JazzMPBreggaeRockRock Brasil

Jards e Totonho, assinaturas inconfundíveis

Em pleno purgatório da beleza e do caos, honrando os grandes versos de Fausto Fawcett, o Rio recebeu na semana passada dois dos melhores shows brasileiros desde 2018, a preços populares.

Na terça-feira (25), Jards Macalé apresentou o excelente “Besta Fera” no Teatro Sesc Ginástico, incrivelmente não lotado, mas já com outras apresentações na praça carioca. Com seu primeiro álbum de inéditas em 20 anos, Jards deitou e rolou com sua banda afiadíssima, onde se destaca a guitarra lancinante de Guilherme Held. “Besta”, gravado com a nova geração da música paulistana (Tom Bernardes, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes etc), é mais uma estrela dourada na carreira do artista, aliando o seu estilo inconfundível a temas de destruição e caos, mas de alguma maneira oferecendo um caminho para o futuro. O peso dos instrumentos e a força das letras é temperado pelo violão e vocais marcantes de Macalé. Além das novas faixas de “Besta Fera”(lançado pelo selo Natura Musical), JM também tocou alguns clássicos como Gotham City, onde pediu vaias da plateia mas foi modestamente atendido. Um showzaço com rock, pop, MPB, samba de raiz e o estilo inconfundível do eterno diretor musical de “Transa”, provavelmente o melhor álbum da carreira de Caetano Veloso.

Totonho e suas misturas refinadas

Na quarta, no Audio Rebel – palácio do underground carioca – foi a vez de Totonho e os Cabra lançarem em terras cariocas o álbum “Samba Luzia Gorda”, uma homenagem à própria mãe de Totonho. Depois de dois excelentes álbuns lançados pela saudosa gravadora Trama, mais um EP em 2016, Totonho voltou a mostrar um trabalho completo, lançado pelo selo paulistano YB Music. Nele, Totonho volta com a refinada mistura de sempre, com reggae, pop, indie e ritmos nordestinos, apresentando convidados como Rodrigo Campos (também presente no “Besta Fera” de Jards Macalé), Otto, Rica Amabis, Manoel e Felipe Cordeiro mais André Abujamra e outros, além de uma homenagem na contracapa a Marielle Franco. Das faixas do novo álbum, destaque para “Tem mais igreja do que supermercado”, politicamente certeira e melodicamente candidata a hit. A modesta – mas vibrante – plateia do Audio Rebel cantou a apresentação de ponta a ponta.

Separados por uma geração, Jards Macalé e Totonho trilham caminhos distintos mas que se assemelham na luta contra o comodismo, na crítica contundente, no bom humor e na experimentação. Nestes tempos difíceis, ouvi-los é um bálsamo contra o Febeapá que insiste em nos constranger. São duas assinaturas musicais únicas, precisas, inconfundíveis.

PS: à saída dos dois shows, o público comprou CDs dos artistas com muita empolgação. A velha bolachinha ainda tem seus fãs.

Deixe uma resposta