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Dois baita álbuns para o mestre Aldir Blanc

Aldir Blanc

Setembro é o mês do aniversário de Aldir Blanc, nome tão marcante na história da MPB que até nome de lei virou. Ourives da palavra, como lhe chamava Dorival Caymmi, enquanto vivo este carioca suburbano verteu poemas em canções de amores, dores e profunda crítica social. Morto pela covid-19 há quase um ano meio, Aldir precisa ser lembrado mais do que nunca com suas canções eternas. E justamente neste mês dois bons lançamentos relacionados a Aldir chegam ao mercado: um álbum de releituras em arranjos criativos para voz e piano, sob a assinatura da dupla Augusto Martins e Paulo Malaguti Pauleira; e um disco de inéditas com vários intérpretes recrutados pela Biscoito Fino. Vamos dar uma pincelada sobre os dois trabalhos:

‘Aldir Blanc Inédito’

Aldir Blanc
Capa de ‘Aldir Blanc Inédito’, distribuído pela Biscoito Fino

Com arranjos de Cristóvão Bastos (um fiel parceiro de Aldir) e produção musical de Jorge Helder, o “Aldir Blanc Inédito” foi gravado entre julho a agosto deste ano, seguindo todos os protocolos necessários, estabelece uma transversal do tempo dos parcerias do genial letrista. Vai de João Bosco, passa por Guinga, Moacyr Luz e o próprio Cristóvão e chega até Alexandre Nero, último parceiro de Aldir.
A ideia do álbum surgiu de Mary Lúcia de Sá Freire, viúva do compositor, que reuniu manuscritos, letras e poesias inéditas. O projeto tomou forma a partir da contribuição de parceiros e amigos de Aldir: algumas músicas já estavam finalizadas, outras ganhariam melodias neste ano.
Com capa de Elifas Andreato, “Aldir Blanc Inédito” tem gravações de João Bosco (“Agora Eu Sou Diretoria”), Maria Bethânia (“Palácio de Lágrimas”), Moyseis Marques (“Baião da Muda”), Chico Buarque (“Voo Cego”), Leila Pinheiro e Guinga (“Navio Negreiro”), Dori Caymmi (“Provavelmente em Búzios”), Ana de Hollanda (“Acalento”), Joyce Moreno (“Aqui, Daqui”, Moacyr Luz (“Mulher Lunar”), Clarisse Grova (“Outro Último Desejo”, Sueli Costa (“Ator de Pantomima”) e Alexandre Nero (“Virulência”). Para quem estranha a presença do ator Alexandre Nero no álbum é importante destacar que ele e Aldir
“Aldir Blanc Inédito” comprova algo de que sempre tivemos certeza: a poesia de Aldir permanecerá reverberando, pois “a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”. Não vai ser algo breve como a vida que vai cessar esse espetáculo.

 

‘Como Canções e Epidemias’

Capa do álbum 'Como Canções e Epidemias', de Augusto Martins e Paulo Malaguti Pauleira, com distribuição Mills Records
Capa do álbum ‘Como Canções e Epidemias’, de Augusto Martins e Paulo Malaguti Pauleira, com distribuição Mills Records

E entrando no campo das releituras sempre necessárias deste poeta tão vivo e presente entre nós, temos “Como Canções e Epidemias”, título tão atual e profético extraído dos versos da clássica “Caça à Raposa”, uma canção de 1975, que tinha como pano de fundo a luta pela democratização e uma epidemia de meningite. O cantor e compositor Augusto Martins e o músico e arranjador Paulo Malaguti Pauleira mergulharam profundamente na obra até então gravada de Aldir para selecionar 14 canções – um trabalho enorme.
A ideia de um disco sobre Aldir nasceu naturalmente. Médico formado como Noel Rosa e Aldir Blanc, tijucano como eles, Augusto Martins tem a referência de que grandes autores são mais universais quando falam sobre suas aldeias e Aldir respirava Tijuca. Nascido no Estácio e criado em Vila Isabel, quase Maracanã, tornou-se o Bardo da Muda, para onde se mudou adulto. E seus versos, mesmo os mais famosos são pílulas de seu cotidiano, de seu viver um lugar, como os “transparentes feito bijuterias da Sloper da alma”, referindo-se à loja Sloper da Praça Saens Pena, ou o “Caía a tarde feito um viaduto”, no caso o Elevado sobre a avenida Paulo de Frontin, no Rio Comprido.
“Augusto e Pauleira empreenderam uma das mais profundas pesquisas que já vi alguém fazer em torno de uma obra para um disco, revisitaram os clássicos, redescobriram canções esquecidas, procuraram inéditas como ‘Muito Além do Jardim’, uma parceria de primeira linha com Moacyr Luz”, testemunha o jornalista e pesquisador Hugo Sukman, amigo da dupla.
E o cancioneiro de Aldir recebe tratamento de luxo em “Como Canções e Epidemias” cujos arranjos assinados por Pauleira sugerem novos climas da primeira à última faixa como. Aldir sentiria um frio na alma ouvindo um “Rancho da Goiabada” ficaria emocionado em que o piano dialoga com “Summertime”, dos irmãos Gershwin vingado com a história ao ver a letra original de “Querido Diário” (maculada pela censura da ditadura militar) ser finalmente cantada como foi escrita. Lá de cima, Aldir faz da saideira um ajuste de contas com o tempo e agora brinca de ser eterno numa Tijuca que achou no céu.

 

Ouça no Faixa a Faixa

Augusto e Pauleira gravaram o mais recente episódio do podcast Faixa a Faixa contando histórias sobre a pesquisa que fizeram tudo sobre “Como Canções e Epidemias”. Ouça aqui:

 

Leia mais em:

Aldir Blanc: Perdemos um mito

Aldir Blanc (1946-2020): ‘Sentindo frio em minh’alma’

 

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