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João Bosco e os brasis que existem num abricó-de-macaco

João Bosco 2019 @marcoshermes-65 (2)
Capa do CD 'Abricó-de-Macaco' - Foto: Divulgação
Capa do CD ‘Abricó-de-Macaco’ – Foto: Divulgação

Ainda enlutado com a perda do grande parceiro Aldir Blanc, João Bosco lança sexta-feira (15) nas plataformas digitais o CD/DVD “Abricó-de-Macaco” (Som Livre). O lançamento original, que seria em abril, chegou a ser postergado em face da doença de Aldir. Mas como o próprio cantor e compositor declarou diante da morte do amigo sua missão daqui para frente e cantar mais e mais as grandes canções da dupla. E três delas ganham sensacionais releituras de João que, reafirma tanto seu virtuosismo ao violão quanto suas clássicas divisões melódicas no cantar. O mineiro de Ponte Nova nos presenteia com uma obra-prima para se ouvir.

Além da escolta sempre preciosa de Aldir, João Bosco cerca-se de outras parcerias como as de Antônio Cícero, Waly Salomão, Chico Buarque, Caetano Veloso, Belchior, Paulo Emílio e o filho Francisco Bosco, com quem divide as duas músicas inéditas do trabalho, a faixa-título e “Horda”. E há interpretações de composições de terceiros que poderiam tranquilamente ser assinadas também pelo artista que faz de suas releituras uma obra à parte. Basta ouvir a quebra rítmica que ele executa na clássica “Água de Beber” (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), vertida num afrossamba, ou em “My Favorite Things (Richard Rodgers / Oscar Hammerstein II).

Assim como outro João, o Gilberto, o Bosco pensa a música a partir de seu violão e nele pode caber uma regional de choro, uma orquestra e mesmo uma escola de samba. É um artista singular desde sua estreia fonográfica ao surgir, em 1972, no lado B de um compacto do saudoso jornal Pasquim com “Agnus Sei” (sua primeira parceria com Aldir), que você relembra aqui:

Voltando a esta obra-prima, cuja versão em DVD foi exibida em estreia pelo Canal Brasil, “Abricó-de-Macaco” recebeu este nome a partir de uma alegoria sugerida por João e o filho. O estranho fruto fechado, de casca dura, em forma de esfera; cujas árvores se enchem de belíssimas flores. Esta é para a família Bosco uma citação ao Brasil mergulhado em obscurantismos e luminosidades, os eternos contrastes que acompanham o senso de brasilidade “desde o firmamento ao chão”, como canta João. Veja aqui o clipe da canção:

E nesse fio condutor passeia pela rica fauna que constitui sua vasta formação musical, do samba de terreiro ao forro do pé-de-serra incluindo fraseados jazzísticos. Um tesouro cultural que eleva a voz das nossas periferias, do Brasil lírico e também do Brasil malandro. Essa malandragem é deliciosamente lembrada na versão bluesy que João nos entrega de mão beijada em “Profissionalismo É Isso Aí”, um samba com o DNA da estética de Aldir Blanc.

Por isso tudo não é aleatório o encontro entre Os Tincoãs, de Mateus Aleluia e Dadinho, com Dorival Caymmi e Silas de Oliveira, na junção de “Cordeiro de Nanã” e “Nação” (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio). Ou as menções ao jongo de Aniceto do Império, à ancestralidade da Rainha Quelé (Clementina de Jesus), aos choros de Pixinguinha e Paulinho da Viola, aos sambas de Donga, Candeia e Sinhô, às macumbas de João da Baiana – todos presentes na magistral releitura de “Cabeça de Nego”. ricamente adornada pelo sax da israelense Anat Cohen, que veio dos Estados Unidos para participar da gravação. João conta que conheceu a instrumentista durante um festival de jazz realizado no Brasil.

João Bosco, banda e convidados especiais. O mestre ensina e também aprende - Fotos: Marcos Hermes
João Bosco, banda e convidados especiais. O mestre ensina e também aprende – Fotos: Marcos Hermes

No Brasil com o qual João sonha faz tempo existem pontes, elos musicais sólidos e para isso ele reúne no álbum uma de instrumentistas do naipe de Kiko Freitas (bateria), Ricardo Silveira (guitarra) e Guto Wirtti (baixo), que se somam à s participações especiais dos sopros de Cohen, do acordeom de Marcelo Caldi e das sete cordas de Marcello Gonçalves. Intérpretes da nova geração, Moyseis Marques, João Cavalcanti, Alfredo Del Penho e Pedro Miranda dividem os vocais com nas festeiras “Forró em Limoeiro” (Edgar Ferreira) e “Pagodspell” (João Bosco / Caetano Veloso / Chico Buarque), desta vez a ponte liga o subúrbio carioca ao sertão do Cariri. A aproximação de João Bosco com os jovens artistas se deu no ano passado quando ele fez uma participação num show-tributo que os quatro prestaram em agosto do ano passado para celebrar o centenário de Jackson do Pandeiro, no Circo Voador.

João Bosco sempre soube se reinventar sozinho, mas marca gol de placa quando junta-se a novos talentos. Mestres ensinam, mas também sabem aprender, pois daí vem sua fonte de sabedoria. Abaixo, assista e ouça a fantástica performance de João Bosco, banda e convidados meste que já é sério candidato a melhor disco do ano. Não vai se arrepender:

E aqui temos uma versão do álbum com comentários do artista. João Bosco fala da concepção do trabalho, dos músicos que o acompanham e comenta, faixa a faixa, este incrível trabalho:

 

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