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Élcio Dias & Amorim emocionam revivendo obra de Pena Branca & Xavantinho

capa cd elcio dias e amorim cantam pena branca e xavantinho
Capa do álbum ‘Élcio Dias & Amorim cantam Pena Branca e Xavantinho

Domingo tem aquele gostinho de Sr. Brasil, de ver o mestre Rolando Boldrin apresentar as mais variadas vertentes da música regional brasileira, de se deixar virar raiz e mergulhar terra adentro. É dia de lembrar de artistas do porte de Pena Branca & Xavantinho. Ícone da música sertaneja de raiz, a dupla escreveu seu nome na história da música brasileira indo além do espaço normalmente reservado a artistas de perfil regional. A dupla se desfez em 1999 com a morte de Xavantinho e neste 2021 ganha um álbum inteiro dedicado a seu cancioneiro marcado pela singeleza melódica e o grande entrosamento dos carismáticos cantadores.

Músicos de Embu das Artes, Élcio Dias & Amorim assinam o belíssimo e emocionado “Élcio Dias & Amorim Cantam Pena Branca & Xavantinho” (Kuarup), lançado apenas nas plataformas digitais mas que clama por uma versão física. Músicos influenciados por clássicos do repertório caipira e ritmos da cultura popular como a congada, o pagode, a Folia de Reis e músicas juninas, Élcio e e Amorim realizaram um trabalho tomado pelo clima de reverência à famosa dupla. O álbum foi gravado no estúdio Don Produções e Estúdio de Gravações, em Itapecerica da Serra (SP), demandando oito meses de trabalho e dedicação. O projeto tem produção e direção musical assinada pela dupla e arte gráfica da capa criada pela artista plástica embuense Silvia Maia e apresenta 16 registros de tesouros da dupla como “O Cio da Terra”, “Vaca Estrela e Boi Fubá”, “Cuitelinho” e “Calix Bento”.

A ideia do projeto é antiga. Vem de 2003 quando Élcio estudava música e apresentou na faculdade um projeto baseado em “Cio da Terra”, a canção que projetou Pena Branca & Xavantinho, ao ganhar gravação de Milton Nascimento. Cindo anos depois, Élcio faria um show em tributo à dupla em sua cidade. Chegou a conversar algumas vezes com Pena Branca por telefone. Conversaram sobre músicas e futuras parcerias, mas tudo seria abortado com a morte do veterano artista em 2010.

No ano passado, no começo da pandemia, passando muito tempo em casa, Élcio decide resgatar o antigo sonho, pesquisando a trajetória da dupla e ouvindo muito seu repertório. Com o amigo Gildécio Amorim, professor da rede pública como ele, começou o processo de escolha do repertório. Os dois tocam e cantam desde crianças e a dupla teve início há dois anos.

Para evitar o maior risco de contaminação pela covid, os artistas preferiram gravar sozinhos no estúdio. Élcio Dias gravou violão em todas as faixas e Amorim gravou a viola, tendo a participação especial da cantora Elisa Dias na faixa “Viola Quebrada” e do grupo folclórico Folia de Reis do Lajedão na faixa “Reisado”. As participações dos convidados também foram gravadas à distância. Confiram o belo repertório: 1 – Viola Marvada/Cuitelinho – Renato Teixeira/Folclore recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xangó, e adaptado por Milton Nascimento e Wagner Tiso; 2 – O Cio Da Terra – Composição de Milton Nascimento e Chico Buarque; 3 – O Grande Sertão – Composição de Xavantinho; 4 – Vaca Estrela e Boi Fubá – Composição de Patativa do Assaré;  5 – Restinga, Sertão e Viola – Composição de Pena Branca & Xavantinho; 6 – Encontro De Bandeiras – Composição de Xavantinho e Tavinho Moura; 7 – Viola Quebrada – Composição de Mario de Andrade; 8 – A Mata Gemeu – Composição de Maria Chiquinha e Xavantinho; 9 – Fabulas de Carreiro – Composição de Moniz; 10 – Eu, A Viola e Deus – Composição de Rolando Boldrin; 11 – Cantiga (Caicó) – Composição de Heitor Villa Lobos com letra de Teca Calazans e adaptação de Milton Nascimento; 12 – Santos Reis (Reisado) – Composição de Teddy Vieira com folclore recolhido e adaptado por Ely Camargo; 13 – Beira Mar – Composição sobre folclore do Vale do Jequitinhonha recolhido por Frei Chico e adaptação de Élcio Dias; 14 – Canto Do Povo De Um Lugar – Composição de Caetano Veloso;  15 – Cantiga do Arco-Íris – Composição de Xavantinho e Moniz; 16 – Cálix Bento – Composição sobre obra recolhida do folclore mineiro com adaptação de Tavinho Moura.

Pena Branca & Xavantinho, a dupla que ganhou o Brasil após ser gravada por Milton Nascimento
Pena Branca & Xavantinho, a dupla que ganhou o Brasil após gravar ‘Cio da Terra’ com Milton Nascimento

Élcio explica que nas releituras houve a a preocupação em manter viva a essência, a pureza, a verdade e a tonalidade que é uma característica única e marcante de Pena Branca & Xavantinho. “A dupla carrega uma grande militância artística e declara que a cultura diz respeito a toda produção artística que construímos. Preservar a cultura significa manter os bens artísticos tecnológicos e culturais do nosso país, construídos por gerações. Cultura preservada é o registro da evolução do nosso povo. Preservar a cultura e tarefa de todos, é lutar por ela, é nosso dever coletivo. Um povo sem memória é um povo sem alma e Pena Branca & Xavantinho de alguma forma, exercitaram um papel muito importante, que foi mostrar ao povo que ele não pode, e não deve perder, nunca, as raízes que o prendem ao mais profundo de si mesmo” justifica o músico.

Depois de Cornélio Pires e sua turma, que representaram com categoria incomum a primeira geração de artistas sertanejos, ou caipiras de verdade, e da segunda que foi encabeçada por gente como Tião Carreiro, Tonico & Tinoco, Zico & Zeca, Vieira & Vieirinha, poucos são, hoje, os artistas que se propõem de fato a fazer e divulgar esse velho, belo e judiado gênero musical brasileiro. Incansáveis guardiões deste gênero tão belo como Inezita Barroso, Zé Cocô do Riachão e Rolando Boldrin, protetor da nossa cultura, sempre recusaram o modismo e construíram aos poucos uma obra monumental além de Renato Andrade com sua viola mágica. O time é bom mas precisa de reservas que  por sorte, vão surgindo aqui e ali, como Renato Teixeira, Almir Sater, Jackson Antunes, Chico Lobo, Téo Azevedo, Saulo Laranjeira, Paulo Freire, Roberto Corrêa, Ivan Vilela e tantos outros e uns poucos mais que começaram a dar forma e cara a uma terceira geração de artistas a que se somam Élcio Dias & Amorim com este lindo álbum que encheria de alegria os saudosos Pena Branca & Xavantinho. E para lembrar eternamente dessa dupla maravilhosa vamos fechar aqui com o link do divino encontro musical de Pena Branca & Xavantinho com Renato Teixeira:

 

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