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Itamar Assumpção ganha museu virtual

Itamar Assumpção

Na sociedade de consumo é comum valorar as pessoas pelo que possuem e não necessariamente pelo que são ou podem fazer. Posicionar-se ativamente contra essa visão do mundo pode nos rotular como desajustados, rebeldes ou marginais. A música brasileira os deu alguns desses rebeldes e um dos mais significativos – embora não seja o mais lembrado – foi Itamar Assumpção (1949-2003). Neste Dia da Consciência Negra (20/11), o cantor, compositor, escritor, instrumentista, ator, produtor, artista tem seu imenso legado reunido num museu virtual com sua obra, vida e trajetória.

Itamar Assumpção, um dos principais nomes da chama Vanguarda Paulista _ Foto: Reprodução
Itamar Assumpção, um dos principais nomes da chama Vanguarda Paulista – Foto: Reprodução

O irriquieto Itamar foi um dos principais nomes da música independente nos anos 1980 e 1990 e de um movimento conhecido como Vanguarda Paulista – ao lado de Arrigo Barnabé, dos grupos Premeditando o Breque, Rumo, Língua de Trapo, Patife Band e Pracianos -, que até hoje influencia novos artistas não apenas musicalmente mas na forma de expressão e, principalmente, na forma de conciliar arte e mercado – ou romper com essa dicotomia.

Para um museu virtual, lançado em tempos pandêmicos, será realizado um show ao vivo e transmitido online e gratuitamente. Anelis Assumpção, filha do artista, prepara uma apresentação especial. A direção do show ficará por conta de Ava Rocha, filha do também maldito Glauber Rocha. “Itamar é um corpo vivo que habita o sangue de muitos e muitos. Cada gota, cada rio, é Itamar cantando nas montanhas e ruas. Nos alicerces de todos. De uma África de onde tudo nasceu, tudo parte e se repartiu. É a travessia. A luta. O amor. A construção. A saudade. A separação. A dor. A beleza. A resistência. A invenção. O parto. A luz. A África. O Brasil. E por fim, o mundo”, destaca Ava.

Contemplado pelo Edital Petrobras Cultural em 2018, o Museu Itamar Assumpção (MU.ITA) começa totalmente virtual com uma exposição permanente sobre Itamar, a partir de um acervo com mais de 2 mil itens, além de exposições de curta duração que contemplam artistas contemporâneos cuja linguagem tenha convergência com o artista. No espaço chamado Sala Serena, dedicado à memória de uma de sua filhas, a temática passa pela referência a artistas que produziram obras que remetem às religiões de matriz africana. O artista plástico Dalton Paula fará a primeira exposição de curta duração.

A curadoria do MUI.ITA será coletiva, reunindo Anelis, Frederico Teixeira, Rosa Couto e Ana Maria Gonçalves – autora do livro “Um Defeito de Cor”. “O museu fará um passeio pela memória preta de um dos maiores artistas do Brasil, intervencionada com outras memórias pretas da diáspora”, destaca Anelis, acrescentando que, além de tornar-se a principal fonte de pesquisa sobre o pai, o museu virtual abrigará um vasto acervo com fotos, vídeos, músicas, textos, figurinos e acessórios originais, histórias, teses acadêmicas sobre sua obra, depoimentos e apresentações. Veja aqui sua participação com as filhas Serena e Anelis numa particpação no programa Ensaio, da TV Cultura, em 1999, interpretando a emblemática “Nego Dito” ou melhor, Benedito João dos Santos Silva Beleléu, seu alter ego:

Aqui ele interpreta no mesmo programa sua autoral “Pretobrás” e uma releitura de “Vai Cuidar de Sua Vida”, de Geraldo Filme, um dos grandes do samba paulistano, e fala também da preocupação com o legado e sua vocação de artista independente:

O Museu Itamar será o primeiro do Brasil com tradução em Iorubá, aproximando a obra e vida do Itamar de sua ancestralidade africana, além de abrir essa possibilidade de diálogo com os povos africanos. Além da língua-mãe das comunidades da Nigéria e do Congo, o conteúdo do museu também terá versões em alemão e inglês. “A notícia sobre o Museu Virtual Itamar Assumpção é, sem dúvida, uma das coisas mais belas a acontecer nesses tempos. E a ideia das traduções em Iorubá é fundamental e potente”, acentua o músico e pesquisador Tiganá Santana.

A valiosa obra de Itamar Assumpção

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O cameleônico Itamar – Foto: Reprodução

Com seu estilo único em que unia poesia, recitações, trocadilhos e construções melódicas que iam exibiam complexas complexidade e erudição ora absurdamente simples beirando a punk, Itamar Assumpção produziu uma obra valiosa: mais de 300 músicas, nove álbuns lançados em vida, centenas de poemas, além de um legado de imagem que deixou marcas nas gerações seguintes: os óculos de design exótico, as performances teatrais e a postura independente – uma vertente do que hoje poderia ser chamado de afrofuturismo. Na discografia, vale recomendar o álbum “Beleléu, Leléu, Eu” (1981), seu trabalho de estreia e acompanhado pela banda Isca de Polícia, que marca o lançamento do selo Lira Paulistana que concentrou boa parte dos artistas da Vanguarda Paulista. Ou a trilogia formada pelos três volumes de “Bicho de Sete Cabeças”, lançados em 1993 pela Baratos Afins.

Trabalhou em parceria com vários artistas. Convergiu com Alice Ruiz, Paulo Leminski, Arrigo Barnabé, Rita Lee e Jards Macalé, entre outros. Suas canções chegaram ao público nas vozes de Ná Ozzetti, Tetê Espíndola, Mônica Salmaso, Chico César, Ney Matogrosso e Cássia Eller, primeira artista do pop-rock a gravá-lo em seu CD de estreia. Ouça aqui “Sonhei Que Viaja Com Você”:

Uma de suas mais entusiasmadas intépretes, Zélia Duncan gravou de Itamar um total de 23 músicas do compositor nascido na cidade de Tietê. Dedicou a Itamar um álbum inteiro, “Tudo Esclarecido” (2012). “O contato com sua obra foi um choque irreversível na minha vida de ouvinte da música brasileira. Aquela rapidez de ideias, aqueles rirmos silábicos, aquela voz que me empurrava e me acolhia. Itamar tem uma obra rica, imensa… ainda pode ser descoberta no sentido mais profundo, no sentido popular. Da poderosa Vanguarda Paulista, arrisco dizer que ele é o representante que tem mais potencial para atingir a massa. E, pessoalmente, já tive o prazer de ouvir muitas plateias cantando comigo suas canções”, disse Zélia, em 2019, em depoimento ao site da União Brasileira de Compositores (UBC), ano em que se celebrou os 70 anos de nascimento de Itamar Assumpção.  Vejam aqui Zélia cantando “Na Tua Boca” num dos shows da turnê de lançamento de “Tudo Esclarecido” no Teatro Sesc Pinheiros em 13/1/2013:

Depois de sua morte, em 2003, aos 54 anos, ainda seriam lançados três álbuns póstumos, um livro de textos e poemas inéditos, dois songbooks e o documentário “Daquele Instante em Diante” e a Caixa Preta, com toda a sua discografia remasterizada num trabalho de excelência do selo Sesc. Recentemente, sua obra foi integralmente disponibilizada nas plataformas digitais, evitando que sua inventiva música se perca.

“Você vai notar, olhando ao redor, que sou dos males o menor” (Itamar Assumpção)

E Anelis, fiel guardiã do legado do genial compositor, conta que ainda existe material inédito: “Itamar deixou alguns livros infantis escritos e gravações nunca divulgadas”, revela a filha, que iniciou carreira cantando com pai em 1997 e o acompanhou até sua morte.

Uma das grandes frustrações de Itamar em vida era constatar que sua obra – tão enaltecida pela crítica e pela intelectualidade – era desconhecida do restante da população, principalmente dos irmãos de cor. No entanto, se ouvidos hoje, seus poemas com frases curtas, seu ritmo e as mais variadas misturas musicais podem soar terrivelmente familiares às novas gerações, que adotaram a fala cantada.

Transitando numa esquina torta em o samba de breque pode tranquilamente descambar no regage, no rok e chegar ao rap, Itamar incorporou e associou tantos gêneros distintos entre si que sua música segue inqualificável, única e impermeável a rótulos.

Mas uma coisa era certa para o artista. Sua autoafirmação e consciência de ser herdeiro das tradições afro-brasileiras, algo vivido desde a infância nos cultos religiosos e pontuadas pelas frequentes incursões musicais pelo samba, seja para cultuá-lo em seu formato tradicional seja para ressignificá-lo. Seu álbum em homenagem a Ataulfo Alves, “Ataulfo Alves por Itamar Assumpção – Pra Sempre Agora” (1996), é uma prova disso.

Não tinha fama de maldito e transgressor por acaso. Mas, na verdade, foi pioneiro, arriscando-se, buscando limites ou, na verdade, comprovando que eles não existem dentro do reino criativo.

 

SERVIÇO
www.itamarassumpcao.com.br

Museu Virtual Itamar Assumpção: pesquisa, catalogação e acesso gratuito ao acervo de Itamar Assumpção.
Show de lançamento: Anelis Assumpção canta Itamar, com direção de Ava Rocha.
Acesso: gratuito, pela internet no link do MU.ITA a partir das 21h no dia 20/11/20

 

Foto em destaque: Vania Toledo

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