Rock Brasil

Detonautas se veste de laranja para gritar nossos absurdos

detonautas - foto bruno kaiuca

Desde que o rock é rock, o gênero está associado à contestação, ao deboche e inconformidade. Desde o ano passado, o Detonautas Roque Clube vem lançando crônicas do Brasil recente em forma de canções. Esses oito singles-protesto e mais três inéditas (“Clareiras”, “Bandeira do Brasil” e “Carta ao Futuro” versão acústica) formam o “Álbum Laranja”, o sétimo disco de estúdio da banda, que conta com participações de Gabriel, o Pensador e Gigante no Mic.

“Kit Gay”, “Político de Estimação”, “Mala Cheia” e “Micheque” são algumas das pedradas sonoras atiradas pela banda na fachada de vidro do Palácio do Planalto. Com a capa toda na cor laranja, o álbum remete a LPs icônicos do rock, como o “White Album” (1968), dos Beatles, ou o “Black Album” (1991), do Metallica.

Formada por Tico Santa Cruz (vocal), Renato Rocha (guitarra), Fábio Brasil (bateria), Phil (guitarra) e André Macca (baixo), o Detonautas Roque Clube é uma banda que se posiciona. “Carta ao Futuro” é um exemplo claro. Seu videoclipe é uma animação que conta, de maneira objetiva, o sentimento dos brasileiros diante do obscurantismo negacionista que assola o país. O desastre na gestão da saúde em plena pandemia, as alegorias fascistas e as tentativas de golpear e enfraquecer a democracia são retratadas e simbolizadas por zumbis que aterrorizam Brasília, acompanhados de um forte aparato repressivo e seitas obscurantistas.

Já “Micheque”, uma contundente sátira ao episódio dos R$ 89 mil em cheques depositados por Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, integra o repertório do álbum com peso de hit (quase 3,7 milhões de visualizações do lyric video no YouTube e 1,6 execuções no Spotify). Seu impacto foi tanto que apoiadores do presidente Jair Bolsonaro defenderam abertamente a proibição da música. Resultado: sua audiência só fez aumentar. A faixa conta com a participação do humorista Marcelo Adnet, com áudio de uma imitação do humorista com uma fala de Bolsonaro.

“Essas músicas são crônicas do período que estamos vivendo. São olhares a respeito do negacionismo e da forma como esse governo vem tratando a pandemia. ‘Roqueiro Reaça’, especificamente fala dessa ‘espécie’ do rock nacional que engajou com uma parcela da população que tá completamente alienada da realidade e que vem fazendo discursos pitorescos, como associar o vírus ao comunismo. Nós entendemos que não precisa necessariamente ser de esquerda pra ser roqueiro, mas o rock é um estilo transgressor, e por isso não combina com autoritarismo e fundamentalismo. Alguns roqueiros no Brasil adotaram esse discurso, e tem vários que vão vestir a carapuça”, afirma Tico Santa Cruz, que é formado em Ciências Sociais, e é uma voz corrente na crítica às mazelas brasileiras, dentro e fora dos palcos.

A hedionda prática do racismo no Brasil levou a banda a regravar “Racismo é Burrice”, de Gabriel O Pensador, gravada originalmente em “Gabriel O Pensador Ao Vivo” (2006), que soa horrivelmente atual. O rapper divide os vocais com Tico nessa faixa revisitada.

Mas Tico avisa que nem tudo são trevas e que também há espaço para o otimismo no “Álbum Laranja”. “‘Fica bem’ é uma música que fiz no início da quarentena. Cheguei a postar nas redes sociais uma versão violão e voz, no mesmo dia em que criei. As pessoas gostaram tanto que resolvemos gravar com a banda completa. Emociona, arrepia e faz chorar de alegria”, comenta.

“É um documento histórico. No futuro, quando forem revisionar o que aconteceu nesta fase do Brasil, acho que os professores de história terão muita dificuldade de explicar, porque os roteiristas que estão fazendo o roteiro estão muito imprevisíveis, é muito louco tudo que está acontecendo. Então, a gente está documentando em música, pra que as pessoas possam no futuro, lá em 2035, 2050, entender. Quando elas falarem ‘o que tava acontecendo no Brasil musicalmente?’, alguém vai responder ‘no rock, tem esse disco do Detonautas que fala passo a passo do que aconteceu em 2020 até julho de 2021’”, teoriza Tico Santa Cruz. Ouça aqui o “Álbum Laranja” completo:

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