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Julie Wein – É preciso escutar a voz da ciência (e que voz!)

Julie Wein 3@Helena Coope
Capa do álbum "Infinitos Encontros", de Julie Wein - Foto: Divulgação
Capa do álbum “Infinitos Encontros”, de Julie Wein – Foto: Divulgação

Em tempos de obscuridade mental, mais do que nunca, é preciso escutar a voz da ciência. O que não imaginava é que ela pudesse transportar nosso interior para outras dimensões físicas. Ou não. Poderíamos discorrer aqui sobre os aspectos válidos do conhecimento científico e seu eterno contraponto com princípios da religiosidade, mas o nariz de cera acima é para discorrer sobre o provável nascimento de uma estrela. Mas o post de hoje não mudou para os domínios das astronomia ou da astrofísica (ah, a Terra não é plana, ok amiguinhxs?). Quero falar de “Infinitos Encontros”, álbum de estreia da cantora e compositora paranaense Julie Wein que acaba de chegar às plataformas digitais pelas mãos da Biscoito Fino.

Nascida em Curitiba com o sobrenome Weingartner (algo como o jardineiro do vinho, ou seja um vinhateiro), Julie é filha de pai violoncelista e mãe coreógrafa. Não tinha como não ser artista, mas graduou-se em neurociências e doutorou-se pela UFRJ. Atua na área de neuroimagem, com ênfase em neurociência computacional das emoções e da música. Desde 2015, concilia suas pesquisas com a carreira de cantora. E aqui chegamos ao momento em que arte e ciência começam a dialogar. Não sei dizer em que ponto a música influencia suas linhas de pesquisa e vice-versa, mas podemos dizer que Julie é séria candidata a artista revelação no ano em que a Terra quase parou por conta de um microorganismo.
O projeto autoral da cantora e compositora faz jus ao nome “Infinitos Encontros”. O trabalho promoveu reuniões moráveis em estúdio, a começar pela participação especial de Ed Motta e de músicos como Marcelo Caldi (acordeon), Marco Lobo (percussão), Pedro Franco (bandolim) e Jorge Helder (baixo acústico), com apuradíssima produção musical do violonista Victor Ribeiro com quem ela dividiu a escolha dos músicos e convidados. “Foi um diálogo entre nós dois para escolher essa cartela dos músicos e eu fiquei muito feliz com o resultado”, relata a astista, que executa o piano e ainda teve o pai, Romildo Weingartner, no violoncelo e a madrasta Juliane no violino, ambos músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná de onde. Acrescido de mais um violino (Márcio Rodrigues) e uma viola (Carlos Tavares) da mesma orquestra, o naipe de cordas foi gravado em Curitiba.
Gravar acompanhada pelo pai foi, para ela, a realização de um sonho antigo. “A partir do momento que decidi ser cantora sempre passou pela minha cabeça ter meu pai no projeto”, lembra Julie.

O encontro com Ed Motta

Mas como os encontros parecem ser infinitos, Julie Wein teve “a grande alegria de receber a participação do mestre Ed Motta, amigo e músico incrível, com um trabalho tão importante para nossa música”. Mas a ideia de chamar o cantor para gravar partiu de sua mãe, a coreógrafa Rocio Infante, amigo do casal Ed e Edna. “Minha mãe levou a Edna uma vez lá em casa. Lembro que toquei algumas músicas autorais e ela gostou. tanto que gravou no telefone e enviou ao Ed. Ele também gostou a passou me seguir no Instagram e começou a amizade, mas a ideia de chamá-lo para gravar foi da minha mãe, pois acho que eu não teria coragem”, admite. Como coração de mãe costuma ter boa intuição, Ed topou o convite.
Logo em seu primeiro álbum, Julie revela-se não somente boa letrista como melodista. Seus temas ganharam arranjos de rara delicadeza que criam uma atmosfera musical daquelas que se desmancham no ar soltando notas confortantes e que flertam com valsas, tangos e boleros. As músicas de “Infinitos Encontros” são da safra recente da compositora que assina sozinha três das oito faixas (“Trânsito de Marte”, “Valsa em Sim” e “Tentei Disso e Tudo Mais”, esta última lançada anteriormente em single). Nas demais, estabeleceu parcerias interessantes com M. Vieira (pseudônimo de Rocio Infante) em “Beijos da Noite”, “Poemas de Ti” e “Beiral da Porta” – outro single que antecedeu o álbum. Com Viviane Burger escreveu “Ítaca” e com Mariana Ferrão “Mar Demais”. Com as parcerias de Julie são 100% femininas, o álbum tem a sensibilidade à flor da pele, mas transcende, pois nem a poesia nem a música têm gênero específico.

‘Filhas de um mesmo momento’

O repertório foi integralmente composto entre março e setembro de 2018. “Cada qual traz uma história específica e uma inspiração diferente, que adoro contar nos shows. Considero todas filhas de um mesmo momento da minha vida, por isso resolvi juntá-las no álbum”, conta. Os encontros e desencontros evocados no álbum podem ser resumidos nos versos de “Trânsito em Marte”, que abre o trabalho: “Quem sabe / O nosso amor existe só / No tempo em que a Terra encobre a Lua / Quem sabe / Ele exista em outra dimensão / E aqui a gente não consegue ver”. Além de uma poética sensível, esta faixa traz à luz uma melodista madura. Sua interpretação seja ao piano ou na voz tem sílabas bem delineadas que se intercalam ao vazio, uma breve silêncio que nos chama a refletir.
Outro arranjo riquíssimo em detalhes é o de “Valsa em Sim” a bela voz de Julie (que passou por corais) estabelece um duo com com o acordeon de Marcelo Caldi, que é, sem dúvida, uma das grandes aquisições musicais em “Infinitos Encontros”. A letra desta faixa fala de sentimentos não assumidos: “Pode me chamar de amor / Qual é o mal de amar assim? / Sonha comigo / E mesmo que não acorde / Ao meu lado jamais / Não se culpe por amar demais”.
E o desejo que não se realiza e se desfaz na noite é cantado, desta vez num duo de vozes, por Julie e Ed Motta em “Beijos da Noite” (“Como sair assim naquela rua escura / Cair no beijo da noite e dormir sem mim / Olhar na varanda / O olhar da lua nua / Sempre uma rima crua / Como fugir de mim”), um drama noir que entra naquela atmosfera sombria das paixões mal resolvidas de um samba-canção. Ouça aqui o álbum completo.

Tradição romântica

Falando em samba-canção, esta veia romântica que as canções de Julie Wein despertam arrancou elogios do maestro e compositor Edino Krieger, “Julie Wein segue a melhor tradição da música romântica brasileira. Tenho a impressão de que estamos assistindo ao nascimento de uma nova Dolores Duran. Eu espero que, em breve, ela esteja representando o melhor de nossa música popular aqui e no mundo.”
Julie Wein assina todas as faixas do álbum - Fotos: Helena Cooper
Julie Wein assina todas as faixas do álbum – Fotos: Helena Cooper

“Escrevo sobre experiências pessoais, amores perdidos e achados, tristezas e alegrias, momentos dolorosos e engraçados. Eu vejo a música como um caminho para curar feridas e trazer paz aos nossos corações. Para confortar as pessoas e tornar o mundo um lugar melhor. Também me inspiro na minha conexão com a natureza, nos mistérios do universo e nas melodias e harmonias que ouvi desde a infância”, conclui Julie Wein, convidando a todos para um mergulho profundo em seus infinitos encontros.

Falando sobre a influência musical em sua vida, Julie nos diz que canta desde pequena. “Fiz musicalização na primeira infância, integrei diversos corais e tive aulas de piano na infância e adolescência. O primeiro desejo que me lembro era de ser guitarrista de rock (era fã assumida dos Rolling Stones). Todos os domingos eu assistia meu pai tocando no concerto da Sinfônica do Paraná, então a música clássica também teve um papel importante na minha educação musical. O mundo artístico era basicamente o que eu conhecia como referência”.
Mas o início da carreira profissional como cantora solo foi em 2015, quando estuando no Rio, estreou nos palcos com um show no TribOz, acompanhada do violonista Pedro Franco.

Ouvindo a voz da ciência

Ainda bem que essa neurocientista não deixou a música totalmente de lado e, aos 28 anos, consuma algo que estava escrito nas estrelas que ela tanto admira (é uma leitora inveterada de astronomia e debate com entusiasmo as relações espaço e tempo dos mais variados corpos celestes).

Em tempos de quarentena e isolamento social, Julie ressalta que um dos poderes terapêuticos da música é nos transportar para um outros ambientes, sensação explicada cientificamente, já que a música é capaz de alterar a percepção do nosso cérebro sobre nossas emoções e a realidade. Dentro do momento atual, após seguir as orientações de higienização, a dica que ela dá é ouvir uma playlist, de preferência criada pela própria pessoa, com suas músicas favoritas, aquelas que normalmente evocam boas memórias ou simplesmente músicas que proporcionem um efeito relaxante. “Impactos observados em diversos estudos mostram que, além de propiciar hormônios do prazer, a música pode atuar de forma benéfica sobre a pressão sanguínea, batimento cardíaco e outros hormônios”, destaca a voz da ciência, mas que canta tão bem.

 

11 thoughts on “Julie Wein – É preciso escutar a voz da ciência (e que voz!)

  1. JULIE é artista completa, é de nos dar orgulho. Já a conhecia pessoalmente. Pessoa querida. Fui assistir Julie no Beco das Garrafas, ao ouvir a primeira nota, fiquei encantada e feliz diante de enorme talento musical! Sou fã da Julie Wein.

      1. Julie é uma cantora incrível. Sou suspeito pra falar. Tenho o privilégio de conhece-la pessoalmente. Maravilhoso CD. Maravilhosa pessoa.

    1. Maria Angela, que alegria ver você por aqui. Eu lembro do dia em que você foi me assistir. Fiquei muito feliz em receber sua presença na plateia. Espero que ainda tenhamos muitas oportunidades de nos encontrar pelo mundo da música. Adoraria te ver no show de lançamento do meu disco (que farei após a pandemia). Beijo grande e obrigada pelo carinho de sempre!

  2. Parabéns Julie!!!!!
    Herdeira do belo DNA artístico da família.
    E que continue nos brindando com seu talento.
    Parabéns!!!!!!

  3. A doçura da voz, melodias e letras da Julie são encantadora. Pessoa maravilhosa, de coração e alma altivos. Escutar a voz e as músicas dela é como olhar para uma parte do planeta, o céu, o mar, florestas, e contemplar. Lindo trabalho, linda descrição da Julie nessa reportagem. Parabéns !

  4. ‘Beijos da Noite’. Linda canção, linda poesia e me lembrou um duo entre Elis e Tom Jobim. Vou conferir as outras faixas à noite.

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