu pareça muito mais perto de sua persona agora, com a barba grisalha e tudo mais”, completa.

E Yusuf / Cat Stevens segue refletindo sobre a força dessa música, a primeira da fase antiga que ele voltou a apresentar em público, já sob a nova identidade. “É uma música poderosa, independentemente da forma como você a aborda. Você pode assumir muitas posições diferentes sobre ele. Algumas pessoas relacionam isso com seus próprios pais e sua própria família, mas também contra o pano de fundo agora. Essa é a grande vantagem da juventude – ela tem uma visão nova da vida. Ele chega, novo em folha, e diz: ‘Bem, OK, o que está acontecendo? Por que você está fazendo isso? Não existe uma maneira melhor? ‘ A criança ousa com todos os tipos de perguntas, sendo capaz de desafiar o status quo, que é o que enfrentamos quando nascemos num determinado sistema”, compara o músico, que apresenta um exemplo concreto: “Por exemplo, sobre a questão racista [e os protestos globais Black Lives Matter]. As pessoas estão dizendo: ‘Por que continuamos a seguir esse caminho? Não está levando a nada positivo, então por que não podemos todos olhar para nossos ideais e revisá-los?’ E isso é ótimo. Quer dizer, essa é a mensagem da música. Vamos dar uma olhada em nossos ideais. E vamos ver se estamos no lugar certo agora; se não estivermos, vamos embora”, sugere o artista que, aos 71 anos, mora em Dubai, onde continua a fazer música e coordenar uma iniciativa de caridade chamada Peace Train.

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Yusuf / Cat Stevens, aos 71 anos. está reconciliado com seu passado – Foto: Divulgação

Yusuf / Cat Stevens afirma que, de certa forma, sua vida foi se tornando uma encenação de suas letras, tanto as antigas como as mais recentes. “Agora, é claro, estou com um humor mais reflexivo, então eu poderia escrever sobre o que fiz. Mas, para muitas das minhas canções, existem dicas e indicações sobre o que eu estava destinado a fazer de qualquer maneira na vida. Um exemplo: eu escrevi em ‘On The Road To Find Out’, do ‘Tea For The Tillerman’, um verso em que digo: ‘Pegue um bom livro’. Bem, essa foi uma previsão do que iria acontecer. Peguei o Alcorão e de repente toda a minha visão da vida mudou. Não havia espaço para eu me desenvolver na velha atmosfera, que era o mundo pop e o mundo da música. Eu precisava crescer. Eu precisava ter uma vida”, reflete.

Depois de sua primeira experiência no mundo da música pop, Yusuf / Cat Stevens revela que teve cuidado de ser o mais honesto possível consigo mesmo e com a sua escrita. “O que estava fazendo, onde estava e por que, o que estava procurando. Tentei explicar tudo isso nas minhas canções. E é por isso que acho que eles ainda vivem. Eles ainda se relacionam, porque muitas crianças, tenho certeza, estão passando por aquele estágio de questionamento”, destaca.

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Com o filho Yoriyos – Foto: reprodução

A ideia de relançar o álbum, voltando ao estúdio, gravando novas partes, partiu de Yoriyos, o mais velho de seus cinco filhos. “Encontramos um ótimo estúdio no sul da França. Ele tem uma história enorme; todo o ambiente é lindo e o tempo estava ótimo. Era verão e nós apenas reservamos por uma semana. Eu reuni todos os meus amigos musicais – Paul Samwell-Smith, Alun Davis, Bruce Lynch, meu antigo baixista e alguns novos rostos com quem faço turnê – todos músicos muito brilhantes. E foi uma semana muito inspirada”.

“Fizemos o que chamo reimaginação do álbum. Há tantas músicas que as pessoas adotaram como tema para toda a vida do álbum. Há ‘Father and Son’, ‘Wild World’, ‘Where Do The Children Play’… Cada música com seu próprio universo. Existem alguns que você realmente não pode mudar muito como ‘Into White’. É uma música tão bonita. Ela usa todas as cores. É como pintar com palavras. E permaneceu praticamente a mesma, mas em um novo tom, talvez um pouco mais dinâmico. E coisas como “Sad Lisa”, que já era linda com o piano de arpejo, nós apenas deixamos um pouco mais atualizada com sintetizadores e alguns outros pequenos toques. O que eu mexi muito foi numa música chamada ‘Longer Boats’. Eu não conseguia mais conviver com a letra do original e, na verdade, tinha outro verso que nunca gravei em 1970. Tudo tinha a ver com alienígenas. Eu falo sobre, ‘Levante sua mente / olhe ao redor / você pode vê-los / eles estão olhando para um asteróide solitário / em um vazio / morrendo, mas não destruídos’. Isso tem a ver com os alienígenas olhando para nós e dizendo: ‘O que diabos está acontecendo? O que essas criaturas estão fazendo? Qual é o objetivo deles? O que eles estão fazendo com a terra?’ De qualquer forma, mudei isso radicalmente. Parei em um certo ponto, depois de um certo compasso, e parti para uma abordagem funky. E ficou ótimo! ‘Miles From Nowhere’, que eu acho um clássico, foi levada para um outro nível. Há um ótimo trabalho de guitarra aí. Em ‘Wild World’, eu simplesmente surtei um pouco e fiz algo totalmente diferente. Eu chamo isso de meu arranjo em preto e branco: remonta aos filmes em preto e branco e Casablanca e bares esfumados”.

Das 24 faixas da versão Deluxe de “Tea For The Tilerman” vale muito a pena conhecer a versões demo da clássica “Wild Word” e de “Miles From Nowhere” ou registros históricos ao vivo de “Into White”, “On The Road To Find Out”, Wild World” e “Where Do The Children Play”. Ouça o álbum aqui:

Mas não deixem de ouvir e DeLuxe de “Mona Bone Jakon”, o terceiro título de estúdio da discografia de Cat Stevens, que tem em “Lady D”Arbanville”, sua faixa mais célebre, mas traz as belas “I Think I See The Light” e “Fill My Eyes”:

É bom ver Yusuf / Cat Stevens estar reabilitado com sua obra passada e sem o incômodo de haver perdido sua vida para o estrelato e precisar cortar esses laços de forma abrupta e radical. “Minha vida estava uma montanha-russa. Assim que começou, foi sem parar, foi cada vez mais rápido. Meu sucesso era algo incrivelmente grande de se lidar. Quando chegou o meu quarto álbum [Tea For The Tillerman], aquilo explodiu nas paradas da Billboard. Isso me abalou e eu não me senti tão confortável. Eu não queria me sentir como um produto, o que tende a ser o que acontece quando você atinge uma certa estatura. Ou você se torna uma espécie de holograma de si mesmo: você realmente não vive ou respira mais, você está fazendo isso para o público”, filosofa.

Esse dilema ele dá mostras de ter superado. Existem megastars por aí. Eu não sou mais um deles. Sou apenas eu mesmo. Tenho uma história e tenho minha história para contar. Acho que encontrei um equilíbrio, por mais que minha história seja relevante e tenha dicas para pessoas que estão olhando em direções diferentes sobre como saber em que acreditar. É bom ter alguém como eu por perto por um tempo. Estou cumprindo uma função”, afirma.

 

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