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Renato Teixeira e a belíssima ‘Romaria’

Renato Teixeira

Não sou católico e tampouco tenho religião, mas considero “Romaria”, de Renato Teixeira, uma obra-prima de nosso cancioneiro. Não sou o único a acreditar nisso. A canção está entre as 30 mais gravadas no Brasil e neste domingo (11) há uma bela chance de ver e ouvir o que, certamente, será uma mais uma interpretação inspirada de seu autor. A Band exibe às 14h o programa Especial Romaria, com apresentação de Mariana Godoy. O projeto é uma homenagem ao dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, celebrado na segunda (12), um feriado nacional. O cantor e compositor não estará sozinho, tendo a companhia do padre Alessandro Campos e do amigo Sérgio Reis para interpretar esta e outras canções de louvor à santa.

Sérgio Reis, padre Alessandro e Renato Teixeira participam de especial em louvor da padroeira do Brasil - Foto: Divulgação
Sérgio Reis, padre Alessandro e Renato Teixeira participam de especial em louvor da padroeira do Brasil – Foto: Divulgação

Além de sacerdote católico, Alessandro Campos é cantor e apresentador de TV. Passou a ser conhecido como o “Padre Sertanejo”, por sempre usar esse estilo de música para passar suas mensagens religiosas. Sérgio Reis brilhou nos anos 1960 durante o movimento da Jovem Guarda tendo como seu grande sucesso à época a canção “Coração de Papel. Mas sua carreira virou a chave a partir de 1972 ao gravar um álbum 100% sertanejo que foi “Menino da Gaita” (1972). O sucesso foi imediato e ele seguiram hits como “Menino da Porteira”, “Adeus Mariana”, “Disco Voador”, “Panela Velha”, “Filho Adotivo”, “Pinga ni Mim” e várias outras canções. A coletânea “O Melhor de Sérgio Reis”, lançada em 1981, vendeu mais de 1 milhão de cópias na ocasião.

Mas quero voltar a falar de Renato Teixeira, que completou 75 anos em 20 de maio. O artista tem razões de sobra para venerar a santa por ter lhe inspirado a a produzir algo tão belo e que o situa entre os compositores mais executado do Brasil figurando ao lado de nomes como Pixinguinha, Tom Jobim, Ari Barroso e Luiz Gonzaga, por exemplo, Inicialmente gravada por Elis Regina no álbum “Elis”, de 1977. De lá pra cá foi regravada por Ivete Sangalo, Maria Rita (a filha de Elis), Chitãozinho e Xororó, e por um grupo de rock, o Doctor Rock.

“Muitos países celebram seu sentido de união nacional com monumentos a militares, guerreiros,  homens poderosos. O Brasil, não: quem cria e define nossa união é uma mensagem de fé, de amor, de esperança: é Nossa Senhora. Ela é nossa santa nacional, de um canto a outro do país”, disse o autor dos versos “Me disseram, porém / Que eu viesse aqui / Pra pedir de romaria e prece / Paz nos desaventos / Como eu não sei rezar / Só queria mostrar / Meu olhar, meu olhar, meu olhar” em entrevista ao programa Globo Rural, em 2017.

A onba-prima foi escrita, letra e música, num apartamento em Pinheiros, bairro da zona sul paulistana. Buscava os acordes e e anotava partes da letra num caderno. Tudo surgia ao mesmo tempo. Em algumas foras, estava pronta – ou faltando uma ou duas palavras para completar o último verso, aquele que termina assim “Como não sei rezar, só queria mostrar meu olhar…” Achou que a inspiração para completar viria depois. Qual nada! Estava pronta sim.

O primeiro a ouvir a música finalizada foi Marcus Pereira, produtor com vasta folha de bons serviços prestado á música brasileira como, por exemplo, gravar o primeiro álbum de Cartola. De acordo com Renato, Marcus ouvia a canção sentado de costas, com as mãos no rosto. O autor lembra que estava ansioso pelo veredito do grande produtor, mas Marcus Pereira nada dizia. Estava chorando. Recobrando-se lentamente, disse: “Você, Renato, fez uma coisa forte. Cuide bem dela.” Elis Regina, a maior cantora do Brasil àquela época, não deve ter reagido diferente.

Ao contrário do que se possa pensar, o grande compositor sertanejo não é um “caipira Pirapora”. Nasceu em Santos, viveu muitos anos na metropolitana São Paulo antes de migrar para o interior do estado e agora viver em Dourados (MS). Ainda assim, conhece como poucos a alma do povo da roça. Por força do seu refrão forte (“sou caipira pirapora” / Nossa Senhora de Aparecida / Ilumina a mina escura / E funda o trem da minha vida”), “Romaria” é cantada pelo público nos shows, pelos fiéis das missas católicas, por estudantes, crianças, pelo povão. Há quem não entenda, às vezes, a letra, mas canta do seu jeito e se emociona. Ouçam esta linda versão de “Romaria”, apresentada na gravação do programa Sr. Brasil de Rolando Boldrin, com um emocionado coro da plateia:

Além de “Romaria”, Renato Teixeira é autor e compositor de conhecidas canções como “Tocando em Frente” (gravada por Maria Bethânia), “Dadá Maria” (, “Frete” (tema do seriado de TV “Carga Pesada”), além de “Amanheceu” (tema de abertura do programa “Som Brasil”, apresentado por Rolando Boldrin). Antes de viver exclusivamente de música, cursou publicidade e até aventurou-se na composição de jingles. Criou, junto com Sérgio Mineiro e Sérgio Campanelli as músicas que embalaram comerciais de TV das balas de leite Kids, entre outros. A versão que foi ao ar acabou sendo a demo como voz e violão que Renato enviou à agência. Os clientes não quiseram mudar nada. O jingle é genial, como vocês podem ver abaixo:

Entre 1969 e 2017, Renato Teixeira gravou 27 álbuns. “Romaria”, de 1977, é, sem dúvida, o mais conhecido. Mas pérolas elogiadas seja pelo público seja pela crítica como a apresentação ao vivo com a dupla Pena Branca & Xavantinho em Tatuí (SP), de 1992. Dos trabalhos mais recentes, os dois volumes de “Amizade Sincera”, de 2010 e 2015, gravados com Sérgio Reis, e “AR”, (2016), em parceria com o amigo Almir Sater. Todos primorosos.

Mas quero que vocês conheçam o mais recente deles “Terra de Sonhos” (Karup, 2017), um belíssimo encontro com os músicos da Orquestra Sinfônica do Estado de Mato Grosso. “Garanto que esse trabalho passa a ser um patrimônio da minha carreira. É como se as canções tivessem chegado à Terra Prometida. Daqui pra frente vou poder mostrar meu trabalho elegantemente vestido e pronto para a festa”, disse ao maestro Leandro Carvalho, que assinou os arranjos das 14 canções selecionadas. Ouçam aqui:

 

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