Música de Concerto

Francisco Mignone – 35 anos sem o maestro

Há 35 anos o Brasil perdia um de seus mais geniais compositores: Francisco Mignone. O precioso legado do maestro engloba mais de mil composições entre ópera, bailados, músicas instrumentais e até trilhas para filmes. Parte de sua incrível trajetória está na exposição virtual que o Theatro Municipal do Rio acaba de lançar.

Paulista, filho de imigrantes italianos, estudou música desde a infância, graças às lições de seu pai, o flautista Alferio Mignone. Completou os estudos no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde se formou em flauta, piano e composição, seguindo, posteriormente, para estudar Composição em Milão, no Conservatório Giuseppe Verdi.

Programa da montagem de ‘O Contratador de Diamantes’ (20/9/1924) – Fotos: Acervo CEDOC/TMRJ

Foi lá que compôs sua primeira ópera, “O Contratador de Diamantes”, em três atos, com libreto de Girolamo Bottonio, que estreou em 20 de setembro de 1924 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com o elenco da Companhia Lírica Italiana e a coreografia de Maria Olenewa no quadro Congada, parte em que os escravos dançavam no adro da Igreja do Arraial do Tejuco. A execução do bailado ficou por conta de passistas que Donga, a pedido de Tia Ciata, recrutou para o espetáculo.

A vasta e rica obra de Mignone, o fez reconhecido por dois ícones da música do século XX: Richard Strauss e Arturo Toscanini. Strauss, em sua segunda temporada no Municipal, em 1923, regeu duas composições de Mignone –  Dança e Minueto -, à frente da Filarmônica de Viena e Toscanini, em 1940, regendo a NBA (National Broadcasting Company), executou Congada no palco do Theatro Municipal.

Ensaio do Elenco de O Sargento de Milícias, com os maestros Tavares e Cellario, à dir., Gianni Ratto, à esq., e Mignone, em pé, à direita (1978) – Foto: Acervo CEDOC/TMRJ

As composições de Francisco Mignone refletem os ritmos da diversidade brasileira, como em “Maracatu de Chico-Rei” (bailado considerado a sua obra-prima),  “O Espantalho”, “Leilão”, “Quadros Amazônicos”, “Hino à Beleza”, “Iara”, “Quincas Berro D’Água” e das histórias musicadas do cotidiano do país, como é o caso das óperas  “O Contratador de Diamantes”, “O Chalaça” e “O Sargento de Milícias”.

Trabalhador incansável, Mignone compôs mesmo depois de doente, deixando algumas composições inacabadas. Ainda em vida, recebeu vários prêmios, como o Shell, em 1982, pelo conjunto da obra. No palco do Municipal, estreou várias obras, ao longo de quase 60 anos. Ele atuou ativamente como membro da Comissão Artística do Theatro Municipal por dois mandatos, contribuindo para o alto nível dos espetáculos da casa entre 1948 e 1958.

Vale muito a pena conhecer um pouco mais sobre a obra e personalidade deste grande artista no documentário “Lição de Piano” (1978). com direção de João Carlos Horta e argumento de Luiz Paulo Horta. Num país que cultiva pouco a memória musical, sobretudo da música de concerto aqui produzida, Mignone era o que se podia considerar um gênio anônimo. Bem humorado, totalmente ambientado ao estilo carioca de vida, costumava brincar que era mais fácil as pessoas o reconhecerem das arquibancadas do Maracanã, onde batia ponto em jogos do Fluminense, do que por sua música. Assistam:

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