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Chico César e Geraldo Azevedo, enfim, na turnê Violivoz

Chico César Geraldo Azevedo Violivoz

Antes da pandemia, Geraldo Azevedo e Chico César preparavam a turnê “Violivoz”, que tinha estreia marcada para maio do ano passado. Mas como não se brica com a saúde, foi preciso aguardar a retomada das atividades para que a dupla enfim pudesse correr o país. A turnê começou pelo Nordeste, chega ao Rio neste sábado e domingo (4 e 5) com apresentação no Circo Voador, e segue por Salvador (14 e 15/1), João Pessoa (21/1) e Fortaleza (22/1).

Na turnê Violivoz, Chico e Geraldinho promovem um mergulho coletivo em suas próprias obras, mostrando a força de suas canções. O repertório passeia por grandes sucessos autorais, clássicos da dupla e, claro, algumas surpresas que têm tudo para levar a plateia ao delírio.

Uma delas é a canção “Nem na Rodoviária”, uma criação da dupla justamente no período em que se viram impedidos de iniciar a turnê e de sequer estar juntos. E a história é mais ou menos assim: Chico mandou uma letra por email para Geraldo e ele prontamente respondeu com a melodia. Eles gravaram a música nova com seus celulares. O single foi lançado no segundo semestre de 2020 e só agora está sendo mostrada ao vivo. “Não sei no seu planeta / Se existe amor para dar / Se amores são cometas / Que os amantes mal veem passar / Não há saciedade / Se quem chega parece partir / Tanto preconceito / Tanto amor desfeito / De amar assim”, canta a dupla num dos versos da canção que toca fundo nos sentimentos remexidos por tanto tempo em casa.

Sertanejos de estados vizinhos, o pernambucano Geraldinho e o paraibano Chico trazem o acento nordestino em seus cancioneiros. “Esse show com o Geraldo nasceu de uma noite em que ficamos tocando violão na cozinha de minha casa. A base do repertório são nossas canções conhecidas, mas há também algumas parcerias inéditas”, conta Chico.

“Temos pensado em canções onde a gente possa brincar com o instrumento”, acrescenta Chico César, lembrando músicas como “Bicho de 7 Cabeças” ou “Meu Pião”. Canções que vão sendo testadas para o repertório, como também “Mama África”, “Dia Branco”, “À Primeira Vista”, “Menina do Lido”…

Chico César e Geraldo Azevedo somam seus talentos na turnê Violivoz – Fotos: Marcos Hermes

Perguntado sobre o que lhe aproxima do colega paraibano, o pernambucano Geraldo tem a resposta na ponta da língua. “Eu acho que é o charme das canções, a arte de compor, de trabalhar, de dar polimento à música até ver que ela ficou pronta… Acho que cada um de nós vê isso no trabalho do outro e se identifica.”

Como todo bom compositor nordestino, o caldo cultural em que ambos cresceram faz diferença, desde o ouvido criado na música-de-rua sertaneja, seja na Petrolina de Geraldinho ou na Catolé do Rocha de Chico. O Tropicalismo também deixou influências nos dois, apesar da diferença de idade entre eles. “O Tropicalismo estava em minha música muito antes de começar minha carreira solo. Lembro de Gilberto Gil, ao voltar de Londres, mostrando as canções que pretendia gravar, como ‘Expresso 2222’; fizemos trabalhos juntos, havia uma troca musical que deixou muita coisa”, conta Geraldo.

O pernambucano conta que conheceu o trabalho de Chico César através de Carlos Bezerra, o “Totonho”, paraibano famoso pelo trabalho musical “Totonho e os Cabras”. Totonho era, tal como Chico César, uma cria do grupo de música de vanguarda paraibano Jaguaribe Carne, liderado em João Pessoa por Pedro Osmar e Paulo Ró.  Os dois, Chico e Geraldo, tinham canções num projeto que não chegou a ser gravado, mas Geraldo, ao escutar as músicas de Chico, pediu que ele viesse gravar o violão.

“Quando algum tempo depois foi lançado Aos Vivos pra mim foi uma revelação. Além das composições em si, o violão de Chico César buscava outros caminhos, com um estilo muito pessoal, que só ele seria capaz. Virei divulgador (risos)… Comprei duas caixas de CDs e saí distribuindo para as pessoas, dizendo para elas: Dá uma escutada nisso aqui, e depois me fala”, lembra.

A admiração tornou-se recíproca neste momento. Chico César, cerca de vinte anos mais novo, já acompanhava o trabalho de Geraldo – uma das figuras de maior presença na geração de nordestinos que se projetou na MPB dos anos 1970 e aprofundada quando este uniu-se aos trovadores  Elomar, Xangai e Vital Farias no projeto Cantoria (1984, 1988; e numerosas turnês), da gravadora Kuarup. Depois, juntou-se aos companheiros de geração Elba Ramalho, Alceu Valença e Zé Ramalho para outro projeto bem sucedido, O Grande Encontro (1996, 1997, 2000 e numerosas turnês).

“A verdade é que nem a geração de Geraldo nem a de Chico passou incólume pelo baião, pelo coco, pela Bossa Nova, pela Tropicália, a Jovem Guarda, o rock internacional, os ritmos latinos e caribenhos. A liga proporcionada por cada uma dessas janelas musicais vai aproximando caminhos”, testemunha o poeta Bráulio Tavares, um amigo comum dos dois artistas.

A admiração e o respeito que Geraldo Azevedo e Chico César têm um pelo outro tornam-se evidentes quando eles se encontram para tocar e falar de música. Depois de quase dois anos afastados pela pandemia, os dois retomaram os ensaios, as apresentações ao vivo e as composições em parceria. Os encontros têm sido de pura diversão e cumplicidade – o que se reflete no palco. Sorte nossa poder ver esses dois craques em ação. Eu estarei lá, no gargarejo!

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