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O fim do Boca Livre visto por um fã

Por Túlio Ceci Villaça
Especial para Na Caixa de CD

Eu sou muito fã do Boca Livre. Mas muito. Vocês não fazem ideia. Uma vez, no Teatro Rival, quando eles começaram a versão deles de “Gothan City”, do Jards, eu soltei um “uhu!” que fez as outras mesas todas olharem para mim, achando talvez que eu ia fazer uma performance. Não sou fã de ficar perseguindo e indo a todos os shows, mas sou muito, muito fã do grupo vocal que pegou a tradição de quarteto vocal masculino que vem no Brasil desde antes da Bossa-Nova, ajusta-se às harmonizações influenciadas por Stan Kenton com Os Cariocas, passa o bastão ao MPB-4 e deságua nele, Boca Livre.

Sou fã desses caras que tornam bonito até o uníssono – e quem já cantou em grupo sabe como um uníssono pode ser difícil. Sou fã do grupo que desbravou o caminho das pedras de uma produção independente antes, muito antes de ser modinha e de ser possível. Sou fã desses caras que formaram um repertório tão pessoal e reconhecível a quilômetros, e nunca deixaram de gravar gente nova e de fazer novos repertórios – e de compor eles mesmos. Enfim, já perceberam, sou muito fã.

O Boca Livre teve nestes mais de 40 anos de existência quatro vagas para um revezamento de apenas seis nomes. Cláudio Nucci saiu, entrou Lourenço Baeta. David Tygel saiu, entrou Fernando Gamma (o ex-Vímana que não ficou famoso), e depois o David voltou. Zé Renato saiu, voltou o Nucci, e assim por diante. Então se vê que na verdade eram três vagas em revezamento, porque uma era do Maurício. O Maestro.

maurício Maestro
Maurício maestro detém a marca Boca Livre – Foto: Divulgação

Como eu sou fã do Maurício Maestro. O cara estava lá acompanhando “Ponteio” no festival, com o Zé Rodrix. O cara tem parcerias com a Joyce que são inacreditáveis (gosta de “Mistérios”? Então vá ouvir “Americana”!). E o cara conduziu este grupo de amigos por mares nunca dantes navegados fazendo os arranjos vocais e tocando um baixo exato, do jeito que tinha de ser. Não se tem a palavra Maestro como sobrenome artístico impunemente, é preciso fazer jus. O Maurício fez, a vida inteira. Bem, já deixei claro porque sou tão fã, então dá pra mensurar como estou triste com o fim do grupo. Mas o que eu quero dizer é que não havia outra coisa a fazer.

É público e notório que o Maurício Maestro se tornou entusiasta de extrema-direita há já alguns anos. Passou a considerar o Olavo de Carvalho o grande filósofo que conduzia o Brasil, apoiou o golpe, apoiou e apoia Bolsonaro. Saber disso para mim é um lembrete de que o fenômeno de adesão ao fascismo é mais complexo que apenas frustrados, canalhas e imbecis. A cooptação é sutil e feroz, e achar-se inteligente demais para ser enganado costuma ser exatamente a porta que se abre ao sequestro mental.

Ver esse cara que eu admiro há tantos anos se manifestar acreditando em loucuras e mentiras patentes é muito dolorido para mim, porque implica em pensar que ele pode não ter entendido nada do que fez estes anos todos. Não é um instrumentista como Helio Delmiro, que se tornou evangélico e está interessado no som, não na palavra.

Maurício não é letrista, mas não é assim, nunca foi. Ele fez em conjunto com outros coisas que se opõem diametralmente ao que defende hoje. Não é possível fugir dessas contradições, não é possível seguir como se nada tivesse acontecido. E foi isso que caiu sobre a cabeça dele esta semana.

O Boca Livre acabou. Os outros três integrantes atuais (Zé Renato, David e Lourenço) anunciaram a saída. Nucci não se pronunciou, mas a possibilidade de voltar me parece nula, e Fernando Gamma está radicado nos EUA e não volta mesmo. Maurício é dono da marca, mas o que quer que ele refaça, não será o Boca Livre. Por mais que ele seja o arranjador, o fundador, seja tudo o que ele é, o conjunto acabou.

E acabou porque ele se recusou a se vacinar. Acabou porque sua crença na realidade paralela chegou ao ponto de ele apostar não apenas sua vida, mas a de todos à sua volta. O grupo não teria como se reunir mais com um de seus integrantes não imunizado voluntariamente. Assim, não sobrou outra coisa a fazer.

Eu lamento imensamente o fim do Boca Livre. Lamento demais (já falei que sou fã?). Mas reconheço que Zé, Lourenço e David fizeram o que precisava ser feito, e em dois níveis. Um, o nível prático, da autoproteção contra uma doença contagiosa. Falo da covid, não do fascismo, embora o fascismo também tenha seu poder de contágio.

Mas aí está o outro nível. O ditado alemão já lembrado muitas vezes continua sendo um guia para o posicionamento pessoal: se um fascista senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 fascistas à mesa. Vi amigos de longa data serem contaminados pelo pensamento totalitário e se tornarem rinocerontes, afastei-me de todos, imagino perfeitamente o que os amigos do Maurício sentem, e sinto isso como fã.

Mas, por mais que saiba que há exceções inclusive familiares, não acho possível tergiversar, e não por ódio, mas para sinalizar a estas pessoas que prezamos tanto que seu comportamento não é aceitável, não é humano, e não compactuaremos com ele. E no caso, demostrar e ele e a todos que há coisas mais importantes até do que a música. E desculpem o texto gigante, mas é que eu sou mesmo muito fã do Boca Livre, eu precisava desabafar.

NOTA DA REDAÇÃO: Em entrevista concedida ao repórter Júlio Maria, do jornal Estado de São Paulo, Maurício Maestro declara que quem mais perdeu com todo esse episódio foi ele.

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6 thoughts on “O fim do Boca Livre visto por um fã

  1. Lamento muito por esse descaminho trilhado (voluntariamente) pelo Maurício, destruindo o coração de muitos e a sua própria imagem.

    1. Todos nós, meu caro. Na torcida para que, em algum momento, ele possa se dar conta desses absurdos. Obrigado pela visita e volte sempre!

  2. A admiração pelo Boca, eu eternizei no nome das filhas. Mariana é Gabriela são minhas moças que sonhei vir correr pelos campos sob as pradarias. Acordei ligeiro e vi esse sonho se materializar em duas meninas admiráveis. A minha Mariana é pragmática e já mostra ao mundo seu valor. A minha Gabriela ainda anda com os pés descalços na direção do dia. Mas a sua arte já contamina de esperança as pessoas. Maurício Maestro não compreende o tamanho da sua arte e se apequena no rancor de uma mente doentia. Quando falar do Boca para os meus netos irei falar da
    Alma da banda que irá sobreviver ao fascismo. O Boca nunca irá morrer . Já Maurício Maestro…

  3. Túlio, o texto apaixonado sobre o papel do Boca Livre em sua vida expressa o sentimento de inumeráveis fãs cujas vidas foram — e sempre serão — marcadas pela estética do grupo, que, como acertadamente assinalou, se deve à sensibilidade e genialidade artística do Maurício Maestro.

    Todavia, como alinhá-lo à maldita ideologia fascista que, irmanada ao nazismo (aliás, “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”), ceifou covardemente a vida de 12 milhões de pessoas através do poder armado do Estado? Como a grande maioria dos meus amigos de boa-fé, temo que você jamais tenha se dado ao trabalho de estudar as ideologias totalitárias do século XX que executaram fria e deliberadamente a vida de mais de 100 milhões de cidadãos, não como inimigos de guerra, mas irmãos de pátria, ideologia e partido. Quando você fala em “comportamento não aceitável”, me vêm à mente duas implicações deste repúdio: (i) apenas comportamentos criminosos previstos na lei penal devem ser sumariamente punidos como tal; (ii) como não há comportamento criminoso (i.e., previsto na lei penal) nas ideias e na conduta do Maurício Maestro, resta a conclusão óbvia de que ele foi punido por pensar diferente dos outros (também admiráveis) três. Pra fechar o argumento: seu repúdio — e o de tantos outros — abriga o germe do totalitarismo que acabou levando ao extermínio de etnias (genocídio) e populações (democídio: assassinato pelo Estado) inteiras. Não estou insinuando que você seria um verdugo em um desses regimes: quem tem a sensibilidade de se transportar com a beleza do Boca Livre só o faria em situações extremas e contra a vontade. O mais macabro nesses regimes é que os primeiros a serem executados são exatamente “os idiotas úteis” (como eu fui um dia, e talvez você também, com todo o respeito).
    Adiantando suas previsíveis réplicas de que Bolsonaro se enquadra na moldura acima, permita-me adiantar o seguinte: qual chefe de Estado fascista, impedido de agir na epidemia pelo Supremo Tribunal Federal, envia R$ 8 bilhões de recursos para o Amazonas, garante o auxílio emergencial que equivale a alguns Bolsas-Família, e busca contra tudo e todos reduzir o tamanho do Estado? Isso é precisamente o anti-fascismo!
    Se você algum dia estudou DE FATO (não os clichês da moda) os regimes totalitários e sustenta suas ideias, não há o que discutir: somos adversários ideológicos e não tenho a menor pretensão de mudar suas convicções nem a de ninguém. Todavia, se tiver curiosidade em alguns livros que me tiraram a venda da propaganda dos olhos, sugiro invista algum tempo nos que envio abaixo.
    Um abraço.

    Referências:
    Gregory P. Lenin’s Brain and Other Tales from the Secret Soviet Archives. Stanford, CA: Hoover Institution Press, 2007.
    Radzinsky E. Stalin. The First In-Depth Biography Based on Explosive New Documents from Russia’s Secret Archives. New York, NY: Doubleday, 1996.
    Williamson KD. Guia Politicamente Incorreto do Socialismo (Tradução de The Politically Incorrect Guide to Socialism, por Roberto Fernando Muggiati). Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2013.
    Šnore E. A História Soviética (2008), legendado em Português.
    https://www.youtube.com/watch?v=Uh2e7YFvdlA

    1. Prezado Ricardo, estamos todos enfrentando uma crise global de saúde pública e o mundo aguarda pela imunização completa das populações via vacina. O Maurício quis reunir o grupo para um trabalho em estúdio e quando lhe foi dito que seria sensato aguardar pela vacina, disse que não tomaria. Essa situação foi o estopim da saída dos três. Não se trata apenas de pensar diferente em termos ideológicos, mas de negar a ciência e ir na contramão das noções mais elementares de empatia e solidariedade. E, para encerrar, o atual presidente da República não enfrenta a pandemia com a seriedade que o cargo exige. Isso é público e notório.

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