Heavy MetalRock

Entrevista – Carlos Lopes lança novo financiamento coletivo da Dorsal Atlântica

Mesmo com seus integrantes morando em estados diferentes, a Dorsal Atlântica (a primeira banda de heavy metal carioca), segue criando e despertando consciências. Depois do contestador “Canudos” (2018), a banda prepara-se para entrar em estúdio, estúdios aliás, para gravar o novo álbum cujo nome será “Pandemia”. Para viabilizar o novo projeto, cujo nome dispensa maiores explicações, a banda vai lançar a partir de 15 de junho uma campanha de financiamento coletivo através do site Catarse. Se a campanha, prevista para durar dois meses, for bem sucedida, os CDs e LPs de “Pandemia” estarão no mercado em dezembro de 2020.

Em entrevista ao Na Caixa de CD, o vocalista e guitarrista Carlos Lopes antecipa informações sobre o novo álbum, que segue o modelo pioneiro lançado no álbum “2012” de financiamento coletivo, que viabizou a volta da banda naquele ano com sua formação original, que inclui Cláudio Lopes (baixo) e  Rabicó (bateria).  Ainda passa a limpo a trajetória da Dorsal Atlântica e toca num assunto que o incomoda: a escalada conservadora das elites brasileiras que flertam perigosamente o fascismo. “Nem em meus piores pesadelos eu poderia imaginar que chegaríamos a este ponto. Por mais que os sinais indicassem…”, revela sem, no entanto, estranhar o alinhamento de correntes da cena roqueira com esse discurso autoritário e preconceituoso. “Tudo o que se fala hoje, de racista e preconceituoso no ambiente de rock pesado, seja dito por bandas ou escrito em revistas, eu ouvi da boca de muitos participantes da contracultura em todo o país de 1985 a 2015”, reforça.

Testemunha de um tempo em que o heavy metal mo Brasil era algo alternativo, Carlos Lopes reconhece a força do gênero hoje no mercado, mas lamenta que não tenha havido uma evolução estética e que as bandas não tenham estabelecido laços estreitos com a cultura brasileira, seguindo valores atrelados ao Primeiro Mundo. “Por esse ponto de vista, eu diria que o movimento de heavy metal brasileiro fracassou em busca de uma estética independente nativista”, provoca o músico. Veja a entrevista a seguir.

A Dorsal Atlântica tem a politização como marca em sua longa trajetória artística. O que “Pandemia”, o álbum que vocês estão prestes a gravar, traz à tona nestes termos?

Quando gravamos o primeiro disco de heavy metal carioca em 1984, “Ultimatum”, eu já escrevia letras politizadas, mas que precisavam de refinamento, e até mesmo de mais sagacidade, o que veio com o LP “Antes do Fim” em 1986 cujos temas aparentemente versavam sobre o nazismo – mas que se referiam apenas à ditadura militar brasileira.  Escrever nas entrelinhas… Havia adotado o velho e útil método dos compositores brasileiros que burlavam a censura nos anos 1970. Mas, curiosamente, boa parte do público da Dorsal parece nunca ter entendido isso e só se ligava no som, – e também em nossas roupas de palco. A Dorsal, uma de minhas personas, é contestadora com princípios, e sempre foi. Sempre será.

O Brasil daquela época, início da década de 1980, não tem nada a ver com o país de hoje, mas curiosamente tudo o que eu ouvia quando criança contra mulheres, negros, nordestinos e pobres é repetido hoje com orgulho por boa parte da população. Mas como de todo mal vem um bem, isso tornou-me mais consciente de quem somos e quem queremos ser.

E este novo trabalho guarda alguma relação com “Canudos”, o consagrado álbum anterior da banda?

Capa do álbum Canudos (2018)
Capa do álbum Canudos (2018)

Citar o passado e conectá-lo ao presente, nunca torna os trabalhos datados, mas atemporais. Canudos” foi lançado no início de 2018 e comparava o caso do arraial de Canudos no interior da Bahia no final do século XIX, uma espécie de favela comandada por um beato, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O comum entre ambos os casos é o envolvimento das Forças Armadas, seja lavando as mãos, conspirando nos bastidores ou mantendo a “ordem e o progresso” através das armas.

“Pandemia” não será apenas uma continuação ou sequência de “Canudos”, mas um passo adiante, ainda mais musical e brutal. Manterá a nossa tradição de som cru e pesado, mas será fiel às conquistas dos últimos anos, como ter incorporado elementos da música armorial, de terreiro, e sacra. Canto com a voz gutural de sempre, porém cantada e com sotaque – inclusive como homenagem à minha mãe nordestina. Saí de “Canudos” com o apelido carinhoso dado pelo técnico de gravação de Freddie Mercury do Agreste.

Como se deu a concepção deste novo álbum?

“Pandemia” é uma distopia sobre um país desconhecido, sobre o qual nunca ouvimos falar, inspirada em Revolução dos Bichos e 1984 do escritor George Orwell. Em Brazilândia, uma sociedade dividida entre os reis equinos, o povo canino e os símios militares, um jumento é eleito como primeiro-ministro através de um golpe. O eleito infecta a população com o vírus da ignorância e seus fanáticos seguidores destroem terreiros de candomblé e incendeiam laboratórios, faculdades e livrarias em nome do deus Sumé.

Hoje os integrantes da Dorsal Atlântica vivem em estados diferentes, a banda deixou de se apresentar ao vivo. Que reflexos essa nova fase traz para a banda?

Mesmo deixando de se apresentar ao vivo, a inspiração nunca cessa, seja para música, quadrinhos e livros e agora é a hora de a música ver a luz do dia mais uma vez. Não escolho conscientemente quando e por quê um disco pode ser lançado. Ele surge, ele se ejacula em mim, inspirado talvez pelos meus caboclos, talvez pelo inacreditável país em que vivemos. Como os músicos vivem em estados diferentes, gravamos em estúdios separados. A partir de “Canudos” tenho adotado um método de produção que eu gosto de comparar ao Cinema Novo, ou seja, não ensaiar. O que peço aos músicos é que gravem inspirados pelo Deus da música, sem medos e amarras para que o trabalho seja e soe orgânico, verdadeiro, método semelhante ao realismo psicológico e à vivência de emoções autênticas de Stanislavski. Mas acho mesmo que o meu método é mais inspirado em terreiros, creio…

O que os fãs da Dorsal Atlântica podem esperar da sonoridade e das letras de “Pandemia”, como algo novo numa banda que sempre se reinventa?

Carlos Lopes e a Matadeira, a guitarra baiana adaptada usada pela primeira vez em Canudos - Foto: Dani Dread
Carlos Lopes e a Matadeira, a guitarra baiana adaptada usada pela primeira vez em Canudos – Foto: Dani Dread

A minha reinvenção constante, e da banda, é uma postura que tanto causou problemas comerciais à Dorsal como criou uma legião de fãs, de todas as idades, conectados à essa filosofia. Tanto que em 1998 tocamos no festival Monsters of Rock com Slayer, Manowar, Megadeth, e Saxon graças a um abaixo-assinado com 35 mil assinaturas. E tendo isso em mente e consciente desse apoio, dei a cara à tapa ao entrar no financiamento coletivo em 2012.  “Pandemia” será gravado com a Matadeira, a guitarra baiana de 6 cordas que desenhei para Canudos – e confeccionada pelo luthier baiano Fábio Batanj. Tocar com uma guitarra com afinação diferente da “guitarrona” tem me desafiado e me estimulado a voltar a tocar, a sair da toca.

Vivemos um momento especialmente dramático para a classe artística brasileira, desde o poder público até a cena alternativa. É possível vislumbrar algum horizonte?

Sou bastante pessimista em relação ao país e ao momento. Nem em meus piores pesadelos eu poderia imaginar que chegaríamos a este ponto. Por mais que os sinais indicassem… Sempre acreditei no desabrochar de uma consciência coletiva, em uma saída mágica, mas não é assim que a história é feita. Não estamos na Terra-Média… e até lá existe o Sauron!

E, sem apontar culpados, o problema brasileiro é muito mais profundo. Desce à formação do país, nos reconecta  à questões do Brasil colônia, Império, República Velha, Ditadura, mesmo após tantos séculos de história. Compreendi a necessidade de a sombra mostrar o quanto a luz é necessária, não para se impor, mas para equilibrar e conscientizar o mundo que não há sombra sem luz. Percebi, ainda mais, o quanto podemos ser gigantes com Graciliano, Cartola, Glauber e o quanto ainda podemos ser escravagistas, medíocres e hipócritas. E essas mesmas pessoas estão em nossos ambientes de trabalho, círculo de amizades e família. Transcendem etnia, religião, profissão, grau de instrução e idade.

E a cena do metal neste momento? Você vê uma reação ao que temos visto sobre ataques à cultura ou não?

Antigamente, eu estranhava quando lia entrevistas de artistas que diziam não saber o que estava acontecendo na cena e hoje, entendo o por quê. Ajudei muito na formação do movimento mas, conforme amadurecia, percebi o quanto eu não fazia parte da cena como um todo. Minha cabeça e percepção de vida eram diferentes, e sendo assim se distanciaram cada vez mais do lugar-comum e isso fica claro na evolução lírica, e musical através dos discos lançados, inclusive das bandas Usina Le Blond e Mustang. Mas há um lado bom em toda essa história, que é o de ser o independente dos independentes… Ao não ser influenciado pelo externo e nem pelas modas e desmodas do metal e do rock, me preservo artisticamente. Me comunico em linha direta com meu inconsciente e, assim, não me perco de mim. Não sei se me fiz entender, mas é a melhor contribuição que posso dar.

Uma pergunta inevitável: você tem como nos explicar/opinar sobre a contradição artística vivida por roqueiros – e mais especificamente integrantes do metal  – que se identificam com o reacionarismo que tem dominado o país?

Carlos Lopes e a Matadeira, a guitarra baiana adaptada usada pela primeira vez em Canudos - Foto: Dani Dread
Pôster de Carlos Lopes para a revista Tupinambah – Foto: Acervo Pessoal

Tenho lido algumas atrocidades e desumanidades ditas por músicos e bandas, mas não me incomodo porque essa energia não me pertence. Da boca humana sai amor e horror. E na verdade, tudo o que se fala hoje, de racista e preconceituoso no ambiente de rock pesado, seja dito por bandas ou escrito em revistas, eu ouvi da boca de muitos participantes da contracultura em todo o país de 1985 a 2015. Na década de 1980, o vice presidente do partido nazista brasileiro era carioca e produtor de shows de heavy metal. E casado com uma mulher negra! Em uma de suas tardias crises existenciais, ele me chamou para uma conversa pois queria entrar para o espiritismo e eu, mesmo da minha falta de maturidade, lhe disse que não adiantaria nada.

No início dos anos 80, quando a Dorsal despontava aqui no Rio, o metal começava a construir sua legião de seguidores. A cena, como um todo, era considerada alternativa… Pouco tempo depois despontava como tendência. Agora, quase 40 anos depois, é uma realidade. aliás um mercado à parte – dentro do mainstream.

A história segue um rumo, muitas vezes, previsível. E muito humano. O movimento de rock pesado se fortaleceu entre 1984-1985 devido a uma série de fatores: o Brasil estava saindo de uma ditadura (mas sem que os militares largassem o osso), e o Rock in Rio surgiu naquele momento para inserir o país em uma lógica de consumo globalizado e colocar o Brasil no mapa, mas segundo as ordens do Primeiro Mundo, e não conforme nossas demandas. Essse contexto foi enriquecido pelas contribuições do Circo Voador e da Rádio Fluminense, no Rio. Mas foram colaborações momentâneas como Stalin ter se unido a Churchill…

Ainda que seja uma banda cultuada, a Dorsal ainda se mantém fiel àquela lógica dos tempos alternativos, não é?

A banda é uma extensão da minha personalidade e o entorno, vamos colocar dessa forma, não é. Se eu era alternativo antes, continuo sendo assim hoje porque é a melhor forma e a mais viável de minhas criações, que são pouco comerciais, verem a luz do dia. Quando comecei a tocar em 1981 ouvi “Você nunca vai chegar a lugar algum com isso” e em 2012 durante a primeira campanha de financiamento coletivo li e ouvi “Você nunca vai chegar a lugar algum com isso”.

Como foi para você testemunhar essa evolução do metal? Se é que você acredita nessa evolução…

Há sim uma evolução do heavy metal no país, inegável. Mas, por outro lado, não há qualquer evolução estética ou artística há décadas, porque foi estabelecido um nicho de mercado, conservador, muito semelhante ao dos evangélicos. Fora que quase todo metaleiro, ou headbanger como gostam de se denominar, têm horror ao Brasil e à nossa cultura, venerando sem contestação quase tudo o que vem de fora. Por esse ponto de vista, eu diria que o movimento de heavy metal brasileiro fracassou em busca de uma estética independente nativista e a Dorsal Atlântica ganhou o seu lugar na história por nunca ter cedido dessa premissa.

Sabemos da sua condição de multiartista respeitado. Além do novo álbum da Dorsal, quais são as novidades de Carlos Lopes em suas outras áreas de atuação criativa?

Capa da primeira edição da revista de HQ Tupinambah, editada por Carlos Lopes - Foto: Acervo Pessoal
Capa da primeira edição da revista de HQ Tupinambah, editada por Carlos Lopes – Foto: Acervo Pessoal

Meu primeiro sonho foi ser desenhista de quadrinhos. Toda criança sabe, ou aprende a saber, que sonhos se desfazem com a dura realidade. Talento é importante, mas não é tudo. E mesmo, muito querendo ser desenhista, não me esforcei o suficiente. Parei de desenhar ao me encantar pelas guitarras e pelo rock na metade da década de 1970 e retomei os traços somente durante a gravação do CD “2012” (quando passou a ilustrar as capas dos álbuns). Tenho estudado desde então, mas sou autodidata. Hoje, edito uma revista em quadrinhos sobre política e história brasileiras chamada Tupinambah. A primeira edição está esgotada e trabalho na segunda em uma história chamada Estado de Exceção (adivinhem o porquê). E com os quadrinhos, o livro “O Segredo J” sobre teorias conspiratórias políticas, também foi lançado em Portugal.

Agora, uma mensagem para todos os fãs da Dorsal Atlântica:

Agradeço o apoio que recebemos por todos esses anos e peço a todos que acompanhem as novidades tanto da banda quanto da minha carreira como ilustrador e escritor. E isso pode ser feito através do nosso site oficial, das páginas da banda no Facebook ou no Instagram. Nos vemos por lá!

 

 

 

 

 

One thought on “Entrevista – Carlos Lopes lança novo financiamento coletivo da Dorsal Atlântica

Deixe uma resposta