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RIP, Mario Castro-Neves

Ainda cambaleando de tristeza com as mortes de Aldir Blanc e do ator Flávio Migliaccio, recebo do amigo, jornalista e produtor Arnaldo de Souteiro outra notícia triste para a música brasileira. Eu só queria essa partitura cor de cinza deste quatro de maio fosse logo virada. Abaixo, o texto do Arnaldo, que dispensa quaisquer comentários da minha parte, pois o homem sabe tudo:

“Gênio que antecipou e transcendeu a bossa-nova, Mario Castro-Neves – o brilhante pianista, arranjador, compositor e band-leader nascido no Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1935 – faleceu nesta tarde, 4 de maio de 2020, em sua casa em Plainsboro, Nova Jersey (EUA), aos 84 anos. Tive a honra de trabalhar com ele em várias ocasiões, tendo produzido seu último álbum, “On A Clear Bossa Day”, registrado para minha gravadora JSR em 2004. Mario me dedicou uma música intitulada “Someday”, que ele gravou em 2002 com Ithamara Koorax no álbum “Love Dance,” lançado pela Milestone Records. Por conta do sucesso da música, Mario realizou apresentações com lotação esgotada, ao lado da cantora, nas casas noturnas Mistura Fina e Partitura, no Rio”. Ouça aqui “On A Clear Bossa Day”:

Mario Castro-Neves com Ithamara Koorax e Arnaldo de Souteiro - Foto: Acervo Pessoal
Mario Castro-Neves com Ithamara Koorax e Arnaldo de Souteiro – Foto: Acervo Pessoal

E segue o relato do jornalista e produtor Arnaldo de Souteiro:
“Também produzi (em 2001, para a BMG) o primeiro relançamento oficial em CD, no Brasil e no exterior, de seu álbum de estréia como líder, “Mario Castro-Neves & Samba SA”, gravado para a RCA em 1967, com brilhantes recriações de músicas de Antonio Carlos Jobim, João Donato, Moacir Santos, Dorival Caymmi e Chico Buarque. Incluí algumas dessas faixas nas compilações “Focus On Bossa Nova” e “Focus On Brazilian Music Grooves”, lançadas na Europa e Japão. “Candomblé”, de Danilo Caymmi & Edmundo Souto, virou um grande sucesso nas pistas de dança na Europa.
Além de outros brilhantes álbuns para os selos Decca e Canadian Talent Library, Mario trabalhou com Tito Madi, Elza Soares, Wilson Simonal, Tony Camillo, Carmen McRae e Pat Martino, teve músicas gravadas por Doris Monteiro e Rosa Maria, lançou discos com grupos como Musicanossa e Turma da Pilantragem, criou a banda Jovem Brasa (dedicada à uma inusitada fusão entre Jovem Guarda e Bossa Nova), e ainda formou suas próprias orquestras na Inglaterra e no Canadá, dois países em que viveu antes de se mudar para os EUA em 1977, onde lecionou na Universidade de Princeton. Sua gravação de “Summersoft” (Stevie Wonder) tornou-se um hit na cena internacional do acid-jazz.
Tornei-me, aos 10 anos de idade, um grande fã do estilo único de Mario graças ao radialista Simon Khoury, que tocava bastante na JB-AM a faixa “Helena And I”, de seu álbum “Brazilian Mood” (1973). Três décadas depois, pude não apenas incluir a mesma fascinante gravação de “Helena And I” em uma compilação que produzi para Verve (“A Trip To Brazil Vol.2: Bossa & Beyond”), bem como gravar uma nova versão daquele tema sofisticadíssimo para o álbum “On A Clear Bossa Day”.
Outro destaque daquele que agora se tornou seu último CD foi “Mamadeira Atonal”, uma música icônica escrita em 1957 com Ronaldo Bôscoli e que absurdamente permaneceu inédita em disco até 2004. Entre os membros de seu lendário grupo Samba S.A. estavam Novelli, Normando, Thais do Amaral, Biba (na primeira formação), Manuel Gusmão, Cesar Machado, Ithamara Koorax e Ana Zinger. Também tocou com Paula Faour, Jorge Pescara, Enio Santos, Memo Acevedo, Gary Morgan e Pat Martino. No final dos anos 90, enveredou pelo funk e hip-hop, gravando para o selo Volt com Angel Sessions, L.J. Reynolds, o grupo The Dramatics e o rapper Kenne Davis.
Como escrevi no encarte do CD “On A Clear Bossa Day”: “Seu excelente trabalho de orquestração no álbum Brazilian Mood seria suficientes para colocar Mario Castro-Neves entre os melhores arranjadores da história da música, ao lado de Sebesky, Ogerman, Mancini, Legrand, Schifrin, Mandel, Gil Evans, Deodato e Gaya.
Mario era o irmão mais velho do violonista Oscar Castro-Neves, do baixista Iko, do baterista Leo, do clarinetista Zeca (todos já falecidos) e do cantor Pepê Castro-Neves.
Ele deixa sua esposa Mara, seus irmãos Pepê e Maria Lina, suas filhas Lili e Andrea, e seu filho Mario Castro-Neves Filho”.

8 thoughts on “RIP, Mario Castro-Neves

  1. Perdi meu irmão muito querido. Homem de bons sentimentos e de muito amor em seu coração. Grande músico e compositor. Agradeço a Deus por ter tido um irmão como ele. Que descanse em paz e toque muita música lá em cima alegrando a todos que partiram também . Que Deus abençoe e dê forças a sua esposa a quem agradeço pelo amor, carinho e dedicação que teve para com ele e forcas e consolo a seus filhos Mário, Andrea e neto Iacha e Lídia. Saudades meu Mariola.

  2. É com tristeza que recebo esta noticia. Mais um integrante dessa familia musicalmente maravilhosa se vai, deixando um grande buraco na nossa musica já tão desprezada e ignorada. Quanto ao disco não tenho nada a acrescentar pois já o possuo há muito tempo. Sendo admirador não poderia ser de outra maneira

  3. Tudo o que foi relatado sobre Mário Castro Neves neste blog pelo jornalista e produtor Arnaldo de Souteiro dispensa maiores comentários. É a certeza de que Mário Castro Neves cumpriu sua missão nesse mundo, levando a Bossa Nova em altíssimo nível para todo o mundo.
    Os anjos o recebem com muita música.

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