EntrevistaMPB

Radar Brasil – um cantinho da MPB no coração da Alemanha

Felipe, que sempre sonhou em ter um programa de rádio, realizou seu sonho na Alemanha - Foto: Acervo Pessoal

Da pequena cidade de Darmstadt, encravada no estado de Hessen (região central da Alemanha) a riqueza e diversidade da cultura brasileira chegam aos ouvidos de seus 148 mil habitantes sob a forma de música. Já são 23 anos de apresentações do Radar Brasil, programa de rádio que mostra o melhor da música brasileira no coração da Europa. A iniciativa é de Felipe Tadeu, jornalista e poeta carioca, tijucano, e, acima de tudo um apaixonado pelos ritmos do Brasil. Nesta conversa com o Na Caixa de CD, nosso mais novo colaborador fala do projeto com o mesmo entusiasmo de quando entrou no estúdio da Rádio Darmstadt pela primeira vez. Conheça um pouco da história de vida desse legítimo embaixador da música brasileira em solo alemão.

 

O que levou você, um carioca da gema, para Alemanha?

Felipe Tadeu – Vim para a Alemanha quatro anos depois de formado, isto é, em 1991. Minha namorada na época tinha a nacionalidade alemã e  me chamou para viver com ela aqui. O Brasil estava impossível naquele ano, com o Collor como presidente, depois de tantos anos de ditadura. Horizonte fechado.

 

Como era a sua ligação com o rádio?

Felipe Tadeu – Meu interesse em trabalhar com rádio já vinha da própria faculdade. Cheguei a ter dois programas na Rádio Facha (da Faculdade Hélio Alonso): o “Acorde – Música Instrumental“ e o “Néctar dos Deuses“. Quando me formei, queria  criar uma rádio-pirata que veiculasse boa música e fomentasse a prática da cidadania. Naquela época, as rádios livres eram um tema que me encantava. Quis o destino que eu viesse para a Alemanha para cumprir esse sonho. A Radio Darmstadt é a primeira rádio comunitária do estado onde vivo, o Hessen.

 

Felipe, o Radar Brasil está completando 23 anos de existência… Começou junto com a rádio comunitária de Darmstadt. Vamos relembrar essa história… Como era a produção dos programas há 23 anos? O que mudou de lá pra cá?

Felipe Tadeu – Quando comecei a fazer o Radar Brasil, ao lado de uma amiga alemã, a Alexandra Roether, era ela que cuidava da tradução dos meus textos para o alemão e também fazia a apresentação no idioma local. O Radar Brasil era parte de um programa chamado Salsa Radio, conduzido por Michael Reimann. Quem me convidou para ir conhecer a emissora foi Renate Hess, tradutora de língua portuguesa, poucos dias depois da Rádio ter sido fundada, em fevereiro de 1997. Na época, a parte brasileira que tínhamos era de apenas trinta minutos, com programas quinzenais. Michael Reimann e um outro produtor, o Axel Flörke, dividiam a hora e meia restante. O Radar Brasil foi desde o começo em alemão e português, enquanto que Michael e Axel faziam as partes deles em espanhol e alemão. Tínhamos portanto três idiomas no Salsa Radio. O nome “Salsa“ vem disso, de ter um molho latino, que incluía também música espanhola e portuguesa.

 

E o Radar Brasil nasceu como o espaço da música brasileira na emissora.

Felipe Tadeu – Tive muita sorte de poder contar com a companhia inicial de Alexandra, que ficou cinco anos no programa. Quando ela saiu, quem ficou no lugar dela foi o Axel, outro cara que também se tornou um grande amigo. Ele por sinal nasceu em Porto Alegre, apesar de não ter vivido longamente no Brasil. Axel ficou ainda mais tempo que a Alexandra conosco. Até que um dia, depois de mais de uma década de trabalhos como parte do Salsa Radio (que mudou no decorrer da história o nome para Antena Latina), o Radar Brasil se tornou independente. Passamos a produzir um programa mensal de uma hora. A emissora cumpre desde o começo um papel muito importante aqui em Darmstadt. É um enclave “multikulti“. É muito significante para mim manter um programa falado também em português do Brasil, sabe?

 

 Como foi e é, ao longo desses anos, a aceitação do público em relação ao programa? Existe curiosidade dos alemães sobre a música que se produz no Brasil?

Felipe Tadeu – O Radar Brasil se estabeleceu rapidamente no quadro de programação da rádio. Desde o  início eu estava empenhado em fazer um programa que tocasse não só boa música brasileira, quanto  fornecesse também informação sobre os compositores do Brasil e seus álbuns mais significativos. Tinha consciência da visão estereotipada que as pessoas por aqui tinham da nossa música. Não queria compactuar com essa folclorização de país tropical. O conceito era muito claro na minha cabeça: abrir espaço para mostrar Tom Jobim e Rita Lee, Adoniran Barbosa e Uakti, Milton Nascimento e Itamar Assumpção, Cássia Eller e Elomar. Eu via isso como um trabalho político também. Mostrar a diversidade da gente. Isso exige do ouvinte mais amplitude para compreender o que seria a música brasileira, é um processo mais demorado, mas também mais rico. Os clichês abundam por causa disso, porque são mais fáceis de serem entendidos, são mais superficiais. Outra coisa é que não abrimos mão de podermos proporcionar aos alemães a possibilidade de conhecerem o português do brasileiro, tão bonito nas nossas melhores canções. A curiosidade das pessoas que vivem aqui na Alemanha pela nossa música existe, claro, mas precisa ser constantemente incentivada, regada. Ainda que sejamos um dos países mais interessantes em termos de história musical por conta da nossa formação cultural afro, indígena e européia, eu imaginava, quando cheguei por aqui em 1991, que fossemos mais conhecidos. A Bossa Nova é nosso capítulo mais divulgado por aqui. Ela atinge o gosto dos alemães através do jazz, claro, esse sim bem conhecido.  Essa região aqui da Alemanha foi ocupada depois da segunda guerra pelos norte-americanos, daí o jazz ser bem difundido por aqui.

 

Qual o perfil dos ouvintes do programa?

Felipe Tadeu – Eu diria que, dentre as pessoas aqui mesmo de Darmstadt, nosso público ouvinte seja gente que tem o hábito de viajar e que tem a mente aberta, culturalmente falando. Gente que não escuta só pop cantando em inglês e músicas-da-moda e o lenga-lenga do autotune. Lenine disse numa entrevista concedida a mim algo muito certo: alemães e japoneses são os povos que mais viajam para o exterior e os que consomem mais cultura de outros países. Eu só sei que, quanto mais os alemães conhecerem a música produzida pelos brasileiros, mais eles vão amá-la.

 

Daí a importância de um trabalho como o teu…

Felipe Tadeu – É preciso abrir espaços para mostrá-la de maneira mais regular. Temos muito poucos artistas que vêm se apresentar por aqui. Isso é fundamental para que a música do país cative o povo local. Daí a importância também de produzirmos programas radiofônicos de qualidade, comprometidos com a nossa multiplicidade musical. Não somos só ritmo, temos muita consistência “intelectual“ na hora de fazermos arte. Melodias e harmonias de tradição toda própria.

 

Imagino que este seja o primeiro programa voltado para a música brasileira em toda a Europa.

Gustavo Gomes, filho de Felipe, e Ana Claudia  Krause, trabalham na produção do Radar Brasil - Foto: Acervo Pessoal
Gustavo Gomes, filho de Felipe, e Ana Claudia Krause, trabalham na produção do Radar Brasil – Foto: Acervo Pessoal

Felipe Tadeu – Acredito que o Radar Brasil seja o programa de música brasileira mais antigo aqui na Europa. O fato dele ser bilíngüe é, a nosso ver, muito relevante. Até porque os brasileiros espalhados pelo mundo também podem curtir os especiais de qualquer lugar, graças à internet. Devemos essa longevidade no dial alemão a todos aqueles que fizeram parte como co-produtores. Hoje somos  Ana Claudia Krause, que por sinal também é jornalista brasileira e que cuida com muito carinho da apresentação em alemão, que ela domina totalmente, e Gustavo Gomes, meu filho de 16 anos, que é o responsável pela técnica, o nosso piloto do mundo digital (risos). Mas não teríamos continuado, ao longo desses 23 anos, sem a dedicação e o amor de Patricia Sojka, Paula Dassie, os já citados Axel Flörke e Alexandra Roether, e também de Tiago Souza. Todos trabalhando como voluntários, pois a Radio Darmstadt é comunitária, o que em outras palavras representa dizer que estamos livres de pressões comerciais de qualquer espécie. A Radio Darmstadt é muito democrática e conta com diversos programas de caráter digamos progressistas, indo do feminismo ao ambientalismo, com representatividade também do movimento LGBT. Apresentamos programas em francês, polonês, em afegão. Todos com liberdade de expressão e responsabilidade social. Eu tenho orgulho de fazer parte dessa prática tão dinâmica de exercer a cidadania. E estou bem acompanhado nesse barco. Ana Cláudia já está conosco há muito tempo também. É muito bom isso.  

 

Você tem conhecimento de outro projeto parecido?

Felipe Tadeu – Há outros programas de rádio com música brasileira como o da  Radio Lora, de Munique, que tem o Xaxados & Perdidos; e o programa produzido por Rainer Skibb na NDR – Norddeutschen Rundfunk . Claus Schreiner, da editora e selo fonográficoTropical Music, também foi uma grande referência na divulgação da música brasileira por aqui. Quando cheguei , o Claus já fazia seus programas sabatinos na Hessischer Rundfunk. Ambos bem diferentes do Radar Brasil.

 

Além dos especiais dedicados a um nome específico da MPB, você fez entrevistas com artistas que foram se apresentar na Alemanha? Quais? Em caso positivo para a última pergunta, como era a reação deles ao saber da existência do Radar Brasil?

Felipe Tadeu – O perfil do Radar Brasil é contar um pouco sobre a biografia de um determinado artista ou grupo e apresentar um repertório que seja o melhor de sua discografia. O fato do rádio ser apenas uma das frentes em que atuo como free-lancer especializado no som Brasil sempre me ofereceu condições de entrevistar grandes nomes. Desde que cheguei na Alemanha, venho trabalhando para veículos como a Deutsche Welle, as revistas Jazzthetik, o Info-Brasil, a Humboldt, Matices, Tópicos, além de ter produzido rádio também para a HR-2, a estatal da Hessischer Rundfunk. Ou seja, sempre tive acesso natural a artistas tanto do mainstream quanto da cena alternativa. Exemplos: Sá, da dupla Sá & Guarabyra, Marisa Monte, Céu, Ed Motta, Suzana Salles, Luiz Melodia, Eumir Deodato, Gilberto Gil. Somo a isso o hábito de ministrar palestras em consulados, universidades e espaços culturais daqui e de, vez ou outra, voltar ao trampo de DJ. Mas quem manda hoje no „pedaço“ é o corona, né? Esses eventos públicos estão descartados, o que é compreensível. Os artistas brasileiros, assim como os nossos selos fonográficos, sempre foram muito solícitos e generosos com o Radar Brasil. A gente realmente faz de tudo para sermos uma boa vitrine do que o Brasil tem de melhor. Eu sempre fui uma formiga idealista e meus amigos co-produtores também são apaixonados por música.  

 

Conte um pouco sobre a proposta editorial do programa. Vocês costumam dar grande ênfase à produção instrumental brasileira. Aliás, os nossos instrumentistas gozam de maior prestígio no exterior do que aqui no Brasil.

Felipe Tadeu – Se nós quisermos falar da boa música brasileira, não dá para ignorar os nossos instrumentistas, não é mesmo? Mas a nossa ênfase é mesmo na canção, sabe? Já enfocamos inúmeros especiais com Naná Vasconcelos, João Donato, Raul de Souza, Robertinho Silva, Hermeto Pascoal,, Egberto Gismonti, Hamilton de Holanda, mas  também fomos de Marina Lima, Alceu Valença, João Nogueira, Joyce, Tetê Espíndola, Chico Buarque, Secos & Molhados, Cazuza… A vantagem que a música instrumental tem, apesar de não ser tão consumida e tão presente nas rádios tradicionais, é que por ela não estar presa a um idioma, ela é mais aberta. Agora, se os estrangeiros soubesse o primor que são os nossos letristas, se o mundo compreendesse um texto do Cartola, do Caetano, do Fernando Brant, do Aldir Blanc a música do Brasil seria simplesmente idolatrada nos quatro cantos da Terra.

 

Como você disse, teu filho te ajuda na produção do Radar Brasil. Ele nasceu na Alemanha e imagino que um projeto como esse foi importante para que ele consiga estabelecer uma conexão com o nosso páis independente do fato de ser filhos brasileiros. Trata-se de uma overdose de nossa cultura para ele.

Felipe Tadeu – Sim, é verdade. O Gustavo teve a chance de conhecer o Brasil logo cedinho. Nem tinha completado o primeiro ano de vida, e já levávamos o menino para conhecer o Rio de Janeiro do pai e da mãe. De dois em dois anos, mais ou menos, voltávamos com ele para aí, para ele ganhar intimidade com os entes queridos que havíamos deixado do outro lado do oceano e para aprender a amar o Brasil. Não deu outra: ele adora ir ao Brasil. E entende o português perfeitamente, porque cresceu ouvindo o idioma dentro de casa. Como não poderia deixar de ser, sempre escutou muita música brasileira por causa de mim, ainda que eu também escute muito rock, blues, reggae, jazz e outras maravilhas da natureza humana. A música brasileira tem uma grandeza incrível e precisa ser mais conhecida. Nisso mudou pouca coisa, da metade dos anos 90 para cá. O Brasil não sabe vender seu peixe em termos de música e cultura em geral. O trabalho que eu, Ana Cláudia Krause e o Gustavo desenvolvemos hoje com o Radar Brasil tem essa proposta, de mostrar o que o nosso país tem de melhor em termos culturais, que é a música. Tradição e modernidade.

 

Felipe Tadeu: 'Se o mundo compreendesse um texto do Cartola, do Caetano, do Fernando Brant, do Aldir Blanc a música do Brasil seria simplesmente idolatrada nos quatro cantos da Terra' - Foto: Acervo Pessoal
Felipe Tadeu: ‘Se o mundo compreendesse um texto do Cartola, do Caetano, do Fernando Brant, do Aldir Blanc a música do Brasil seria simplesmente idolatrada nos quatro cantos da Terra’ – Foto: Acervo Pessoal

Felizmente, o Radar Brasil é bilíngue e nós podemos ouvir os programas. O acervo está todo digitalizado? Podemos ouvir pela internet?

Felipe Tadeu – Os nossos especiais podem ser acessados pela internet nos horários das transmissões, que acontecem pelo site da própria emissora. Cada programa é transmitido três vezes, mensalmente, sendo duas reapresentações. Sempre na quarta quinta-feira do mês, às 18 horas da Alemanha, às 24 e, no dia seguinte, às 11 da manhã. O ouvinte que vive no Brasil só precisa levar em consideração os fusos horários. Não temos podcast dos especiais, o acervo não está digitalizado, mas está muito bem guardado. E temos muito pique para continuar mostrando que o Brasil não é só samba, que o samba não é só carnaval, que ele é também um feitio de oração e ainda tem o baião, o choro, o rock, o frevo muito além do Sepultura, do Michel Teló, do Kaoma e da Anitta.

 

Serviço
O site da rádio: http://stream.radiodarmstadt.de/popup/radar-play.html

A homepage do Radar Brasil: https://sites.google.com/site/radarbrasilfm/impressum

4 thoughts on “Radar Brasil – um cantinho da MPB no coração da Alemanha

  1. Felipe é um jornalista vibrante e um estudioso da nossa música brasileira. Tem uma memória fabulosa e sempre tira da cartola alguns casos interessantes do backstage.
    O programa é excelente;)
    Vida longa ao Radar Brasil!

    1. O Felipe é, de fato, fantástico e cheio de boas histórias para contar e de reflexões para trazer. O Na caixa de CD está exultante em tê-lo no time de colaboradores, assim em tê-la como leitora assídua, Márcia!

  2. Muito interessante a entrevista , e já há algum tempo acompanho os ótimos programas da Radar ! Parabéns a qualidade, a seleção primorosa dos temas
    E parabéns a toda excelente equipe

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