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Nelsinho e o cu virado pra lua

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Capa do livro 'De Cu Pra Lua', de Nelson Motta
Capa do livro ‘De Cu Pra Lua’, de Nelson Motta

Do alto de 76 anos bem vividos e regados a fartas doses de descontração, Nelson Motta pode ser carinhosamente apelidado de “o garoto mais velho” do Rio. Curiosamente, este símbolo da carioquice nasceu em São Paulo, mas este é apenas um detalhe dos muitos lances da vida deste jornalista, escritor, dramaturgo, compositor, produtor musical e mais um caminhão de atributos e habilidades que podem ser conhecidos em seu mais novo livro, porém o primeiro com toque autobiográfico, que é “De Cu Pra Lua” (Editora Sextante), que acaba de chegar ao mercado em formato físico e digital. Baseado na célebre expressão popular que define aqueles sujeitos que nascem bafejados pela sorte, Nelson escreve em terceira pessoa (e só se refere ao personagem como Nelsinho) sobre sua vida cheia de altos e baixos, mas o que se percebe é um homem certo sempre no lugar e na hora certas. Sorte? Para ele, sim! Mas ela, ensina o sortudo, só dá as caras para quem corre riscos. Nelsinho, como os amigos lhe chamam, teve três filhas, se casou quatro vezes e se apaixonou por muitas mulheres.

 

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Nelsinho e Tim Maia: longa amizade e parceria – Foto: Reprodução

Profissionalmente, jogou sempre nas onze, atuando como jornalista cultural, produtor, compositor e autor de livros de grande repercussão, além de peças musicais que lotaram as salas de teatro. Da Bossa Nova aos dias de hoje, passando pela era dos festivais da Canção e do auge da disco music, Nelsinho foi não só testemunha ocular como protagonista de muitas histórias. Sem contar o trabalho ao lado de grandes estrelas da MPB como Elis Regina, Tim Maia, Marisa Monte, Elba Ramalho e Daniela Mercury… Falando em jogar nas onze, impossível não comentar sua paixão pelo futebol e, particularmente, pelo Fluminense sobre o qual já publicou um de seus mais famosos livros contando a incrível história da Máquina Tricolor comandada por Rivellino e que encantou o Brasil e o mundo nos meados dos anos 1970.

Procurei escrever com uma visão externa sobre mim, como um autor literário que decide escrever a biografia de um desconhecido que, aos poucos, vai tomando forma. No processo, acabei revendo acontecimentos de cada etapa da minha vida. Fatos que eu me lembrava de um jeito, às vezes se revelaram melhores, e outros, piores”, destaca Nelsinho.

Ao abrir e remexer no baú de memórias, Nelsinho revisita momentos da infância, a presença sempre marcante da matriarca da família, sua mãe Xixa, os tempos nem tão felizes na escola jesuíta, além de enfileirar uma sequência de histórias saborosas descritas com uma boa dose de humor, dramaticidade e algumas revelações.

Nelsinho Motta
Nelsinho e Elis: um namoro rápido seguido de ṕe na bunda – Foto: Reprodução

Entre os casos e “causos”, recorda a visita fortuita de João Gilberto ao apartamento de seus pais no Rio e as tardes ao lado de Elis Regina para a produção de um álbum antológico da cantora, que lhe renderam momentos de êxtase como um breve affair seguido de um sonoro “pé na bunda”. Conta em detalhes o encontro meio ao acaso, ou talvez já escrito nas linhas tortas do destino, com Marisa Monte na Itália, na melhor versão de “nasce uma estrela”. Aborda intimidades, como o casamento com Marília Pêra, regado a admiração e ciúmes, e avalia, ainda, o uso da cocaína em uma fase conturbada da vida.

O tema da sorte permeia as reflexões de Nelsinho e funciona como o eixo da narrativa. Aos episódios vividos, o autor acrescenta suas reflexões sobre os desígnios do acaso, para o bem e para o mal. Mas, se o rapaz de sorte contou com a mão invisível da boa fortuna, sem dúvida ele sempre esteve por perto para lhe dar as boas-vindas!

Sobre o título escolhido para a obra, Nelsinho nos conta: “Tinha o título antes do livro (…) Mas estive com o Washington Olivetto em Londres e ele disse para manter, que era sensacional. Meu agente falou que poderia preocupar algumas pessoas, mas insisti. O cara que se chocar com isso não vai entender o livro, eu não estarei perdendo nada”, avisa, com seu bom humor. Mas o fato é que nem vai precisar de sorte para nos agradar com este relato delicioso.

Abaixo, trechos do livro que destacam sua relação com alguns dos grandes da MPB:

Elis Regina:
“Nelsinho e Elis passavam tardes e noites ouvindo música. Ele trazia cassetes de novos compositores, entre eles Ivan Lins, com o samba-soul ‘Madalena’, que seria um dos maiores sucessos do ano e um grande avanço para Elis.”

Marisa Monte:
“Nelsinho teve a sorte de Marisa chamá-lo para ver um showzinho que faria num bar de Ipanema, quase na esquina do apartamento dele. Nelsinho e Dom Pepe foram, e ficaram maravilhados. Nelsinho se ofereceu para dirigir seu show. Suas vidas mudaram.”

Tim Maia:
“Tim Maia invadiu sua sala, acendeu um ‘baurete’ e jogou uma fita em cima da mesa. Era a gravação em dezesseis canais ao vivo do seu show no Olympia de São Paulo:
– Meu amigo Nelsomotta! Vamos fazer um disco. É só 15 mil dólares. Tá na promoção.”

Marília Pêra:
“Marília era durona. Mas também muito engraçada, uma rainha da comédia capaz de gestos de amor e amizade. E se mostrava carinhosa e enamorada. Nelsinho estava completamente cego de paixão.”

 

 

 

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