Rock

Elas são puro rock e atitude!

Nesta segunda-feira (13) tivemos a celebração do Dia do Rock mas o assunto ganha ares de permanência aqui no Na Caixa de CD assim como qualquer grande manifestação musical. Já tivemos uma seleção de filmes relacionados ao gênero. O grande Paulo Andel resumiu, em bela crônica, o quanto o rock e sua atitude podem (e devem) formar pessoas melhores. Neste texto quero destacar 12 (na verdade são 14!!!) mulheres de atitude que ajudaram a moldar não apenas a concepção do rock, mas a música como a conhecemos desde então.

Sister Rosetta Tharpe (1915 – 1973)

Se a vida humana vem de útero feminino por que seria diferente com o rock? Antes que o gênero fosse batizado lá estava Rosetta Tharpe, cantora e compositora gospel juntou o blues e o country a acelerou seu andamento muito antes de Elvis Presley, Little Richards ou Chuck Berry. Isso foi  anos 1940. Nada mais justo que uma mulher negra e empoderada fosse a primeira do ritmo da contestação. Depois de casar-se com um pastor, ganhou a alcunha de Sister (Irmã, em inglês), mas suas primeiras gravações chocaram os fiéis, que viam uma deturpação da música sacra. Nascia um novo rito, com milhões de devotos! Só em 2017 a matriarca teve nome incluído no Hall da Fama do Rock. Ouça e tire suas próprias conclusões:

Janis Joplin (1943 – 1970)

Nos anos 1960, cantoras negras como Rosetta dedicavam ao blues, ao jazz ou à nascente soul music, mas havia uma voz essencialmente negra dentro do corpo de uma branquela. Cabia muito muito sentimento, dor e rebeldia em Janis Lyn Joplin, reconhecida pela Rolling Stone como uma das 100 melhores artistas de todos os tempos. Além da influência das grandes divas, seu timbre potente e metálico casou perfeitamente com a psicodelia que marcaria a revolução do rock and roll. Sua ascenção artísrtica foi meteórica, chegando ao seu auge no Festival de Woodstock, em 1969. Meteórica também foi sua vida ceifada  pelas drogas. Mas é referência até hoje, sendo reconhecida como a maior cantora da história do rock:

Michelle Phillips & ‘Mama’ Cass Elliot

Apresentadas dessa forma, as duas cantoras podem passar desapercebidas pelos mais distraídos. Mas não amante do rock que não reconheçam como as suas vozes femininas do quarteto vocal californiano The Mamas & The Papas, que incluia ainda John Phillips e Denny Doherty. Entre 1966 e 1968, criações da banda como “Monday, Monday” e “California Dreaming” embalaram os sonhos de paz e amor, de um mundo mais justo sem ódio e preconceito. O The Mamas & The Papas foi uma raras bandas americanas que não sucumbiram à invasão britânica liderada pelos Beatles e Rolling Stone. As excelentes harmonizações vocais do grupo formam um capítulo à parte na história do rock.

Carly Simon

Cantora, compositora e autora de livros infantis, Carly Simon iniciou a carreira em 1960, mas começou a se destacar na década seguinte, ao ter conquistado o Grammy de Artista Revelação em 1971. Manteve parceria musical e afetiva com James Taylor e ambos destacram-se na nova cena do soft rock que decolava após os anos lisérgicos da psicoldelia. Firmou-se com uma grande porta-voz da poética feminina na cena musical. Um de seus hits, “You’re So Vain”, foi listado como uma das 100 maiores canções de todos os tempos. Entrou para o Grammy Hall of Fame, em 1994. Com o seu sucesso de 1988 “Let the River Run”, do filme “Working Girl”, tornou-se a primeira artista na história a vencer um Grammy, um Oscar e um Globo de Ouro por uma canção inteiramente composta, letrada e executada por uma só pessoa. Apesar da idade e de estar perdendo a voz, apresenta-se eventualmente com o filho Ben. Em 2015 publicou uma autobiografia (“Boys in the Trees”).

Gal Costa

Gal Costa? Sim, Gal Costa! A psicodelia deu frutos no Brasil, mas tinha de ser do nosso jeito, com a nossa cor e o nosso tempero. Dos quatro bárbaros e doces tropicalistas, a baiana gravou em 1971 um álbum que é rock em sua essência, o “Gal Fatal”, um registro ao vivo de uma série de shows que a cantora apresentou no Teatro Tereza Raquel, no Rio, sob a direção de Waly Salomão. O repertório é estupendo passeando pelas mais variadas vertentes da MPB, mas seu grande mérito foi dar voz a compositores novatos como Jards Macalé, Luiz Melodia, Jorge Ben e o próprio Waly, com sua estética baiana-beatnik. O show foi filmado pelo cineasta Leon Hirszman, porém nunca foi lançado. Gal costuma declarar o sonho de ver as filmagens restauradas e lançadas em DVD. Alguns trechos curtos dessas filmagens estão no documentário “O Nome Dela é Gal”, de 2017. “Gal Fatal” foi lançado na época como um álbum duplo. O lado A do primeiro LP é dominado pela formação acústica e Gal canta sambas e baladas para, em seguida, cair na impressionante interpretação de “Pérola Negra” (Luiz Melodia), que você ouve aqui:

 

Joni Mitchell

Muitos são os talentos da canadense Joni Mitchell. Dona de líndissima voz, composotora, pianista, violonista, poetisa e artista plástica. Foi citada pela Rolling Stone como a 75º melhor guitarrista de todos os tempos, além de uma das melhores compositoras da história. Além da música, destacou-se, ainda nos anos 1970, como ativista social e de causas ambientais, questões sempre presentes em sua obra. Musicalmente cruzava pontes das raízes folk com o jazz, sobretudo por suas grandes performances instrumentais. Detentora de nove Grammys, entre outros prêmios, gravou dois álbuns antológicos: “Clouds”, de 1969, e “Blue”, de 1971, na honrosa 30ª posição na lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos da Rolling Stone.

Annie Haslam

Um dos expoentes do rock progressivo nos anos 1970, o Renaissance mesclou com maestria elementos do rock e da música clássica. Mas, além do virtuosismo dos instrumentistas, pairava  a voz de Annie Haslam, que ingressou na banda em 1971 e lá permanece até hoje, atravessando algumas mudanças de formação. Nesse período, também gravou 16 álbuns pela banda, nove trabalhos solo e algumas participações memoráveis em trabalhos dos guitarristas Steve Howe (ex-Yes) e Steve Hackett (ex-Genesis). Dona de uma das vozes femininas mais marcantes do rock, já visitou o Brasil em cinco ocasiões chegando a dividir o palco com Flávio Venturini (2001) e Marcus Vianna (Sagrado Coração da Terra), em 2005. A turnê do Renaissance deste ano incluía concertos no Brasil, todos adiados sem previsão de data por conta da pandemia. Em paralelo, Annie Haslam dedica-se à pintura.

Rita Lee & Lucinha Turnbull

Desde os tempos do Mutantes até sua invejável carreira solo, Rita Lee é unamidade no posto de rainha do rock brasileiro. Que o diga o mestre Caetano, que á a citara em versos da bela “Sampa”. O que poucos sabem é que, logo ao deixar os Mutantes, gravou com Lucinha Turnbull o antológico álbum “Cilibrinas do Éden” (1973). Mesmo sendo nome pouco conhecido das massas, Lucinha figura orgulhosamente nesta galeria de grandes mulheres roqueiras por ser a primeira brasileira a empunhar uma guitarra elétrica, isso lá pelos idos dos anos 1960. Não foi a apenas a pioneira, mas um grande nome do instrumento e merece ser citada sempre que possível. Psicodélico, debochado, ousado, “Cilibrinas do Éden” é um baita álbum e é uma importante base para que Rita e ela fariam nos anos seguintes com o Tutti-Frutti e em sua mais do que conhecida e e reconhecida carreira solo. Fora do Tutti-Frutti, Lucinha firmou-se como a excelente instrumentista que é em colaborações musicais expressivas e com Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros. Separei aqui um link com o álbum completo dessas duas mulheres que são a mais perfeita tradução da vertente feminina do rock brasilis:

Chrissie Hynde

Há mais de 40 anos, Chrissie Hynde desafia convenções e normas ao se impor como mulher e criadora em meios predominantemente masculinos. A vocalista do The Pretenders nasceu e cresceu em Ohio (EUA), mas mudou-se para Londres onde trabalhou como jornalista da conceituada NME (New Music Express). A mulher certa na hora e no lugar certo. Travou conhecimento com a geração que viria sacodir o rock britânico (e mundial) com o nascimento dos movimentos punk e new wave e trocou a máquina de escrever pelo microfone.  Com 13 álbuns de estúdio lançados e diversos clássicos, Chrissie Hynde é parte do Rock’n’Roll Hall of Fame e uma inspiração para diversas gerações de artistas, de diversos gêneros musicais. A pop star Madonna é uma delas. A artista dedica parte de seu tempo às causas ambientais e aos direitos dos animais. Musicalmente, transpôs o universo punk e transitou pelo folk, pop, jazz e até pela MPB firmando parceria com o produtor Moreno Veloso a ponto de chegar a morar no Edifício Copan, em São Paulo, no início dos anos 2000 para criarem juntos. No dia 17, Hynde abre nova página na carreira com o próximo disco do Pretenders, que chega ao Brasil via BMG. Assista o single de “Hate for Sale”, uma das faixas do novo trabalho:

Joan Jett

São da americana Joan Jett talvez o refrão e o riff mais emblemáticos do chamado rock feminino. Estamos falando do hit “I Love Rock ‘n Roll”, que emplacou o 1º lugar absoluto da Billboard entre 30 de março e 1º de maio de 1982 e cujo clipe foi uma das sensações da MTV. A canção foi considerada pela própria Billboard a 28ª melhor de todos os tempos. Cantora, compositora, guitarrista, baixista, produtora musical e atriz, Joan conheceu o sucesso nos anos 1970 ao lado das suas companheiras de banda The Runaways, mas manteve a fama nas duas décadas seguintes em carreira solo. Joan Jett foi nomeada pela Rolling Stone a 67ª melhor guitarrista de todos os tempos. Somente ela e Joni Mitchell, na 75º posição (veja acima), ocupam o top 100. Além de “I Love Rock and Roll” (ouça abaixo), Joan brilhou com canções como “Bad Reputation”, “I Hate Myself For Loving You”, “Crimson and Clover”, “Little Liar”, “Do You Wanna Touch Me”, “Light of Day”, “Love is All Around” e “Everyday People”.

Tracy Chapman

Honrando a tradição iniciada por Sister Rosetha Tharpe, Tracy Chapman tomou a cena musical de surpresa com a incrível harmonicidade de suas canções, construídas sob a melhor tradição do folk, do blues e do pop rock e com uma poética contemporânea a afirmativa, pois Tracy é outra daquelas mulheres negras e empoderadas a quem se deve ouvir atentamente. Seu primeiro álbum, de 1988, já carregava sucessos incontestáveis do quilate de “Fast Car”, “Baby Can I Hold You” e “Talkin’ Bout a Revolution”ive Me One Reason”. Perdi as contas de quantas vezes ouvi suas batidas ao violão. Vencedora o Grammy quatro vezes. Poderia ter escolhido clipes de suas excelentes apresentações solo, mas julguei relevante colocar essa grande artista dividindo o palco com o Deus da Guitarra, Eric Clapton, cantando outro grande sucesso que é “Give Me One Reason”.

Cássia Eller

Depois de falarmos em Rita Lee e Lucinha Turnbull, é preciso voltar ao Brasil para falar de uma força da natureza chamada Cássia Eller. Onze anos de carreira fonográfica foi pouco para uma artista dessa grandeza, mas a discografia impressiona até hoje. Morta precocemente em 2001, aos 39 anos, foi uma das maiores representantes do rock brasileiro dos anos 90 e eleita a 18ª maior voz e 40ª maior artista da música brasileira pela revista Rolling Stone Brasil. Lançou cinco álbuns de estúdio em vida: “Cássia Eller” (1990), “O Marginal” (1992), “Cássia Eller” (1994), “Veneno AntiMonotonia” (1997) e “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo” (1999). Seu trabalho mais bem sucedido o “Acústico MTV” (2001), com mais de 1 milhão de cópias vendidas e um prêmio Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock. Sua voz rouca, potente, debochada e visceral reinventava tudo que por ela passava. Ainda que fossem letristas geniais, Renato Russo e Cazuza tornaram-se ainda maiores com as interpretações de Cássia para suas canções. Aqui, um dueto maravilhoso com o guitarrista Victor Biglione, produzido para a TV Globo. A canção? “Mercedes-Benz”, eternizada por Janis Joplin:

 

 

 

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