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Raul Ellwanger, o trovador exilado

raul ellwanger

Por Maninho Pacheco

A Warner lançou este mês o álbum “Elis, Saudades”. Entre as canções selecionadas há uma preciosidade, “O Pequeno Exilado”, do gaúcho Raul Ellwanger. A canção foi gravada por Elis – em dueto com Raul – apenas em estúdio, nunca comercialmente.

“O Pequeno Exilado” foi escrita no exílio. A canção nos narra o ponto de vista dos filhos dos exilados que, sem entender o que ocorria ao seu redor, acompanhavam os pais. É de encher os olhos de lágrimas e o coração de alegria e fé na vida. Se apenas tivesse composto essa canção em vida, Raul já teria garantido seu nome como um dos mais notáveis músicos do país. Fez mais. Compôs “Pela Vida Afora”, uma espécie de carta de intenções do exilado que retorna. E que marca, justamente, sua volta ao Brasil, a partir da anistia.

No final dos anos 60, Ellwanger identificou-se optou pela luta armada, junto a grupo original que criou a a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR). Ele esteve presente na reunião em que a VAR cindiu e se transformou na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Após o AI-5, o músico cai na clandestinidade e parte para o exílio no Chile, Argentina e França.

“Pela Vida Afora” foi gravada em seu belíssimo álbum “Teimoso e Vivo”, de 1979, já quando do seu retorno. Explicou a canção como “um manifestinho pessoal, com algumas opiniões de cultura e política colocadas com algum cuidado, visto o regime fechado daquele momento e a censura atuante”.

Ellwanger foi o mais conhecido músico brasileiros em toda a fatia progressista do continente latino-americano e Caribe nos anos 70 e 80. É cultuado, em Cuba, Argentina, Uruguai e Chile. Querido por Mercedes Sosa, amigo de Pablo Milanés e Silvio Rodriguez. Chega a ser mais conhecido que Milton entre os latinos de esquerda – os demais curtem mais Nelson Ned. E, no entanto, reconhece a superioridade mítica de Bituca, sobretudo entre nossos pares Hermanos. E é ao Bituca que dedica “Pela Vida Afora”.

“Pela vida afora” é um olhar pessoal também sobre a anistia, assim como “Pequeno Exilado”. Na primeira parte da canção fala sobre o retorno, de ”cantar de peito aberto”, do “que der e vier”, numa óbvia esperança política pela redemocratização do país. Na segunda parte evoca os músicos que o influenciaram: Milton com sua faca amolada, os pássaros de Edu, a dupla Vitor Martins e Ivan Lins, e “Banda”, de Chico. “Uma mistura do idioma, dos bailes andinos, do desejo de vida e ainda mais vida, que se sintetizam numa excelente sopa marinera, prato popular chileno onde se faz muito de tudo um pouco”, explicou Ellwanger, em uma antiga entrevista

O álbum “Teimoso e Vivo” – com “Pequeno Exilado” e “Pela Vida Afora” no meio -, foi gravado em Porto Alegre em um cenário absolutamente mais avançado nas modernas técnicas e recursos de gravação do que aquilo que havia no país quando Ellwanger dele foi forçado a se ausentar. De cara, o músico se deparou no estúdio com um Áudio Design de 16 canais. “Este salto tecnológico, esta plasticidade operativa, ajudou a plasmar uma certa diversificação estilística, uma linguagem regional, uma possibilidade de somar e caldear diferentes ideias musicais, até ali sem chance de realizar-se”, disse. No estúdio, Wagner Tiso comandou os arranjos do álbum, que também contou com a participação de um Beto Guedes portando três tarugos de maconha e um bandolim Del Vecchio.

O álbum “Teimoso e Vivo”, com as canções “Pequeno Exilado” e “Pela Vida Afora”, me foi apresentado há, sabe Deus, quarenta anos e tal. Passei todos anos subsequentes tentando localizar as canções. Sem sucesso. Há três dias, após ter digitado no Google trechos dos versos que ainda me lembrava, fez-se a mágica.

“Pequeno Exilado” chegou na voz de Elis. Não perdem por esperar.

 

NOTA DA REDAÇÃO: Raul Ellwanger é citado como uma das pessoas que prestou auxílio a Belchior (1946-2017) durante seu errático périplo entre cidades gaúchas e o Uruguai nos últimos anos de vida do artista. O episódio pode ser visto no excelente livro-reportagem “Viver é Melhor que Sonhar – Os Últimos Caminhos de Belchior” (Sonora Editora), de autoria dos jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti.

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