MPB

Djavan entre canções e orquídeas

A carreira musical completa 42 anos. Na bagagem, incontáveis sucessos. Uma coletânea tripla de Djavan deixaria obras-primas de fora. Um raro caso de compositor sofisticado e dono de uma voz de timbres singulares, cuja obra possuí raízes tão profundas a ponto de ser reconhecida e replicada por multidões. Mas, aos 69 anos, este artista alagoano que teve o privilégio de ter padrinhos da fina flor da MPB – como os parceiros Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Roberto Carlos, entre outros – não está disposto a fazer um balanço da carreira. “Estou voltado para o futuro”, desconversa Djavan, confidenciando não ter o hábito de ouvir os álbuns gravados.

Jardineiro de pequenos tesouros musicais como “Flor de lis”, “Pétala” e “Flor do medo”, o compositor planta orquídeas há 15 anos sem deixar o jardim da vida ressecar e morrer – Djavan coleciona hoje 850 exemplares de centenas de espécies numa propriedade em Araras, Petrópolis – e dedicou a elas uma letra “djavânica” na canção “Orquídea”, presente em “Vesúvio”, seu mais novo trabalho de estúdio com 13 canções inéditas e que tem, pelo menos, três candidatas a se tornar hit. Conheça 0 álbum na íntegra:

Sua preocupação com questões atuais, como meio ambiente, imigrantes e os rumos do Brasil, inspiram os mesmos cuidados que o cultivo de flores tão delicadas, como ele deixa claro na entrevista abaixo:

Você está chegando ao 24º álbum de uma carreira em que trilhou vários caminhos musicais. Sua obra é conhecida e considerada por público e crítica, apesar de seu refinamento artístico e estético. Você já se sente à vontade para fazer um balanço, ainda que parcial, da sua trajetória?
DJAVAN – Eu sempre busquei a diversidade. Esse disco tem um acento pop maior, que foi uma maneira de me desafiar um pouco. Mas não tenho muita essa noção de um balanço da minha carreira, porque tenho uma facilidade muito grande de me desvencilhar do que já foi feito, do passado. Não conto com o passado como elemento de avaliação de uma vida, uma trajetória. Acho que estou sempre voltado para o futuro. Por exemplo: não costumo escutar meus discos. Depois que faço um disco, escuto naquele período em que vou ensaiar para um show. Depois, ponho num canto. Estou mais voltado para o que vou fazer, e não para o que já fiz. Penso mais no que vou fazer nos próximos dois anos, por exemplo.

Então é preciso perguntar o que você fará nos próximos dois anos.
Estou com muitas ideias que precisam ser amadurecidas e apresentadas a outras pessoas. Logo, fico pouco à vontade para falar disso, mas o que existe de mais concreto é sair em turnê mundial de lançamento do álbum novo por mais ou menos um ano e meio.

Você gosta de se definir como um artista autossustentável, daquele tipo que cuida de todos os aspectos da carreira, da parte musical aos mínimos detalhes da produção de um show. Faz lembrar os artistas em início de carreira que têm de jogar nas onze posições. Sempre foi assim?
Desde o início, sempre tive uma grande dificuldade de me relacionar com o mercado, porque faço uma música distinta, uma coisa pessoal bem grande, e nunca permiti interferências no fazer da minha música, na construção de uma obra. Por isso, sempre busquei a gerência da minha carreira, de modo a me afastar de qualquer intervenção de gravadora, de produtor, seja o que for. É por isso que, depois de muitas indas e vindas, acabei tendo de montar estúdio, gravadora, produtora, escritório para cuidar e tudo e etc… E passei eu mesmo – além de compor, cantar e escrever –, a fazer os arranjos e produzir os meus discos. Tudo isso para conduzir minha obra de modo completamente independente e oriundo de uma ideia musical saída da minha própria cabeça. O objetivo de toda essa movimentação foi buscando ser realmente um artista íntegro no pensamento original, na maneira de fazer
música, visando à diversidade.

Independente dessa tua relação de estranhamento com o mercado, que certamente devia ser mútua, você teve um início de carreira, digamos abençoado, em grande parte por ter conseguido compor para Bethânia, Roberto, Caetano e Chico, para ficar em alguns nomes. Você se considera um privilegiado?
O meu início foi agraciado pela atenção das randes estrelas da música brasileira. Bethânia, Gal, Nana Caymmi, Caetano, Chico, Gil, Aldir Blanc, João Bosco, Roberto… Todas essas estrelas da MPB me procuraram no início, por perceberem que estava surgindo um artista digno de atenção. Nos tornamos amigos desde os primórdios, desde
o fim da década de setenta. Isso me abriu portas. Mas isso não muda o fato de eu ser um artista popular, mesmo sem produzir necessariamente uma música popular. E isso decretou uma dificuldade muito grande no meu início de carreira, mesmo tendo a atenção desses gigantes da nossa música. Nunca tive uma vida fácil, digamos assim, mas eu
sou um guerreiro.

Nos últimos anos, sua produção em álbuns tem saído um pouco mais espaçada. Você está compondo menos, se apresentando menos ao vivo. É proposital?
Estou lidando de acordo com as possibilidades que o tempo impõe. Hoje em dia você trabalha muito mais do que antes. A internet impõe uma rotina infernal, porque você passa a ter de produzir áudio e imagem, tem de produzir conteúdo ininterruptamente, porque é assim que funciona esse mercado. As turnês que faço tendem a ser maiores pela demanda. E tenho família, filhos pequenos. Preciso vivenciar o crescimento, a evolução deles. E isso é mais por mim, porque eu cresço junto. Nunca fui de fazer um disco por ano, sempre fiz de dois em dois. Teve momentos em que gravei por dois anos seguidos, mas essa não era a tônica. Passou a ser de três em três, a partir de “Rua dos Amores”, por falta exclusiva de tempo para gerir todas essas demandas.

Você tem cinco filhos de dois casamentos (os músicos Max Viana, João Thiago e Flávia Virginia; e Sofia e Inácio Viana, de 17 e 11 anos, respectivamente). Sabemos que dá um grande valor à paternidade.
Recomendo a todos que casem, tenham filhos. Ter filhos é fundamental. Acredito que o indivíduo só passa ser alguém íntegro, no sentido de ser completo, inteiro, a partir do momento em que tem filhos. E por isso preciso tanto
estar com eles o maior tempo possível.

Sua poesia está afinadíssima, como na canção “Orquídea”. Como é essa sua relação com essas flores tão delicadas?
Esta relação com a natureza vem do útero. Ainda pequeno, minha mãe já me ensinava os nomes de plantas, das
constelações. Até hoje sei os nomes de plantas da Caatinga, a Zona da Mata, da Mata Atlântica. O meu interesse pela
natureza, pelos bichos, pela água, pelo sol, a lua, as árvores, é antiga. Sempre gostei muito disso e lido com jardins, com florestas, porque eu tenho em Araras (Petrópolis), um lugar com 11 alqueires de Mata Atlântica, onde eu preservo tudo para não deixar mexer com a organicidade da natureza, ou seja, os pássaros sazonais, a água, as fontes, nascentes, as matas ciliares. Tenho tentado preservar isso ao máximo com o auxílio de biólogos, inclusive.

E as orquídeas?
Apesar de ter os jardins, não cultivava orquídeas. Isso tem uns 15 anos. Contratei um especialista na construção
de orquidários porque se trata de flores delicadas. Precisam de um teto que deixe passar a luz necessária para o seu desenvolvimento. O vento tem que ser controlado e é preciso permitir o acesso de aves que possam polinizar as flores. São muitos cuidados e que só mesmo um especialista poderia me trazer essas informações. A orquídea se tornou uma cachaça, você vai trazendo cada vez mais. Tenho um fornecedor que me apresenta novidades. Elas têm perfumes incríveis. Fiz um orquidário com um tabuleiro para 450 plantas e agora já são 850, de 360 espécies diferentes. Fiz a canção porque sempre quis falar disso. Leio bastante sobre o tema, levo a sério.
(após muita insistência do repórter, Djavan mandou, por meio de sua assessoria algumas fotos das orquídeas que cultiva e coleciona na sua propriedade. Ao lado, uma das espécies de rara beleza de seu orquidário. Até então, 0 artista nunca havia mostrado suas flores).

 

E a letra da canção é um achado. Você criou neologismos na combinação desses nomes complicados, em latim, com verbos e substantivos. Uma típica “poética djavânica” que, aliás, também é nome de orquídea, não é?

É a javânica (risos). Pois é. Não conhecia essa espécie e, na hora de fazer a pesquisa, para ver como pronunciar
corretamente essas palavras, eu descobri a javânica. Liguei para o meu fornecedor e perguntei ‘você conhece essa espécie?’ e ele respondeu que não, mas que ia à cata e trouxe dois exemplares. Essa nomenclatura das orquídeas é incrivelmente inspiradora. Esses nomes em latim têm uma música própria.

Dá para cantar todos esses nomes complicados nos shows? A letra é um trava-língua.
Dá, claro que dá! A música é linda e eu gosto. É um trava-língua, sim, mas o meu público é tão inusitado que eu não vou me surpreender se ouvir pessoas cantando essa música nos shows (risos).

Falando no teu público, você sabia que suas canções estão entre as mais executadas pelos artistas populares que se apresentam no metrô aqui do Rio? Dá para ouvi-las em ritmos variados.
Não, eu não sabia! Acho isso uma glória, esses artistas se interessarem em viabilizar a extensão da minha obra. Sabia que era muito executado na noite, mas essa coisa do metrô… Você sabe que eu tenho um projeto que é andar de metrô aqui no Rio? Ando andando bastante lá fora, mas aqui nunca andei. Já imaginou se estou no metrô e o cara começa a cantar a minha música? Isso que você está me dizendo me alegra profundamente, talvez seja um dos melhores pagamentos que eu teria com relação ao esforço que faço de gravar, compor e nutrir o público de novas canções. Isso é maravilhoso.

Fale da parceria com o Jorge Drexler neste álbum. Vocês são amigos?
Conheço parte da obra do Jorge há um tempo. Acredita que não conheço ele pessoalmente? A gente se fala por telefone. A parceria nasceu quando fiz “Meu romance”, a música que resultou no “Esplendor”. Pensei ‘essa música é um bolero espanholado’. Seria interessante lançá-la no mercado latino e lembrei dele, cujo trabalho sempre gostei. Tem talento, canta bem, escreve bem. Liguei e ele adorou a ideia, me perguntou o que gostaria que ele fizesse. Disse ‘você faz uma letra nova e a gente canta junto’. Três dias depois, ligou e propôs uma versão porque achou a letra original tão linda, não quis mexer. Vamos lançar esse clipe no mercado latino.

Ao falar sobre este novo álbum, você diz recorrer ao pop para levar sua mensagem com mais facilidade ao público, fala sobre tempos de incertezas. A que tipo de incertezas você se refere? Seriam de viés político?
O disco, na verdade, tem um acento pop mas, como em todos os meus outros trabalhos, busca uma diversidade
sonora e isso já seria um paradoxo, porque um disco pop é um disco de especialista e este trabalho não deixa de ter um acento meu.

Mas ele remete bastante a uma sonoridade do Djavan do fim da década de oitenta.
Verdade. Há pessoas que estão vendo essa relação. O enfoque do disco é a convivência com a ebulição do mundo. A gente está vivendo num mundo em transformação, vide os imigrantes, a resistência de alguns governos com relação ao tratado do clima. Ou a política predatória que se faz no Brasil, essa coisa de enriquecer grupos políticos e pessoas, e não voltada para o enriquecimento social, econômico e psicológico da população, que é como deveria ser. O disco trata de tudo isso e de relações humanas. Fala dessa coisa do amor, da busca por uma parceria quando você pode dividir o bom, o ruim e as ideias com alguém.

Você jogou nas categorias de base do CSA, mas descobriu a música. Ainda se interessa por futebol? Tem acompanhado a campanha do CSA que pode subir à série A?
A minha relação com o futebol é a mesma no sentido de considerá-lo uma arte, uma coisa maravilhosa. Uma tarde no Maracanã é um programa espetacular. Faz tempo que não vou, por absoluta falta de tempo. Mas dos assuntos importantes, como a seleção, o Campeonato Brasileiro, as campanhas do meu time (o Flamengo), do CSA lá em Alagoas, estou ligadíssimo. Estou na área; se me derrubar, é pênalti (risos).

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