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Maria Bethânia e a live das lives

Maria Bethânia live

 

Num sábado de carnaval sem carnaval o Brasil chorou suas dores e mazelas. Em meio ao caos generalizado, incompetência e negacionismo, há coisas que que nos devolvem o orgulho de ser brasileiro e de carregar uma herança cultural de valor incalculável e uma delas é ouvir Maria Bethânia. A maior cantora viva da MPB relutou muito em aderir à onda das lives, mas o fez neste sábado (13), em transmissão pela Globoplay, com o mesmo profissionalismo que marca suas apresentações ao vivo. Você já assistiu essa performance da Bethânia, nego? Então vá!

Aos 74 anos, Maria Bethânia Viana Teles Veloso faz um Brasil inteiro emergir de sua voz. Não há nada que ela não possa cantar e nenhuma canção volta a ser a mesma depois que recebe o carimbo, a chancela, o DNA desta bainaa de Santo Amaro da Purificação. Purificados, aliás, ficamos nós com o somatório de cada palavra cantada ou recitada por Bethânia. Agradeceu a todos que confiam no seu canto. Não precisava. O Brasil é que precisa agradecer a tua presença. E quem não consegue perceber isso precisa rever muitos conceitos.

Em entrevistas que antecederam a tão esperada live, Bethânia afirmou que havia assistido várias para saber como se dirigir a uma plateia tão grande e, ao mesmo tempo, de um silêncio tão ruidoso. Ter uma artista de sua grandeza a performar num palco sem o retorno imediato do público beira o pecado e Bethânia nos redime com uma apresentação meticulosa, impecável. Beirando a perfeição, beijando o céu. Pois não existe Maria Bethânia sem entrega no palco.

Não fosse a pandemia, o desalento de milhões de brasileiros, seu show seria dominado por canções do álbum que vem por aí. “Noturno”, mas Bethânia precisou mergulhar no passado, vasculhar um baú que não é só seu, mas de todos nós. A escolha de um 13 de fevereiro não foi aleatória, pois a a artista é plena em simbologias e significados. Foi em outro de 13 de fevereiro, o de 1965, que ela estrearia no musical “Opinião”, um dos mais contundentes manifestos artísticos produzidos durante a ditadura militar (1964-1989). Bethânia ocuparia o lugar de Nara Leão no espetáculo, a convite de Nara. nada foi o mesmo desde então. E 56 anos depois extraiu trechos recitados que soam assustadoramente atuais. Outro 13 de fevereiro, desta vez o de 2016, foi o dia em que a nossa Abelha Rainha reinou absoluta em vestes verde e rosas no enredo que arrebataria o Carnaval daquela, “Menina dos Olhos de Oyá”…

Abrindo a noite, uma versão à capella para “Explode Coração”, aquela mesma de Gonzaguinha que disse que não dá mais pra segurar. Bethânia precisa soltar a voz. Ainda bem!

Num bloco de protesto Bethânia mostrou sua versão para “2 de Junho”, música da produção recente de Adriana Calcanhotto que aborda a morte do pequeno Miguel, o menino pernambucano de cinco anos que caiu do nono andar de um prédio quyando deveria estar aos cuidados da patroa de sua mãe, um desses descalabros nacionais. Bethânia foi dilacerante. E, na sequência, não deixou pedra sobre pedra ao emendar com “Cálice”, um libelo de Chico Buarque e Gilberto Gil contra o regime militar eternizado nas vozes de Chico e Milton Nascimento.

Maria Bethânia live
Maria Bethânia, aos 74 anos, segue arrebatando o Brasil – Fotos: Reprodução Globoplay

Acompanhada por Paulo Dáflin (violão e guitarra), João Camarero (violão), Jorge Helder (baixo) e Marcelo Costa (percussão), Bethânia mostrou canções do aguardado “Noturno” “Lapa Santa” e “De Onde Eu Vim”. Maria Bethânia não tem o hábito de escolher para cantar ao vivo canções do passado só porque fizeram sucesso. Sempre será preciso ter algo a ser dito por elas. E assim surgem de seu repertório  “Olhos nos Olhos” (Chico Buarque) e “Sonho Impossível” (Chico e Ruy Guerra, versão para uma canção de Mitch Leigh e Joe Darion do musical americano “Man of La Mancha”).

De outro Chico, o Cesar, bardo de Catolé do Rocha (PB), Bethânia cantou três músicas na noite, entre elas “Luminosidade”, que estará também em “Noturno”, assim com “Música, Música” (Roque Ferreira).

Se a paixão transbordante de Gonzaguinha abriu a noite num carnaval dolorido por que não celebrar a alegria com a contagiante “O que É, o que É” do mesmo autor no encerramento (muitas vezes fico ruminando em pensamentos como Luiz Gonzaga Jr. enxergaria esse Brasil de hoje…), o que pode ter levado milhões de brasileiros a partilhar seu energético refrão (“É bonita, é bonita e é bonita”) de suas casas. Pena que o maior coro popular de uma apresentação de Maria Bethânia não possa ter sido captado.

Entre canções, poemas e silêncios, Bethânia sempre algo a nos dizer e se escutarmos esses recados somente com os ouvidos, pior para nós. Que noite! Demorei a falar sobre ela porque o arrebatamento me roubou o profissionalismo. Fiquem com o link da live, mas é preciso se cadastrar na plataforma Globoplay para assistir.

 

 

2 thoughts on “Maria Bethânia e a live das lives

  1. A live de Betânia foi arrebatadora, contundente, apaixonante. Revivi meus tempos de escola no “Canto de Pajé”, meus amores sofridos em “Olhos nos olhos”, a esperança na vida que é sempre luta, mas que é bonita, é bonita e é bonita, como nos ensinou Gonzaguinha.
    Viva Betânia, que tocou fundo nossa alma…

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