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Elza Soares e João de Aquino – um tesouro descoberto

Elza Soares e João Aquino - Foto: Hipólito Pereira / Agência O Globo
Capa do álbum ‘Elza Soares & João de Aquino’

No apagar das luzes de 2021, a gravadora Deck prestou um inestimável serviço à música brasileira ao transformar em álbum um registro inédito da diva Elza Soares com João de Aquino, um dos melhores violões já vistos (e ouvidos) no Brasil. Gravado numa única sessão de estúdio em meados dos anos 1990, “Elza Soares & João de Aquino” já nasce com toda a aura que envolve um clássico.

Elza, que nasceu no samba, foi muito além. Seu poderio vocal, seus improvisos, estão mais que presentes neste trabalho que apresenta um repertório de excelência com releituras em voz & violão para pérolas de Lamartine Babo e Francisco Mattoso (“Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda”), Ismael Silva (“Antonico”), Taiguara (“Hoje”), Gilberto Gil (“Drão” e “Super Homem, a Canção”), Chico Buarque (“Meu Guri”), Luiz Melodia (“Juventude Transviada”), Jorge Ben e Toquinho (“Que Maravilha”) e Lulu Santos e Nelson Motta (“Como uma Onda”), entre outros. Enfim, um disco de uma intérprete soberba e no auge de sua maturidade vocal. Fosse americana, Elza seria endeusada.

“Moonlight Serenade”, o clássico de Glenn Miller, tem alguns acordes tomados emprestados para emoldurar “Devagar com a Louça” (Luiz Reis e Haroldo Barbosa), um dos grandes sucessos da cantora desde ao anos 1960.

A gravação é fruto de muita intimidade musical. Produtor de discos importantes da cantora, como “Negra Elza, Elza Negra” para a CBS em 1980 com muita macumba, samba e partido alto, e seu parceiro de palco em diversos shows desde a década de 70, João de Aquino tem a técnica e o vigor, o mesmo espírito improvisador e imprevisível da cantora.

“E, embora esta gravação tenha ficado mais de vinte anos esquecida em fitas analógicas guardadas numa gaveta, a impressão que se tem é que esse duo precisava existir, ter seu registro lançado, como agora faz a Deck”, destaca o crítico musical Hugo Suckman. Definitivamente, uma das vantagens da era do streaming na música é a liberdade para lançar títulos que as gravadoras não viam com potencial comercial. Privar o ouvinte deste álbum magistral por tanto tempo só tem um nome: pecado.

A gravação foi feita no histórico, e hoje infelizmente fechado, estúdio Haras, na Lapa, pelo técnico de som Nilo Sérgio – o mesmo estúdio onde seu pai, o velho e célebre produtor e compositor Nilo Sérgio gravou discos antológicos da gravadora Musidisc, de artistas como Ed Lincoln, Orlandivo, Trio Surdina, a orquestra Românticos de Cuba e muitos artistas de samba. João de Aquino acompanha Elza em todas as faixas, às vezes dobrando o violão ou inserindo ele próprio alguma percussão, quando necessário.

“O violão, patrono do som, e Elza com suas interpretações perfeitas fizeram desse registro algo único”, define João de Aquino, com modéstia suspeita. “Foi chegar no estúdio e deixar fluir. Comigo e João sempre foi assim”, reforça a diva que, como ela mesmo costuma repetir, veio do Planeta Fome. “Acho que dá para perceber como estávamos à vontade no estúdio, não é mesmo? Uma alegria o público conhecer esse álbum. Tô empolgada”, comemora a cantora, hoje aos 84 anos.

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