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Esmiuçando a poética de Renato Russo

Renato Russo

Por vários momentos em sua trajetória, Renato Manfredini Jr tentou estabelecer limites que o separassem de seu personagem mais famoso, Renato Russo, o trovador de uma geração e cuja obra reverbera até hoje. As canções da Legião Urbana ainda são cantadas pelas gerações seguintes, confirmando a atemporalidade das criações de Renato que nos deixou há exatos 25 anos completados nesta segunda-feira (11). Mas no âmbito da música popular sempre há se discute o ponto que separara letristas de poetas. Sabemos que Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Aldir Blanc são letristas com status de poetas. Renato Russo seria um deles?

Foi justamente esse o questionamento que inspirou a pesquisadora brasiliense Julliany Mucury em seu livro “Renato, o Russo” (Garota FM Books). Viabilizada através de financiamento coletivo do qual ainda é possível participar, a obra traz uma abordagem inédita na saga de um dos maiores cancionistas da história da música brasileira, desvendando as múltiplas qualidades e significados que formaram as personalidades do jovem Renato Manfredini Jr. e do artista Renato Russo.

A autora é mestre e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do sujeito contemporâneo. Foram dez anos de pesquisas, coletas de dados e análises da obra do vocalista da Legião Urbana que resultaram em sua tese de doutorado intitulada “Renato Russo: um eu em colisão consigo mesmo”, que acabou sendo a gênese do livro.

Julliany esmiuça significado e legado da escrita de Russo e sua contribuição para a cultura e o pensamento de um país que engatinhava em seu processo de redemocratização, deixando para trás uma ditadura militar decadente e desgastada.

“Renato, o Russo” traz inicialmente relatos biográficos do artista, já conhecidos do grande público, com ênfase na efervescência musical de Brasília. Mas logo envereda outras trilhas ao propor análises semânticas das canções de Renato, alinhando-as a contextos histórico-musicais-poéticos.

Julliany Mucury
Julliany Mucury realizou cerca de pesquisas sobre Renato Russo – Foto: Tainá Frota

Inspirada pelo termo “cancionista”, usado pelo músico e linguista Luiz Tatit em um de seus livros, Julliany Mucury assegura que Renato Russo foi muito mais do que um poeta e que sua obra merece estar no olimpo da música brasileira. “O Renato Manfredini Jr. escreve para nós. E o que ele quer nos dizer? Fui em busca de 29 letras de autoria exclusiva dele, algumas delas descobertas há pouco tempo, e que dizem muito. Dá para traçar um grande legado poético”, destaca a autora.

As canções representaram uma parte fundamental na vida de Manfredini Jr. e o ajudaram a compreender melhor o seu lugar no mundo, liberando um lado seu que até então era reprimido. Por isso, as músicas de Renato o acompanharam em suas transformações, falando de questões típicas de sua geração e das mudanças individuais na vida do poeta, atravessando a própria Legião Urbana a partir da década de 1990. É no contexto dessa trajetória que o artista, morto precocemente aos 36 anos, se expressa sempre com veemência do tom revoltoso e panfletário desde os tempos de sua primeira banda, o Aborto Elétrico, até desaguar num lirismo quase messiânico de quem já ensaiava a retirada de cena em função de sua condição (jamais assumida em vida) de soropositivo (Renato morreria, vítima da Aids em 1996, encerrando um longo ciclo de reclusão voluntária).

“O livro é um presente aos fãs de Renato e também uma oportunidade para que novas gerações de amantes da música brasileira possam conhecer o seu legado”, defende Julliany.

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