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Paulo César Feital e as lágrimas de um país entristecido

Lucas Bueno e Paulo César Feita, uma parceria nascida durante a pelada mas fora das quatro linhas - Foto: Denilson Siqueira
Capa do CD 'Lágrimas', que reúne as parcerias de Paulo César Feital e Lucas Bueno - Foto: Divulgação
Capa do CD ‘Lágrimas’, que reúne as parcerias de Paulo César Feital e Lucas Bueno – Foto: Divulgação

Certa vez Cartola, o mestre da delicadeza, foi perguntado sobre o porquê de gravar suas músicas se não era um intérprete tão brilhante quanto os artistas que gravavam suas pérolas em forma de samba. Diplomaticamente, o fundador da Mangueira retrucou que suas canções registradas na voz de terceiros constituíam um pequena parcela de sua obra, que só se tornaria conhecida se ele mesmo as divulgasse em álbuns 100% autorais. É por essas e outras razões que Paulo César Feital, um dos grandes letristas da MPB, lança o CD “Lágrimas”, em parceria com o jovem cantor e compositor Lucas Bueno. Um casamento musical que deu mais do que certo.

Os méritos de “Lágrimas” estão, além da urgência de uma trabalho com o nível catártico que possui, na habilidade com que a dupla passeia pela rica diversidade estilística que a música brasileira nos oferece. A matéria-prima parece uma fonte incessante. E o álbum reúne sambas, choros, marchas, baiões, jongos e toadas que traçam um painel genuíno do dos dias de hoje retratando nossas preocupações, privações e denunciam visceralmente (e sem cortes) as dores e o dia a dia de sobrevivência do povo brasileiro. Esse drama é expresso com maestria na capa do álbum – uma foto montagem na qual um menino pobre de rua é ganha roupa e maquiagem concebidas pelo designer Gabriel Caymmi, neto do mestre Dorival e filho de Danilo e da compositora Ana Terra.

Uma das novidades do álbum são duas parcerias póstumas com João Nogueira. As canções iniciadas pelo sambista, morto há 20 anos, com seu grande parceiro Feital foram ganharam novo fôlego com Lucas Bueno. “Setembrina” era apenas um refrão, tendo Bueno composto o restante da melodia e Feital a letra. E o baião “Pão com Goiabada” – que só tinha as duas primeiras estrofes, letra e melodia, compostas por Feital e João em meados da década de 1980 – recebeu o restante da melodia por Lucas e Feital. Esta canção, aliás, é daquelas de arrancar lágrimas daqueles que entendem o significado da vida humana: é uma dilacerada crônica extraída vida real que narra o assassinato de um jovem de rua por outro por um pedaço de pão!

Duas melodias inéditas João Nogueira receberam letras de Paulo César Feital - Foto: Divulgação
Duas melodias inéditas João Nogueira receberam letras de Paulo César Feital – Foto: Divulgação

Em “Samba pra Darcy”, Feital e Bueno exaltam o legado deixado pelo antrópologo e educador Darcy Ribeiro e a alma tipicamente carioca do intelectual com versos como “Gosto é de jogar pelada / De abraçar meus companheiros / Tenho a alma enamorada / Como a de Darcy Ribeiro / Tenho um samba da pesada / Da Mangueira, do Salgueiro / Na Portela, Mocidade / Eu sou Brasileiro”.

E a poesia transborda em lirismo realista em canções “Colombinas de Vila Mimosa” (“Que banham o sexo com leite de rosas / Nascem sem nada, / Vendidas na estrada, / Nos guetos, vielas, / favelas e dunas”).

E se “Lágrimas” foi gestado para dar um tapa na cara da hipocrisia que assola o país nos dias de hoje seu canto primordial é o catártico sambão “É Foda”: “É foda, é foda / Pensar tá proibido, meu irmão / É foda, é foda / Assassinaram a Constituição”, grita o refrão no melhor estilo samba-enredo com direito a um solo poético de Feital encarnando um inesperado lado rapper.

Vidal Assis, Feital, Nina Wirtti e Lucas Bueno em estúdio - Foto: Denilson Siqueira
Vidal Assis, Feital, Nina Wirtti e Lucas Bueno em estúdio – Foto: Denilson Siqueira

Por conta de seu refrão, a composição tem encontrado problemas para ser veiculada não apenas nas emissoras de rádio como nas próprias redes sociais. “Somos artistas independentes, mas dependentes das redes sociais, veículos de comunicação e espaços culturais para divulgar, vender e, sobretudo, sobreviver com os nossos trabalhos. Mas quando o Facebook não nos permite vender o CD “Lágrimas” na loja de nossa própria página, alegando ser o produto incompatível com as políticas da rede sem uma explicação plausível, é porque fomos censurados”, protesta Lucas Bueno, com veemência. “Diante do aniquilamento cultural e do esfacelamento de direitos conquistados praticado pelo governo corrente, era de se esperar que a censura voltasse a ficar em voga, seja de forma velada ou mesmo escancarada”, completa Feital. Mas como aqui no blog não tem censura, você assiste o clipe da gravação de “É Foda” aqui no blog:

Além de compor com o veterano, Bueno interpreta a maioria das canções de “Lágrimas”, excetuadas as participações especiais de Nina Wirtti, Moyseis Marques, Cláudio Nucci, Soraya Ravenle e Vidal Assis. “Gosto de dizer que o Lucas é um jovem com aquela alma velha… Digo velha no sentido de parecer que ele é um artista de uma geração à qual não pertence”, elogia Feital, dando uma senha acerca da sincronia que marca sua união com o novo parceiro. Os dois se conheceram numa das tradicionais peladas no campo do Polytheama, o segundo time de Chico Buarque (o primeiro, é claro, é o nosso Fluminense, rs…). Peladeiro de pé quebrado, Bueno não se arriscou em campo, mas a tabelinha com Feital nasceu ali fora das quatro linhas. A música brasileira agradece.

‘Parei de contar as composições’

Feital é, seguramente, um dos compositores mais gravados da atualidade, mas esse número preciso vamos ficar devendo ao leitor, pois ele diz já ter perdido a conta de quantas canções criou. “Parei de contar. Quando me dava a esse trabalho, passavam de 400 composições”, diverte-se esse carioca de 69 anos que teve sua primeira música gravada quando tinha 13 anos. “Era um poema chamado ‘Escravo do Amor’, que foi musicada por Aidran Carvalho e foi parar num álbum de Moreira da Silva (“Morengueira 64”).

Com as portas abertas no meio musical, acumulou parcerias com João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Hélio Delmiro, Jorge Aragão, Claudionor Cruz, Guinga, Luiz Eça, Roberto Menescal, Altay Veloso e tantos outros, e
teve sua obra gravada por grandes vozes da MPB como Chico Buarque (“Labareda”),Beth Carvalho (“Cinelândia”), “No Analices” (Nana Caymmi e Milton Nascimento) e e “Saigon” (Emílio Santiago e Alcione).

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