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Rita Lee e os 40 anos de um álbum pop raiz

Rita Lee

Em postagem recente nas redes sociais, o  jornalista Antônio Carlos Miguel cravou a expressão exata: Rita Lee “abria portas, arrombava a festa e, como uma Chiquinha Gonzaga dos novos tempos, seria o exemplo pioneiro para  novas gerações de cantoras e compositoras brasileiras”. Desde os tempos de Mutantes, uma das forças inspiradoras da Tropicália, a artista firmou-se como o maior nome não só do rock brasileiro, mas do universo pop nacional. No fim dos anos 1970, em parceria com o marido e músico Roberto Carvalho, começou a produzir uma avalanche de hits, tomou o Brasil de assalto com canções repletas de sarcasmo, rebeldia e de um romantismo latente, explodindo em sensualidade. Tudo isso ainda sob os anos de chumbo da ditadura militar nos anos em que as vozes conscientes do país exigiam o fim do regime. Na primavera de 1980, Rita e Roberto lançariam “Rita Lee”, um álbum que mudou radicalmente a concepção do pop rock Brasil.

A fórmula já vinha sendo ensaiada havia no disco anterior, “Rita Lee” (1979) que trazia canções do naipe de “Doce Vampiro”, “Chega Mais” e, principalmente, “Mania de Você”. Mas no trabalho seguinte o vórtex estava formado: ao álbum ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas somente no Brasil – um feito gigantesco para a época. Para a grande maioria, este álbum passou a ser conhecido como “Lança Perfume”, o primeiro sucesso a estourar na rádios. Aquela bolacha inovou, colocando em xeque certas verdades musicais. No país que se embalava no cancioneiro romântico de Roberto Carlos não era mais preciso ser “careta” para cantar o amor. Sutilezas semânticas como “Nos lençóis macios, / Amantes se dão / Travesseiros soltos, / Roupas pelo chão” foram virados do avesso por versos escancarados como “Vê se me dá / O prazer de ter prazer comigo / Me aqueça, me vira de ponta-cabeça / Me faz de gato e sapato / Me vira de quatro no ato / Me enche de amor”. Veja aqui o clipe gravado para o Fantástico num ringue de patinação (mais 1980 impossível):

Estava mais do que claro: não era só o amor que estava no ar. O tesão também. Os sussurros e gemidos da já citada “Doce Vampiro” reapareciam na irremediável “Caso Sério”, aquela do “sanduíche de gente”. O amor de Rita & Roberto, suas intimidades, era vertidos em poesia e calor, “empapuçados de amor numa noite de verão”:

Até aquele roqueiro brasileiro com cara de mau elemento, um pária da periferia paulistana, estava condenado ao amor como Rita nos conta em “Ôrra Meu”, a sonzeira à la Tutti Frutti que fecha o álbum.

E o que parecia improvável se fez. A estigmatizada Rita, que chegou a ser presa nos anos anteriores, manteve a ousadia, deu um chega pra lá na censura e caiu na boca do povo: donas de casa, crianças e todas as tribos, de norte a sul, cantaram “Lança Perfume”. Ao falar certa vez do espírito livre do disco, a mulher que compunha e cantava o prazer de ter prazer com ela mesma disse que aquela canção era “uma coisa de suor, de cheiro” – “um cheiro de coisa maluca”, um império dos sentidos literalmente falando.

Os sentidos estavam no som, no toque e no visual. A imagem de uma Rita linda e diva num figurino esvoaçante na capa assinada por Norma Kamali é um ícone pop.

Falamos acima de 1 milhão de cópias do álbum vendidas somente no Brasil… Pois é. “Lança Perfume” foi hit #1 nas paradas da Franças por semanas. Arrebatou a Europa toda, a América Latina, os Estados Unidos, arrombando a festa na Billboard, passou pelo Japão e até por Israel. As versões ganharam vários idiomas, mas a original é totalmente, nunca perdeu seu brilho e calor. E o pop brasileiro nunca mais seria o mesmo. Confiram a versão de “Lança Perfume” em francês (“Question de Choix”), gravada por Henri Salvador:

O casamento musical de Rita e Roberto produziu pérolas que extrapolaram o rock, pois ousar nunca foi problema para o casal. E assim nasciam canções aboleradas, algumas assumidamente bossanovistas, outras caindo na rumba, no jazz, no reggae, no R&B para desembocar de novo na matriz roqueira da artista. Rita Lee pode tudo. E ainda bem!

Outra canção a fazer história no álbum foi a onírica “Baila Comigo” (não por acaso, Rita conta tê-la concebido em um sonho). basta conferir a letra psicodélica em que se transmuta em semente, em índio, em pássaro. A liberdade num banho de sol. Relembre aqui numa apresentação de Rita ao vivo no especial Rita Lee Jones exibido pela TV Globo em em 1981:

Além da inspirada safra de canções da dupla, “Rita Lee” (1980) trazia consigo a força do conjunto, do time por trás da empreitada. produção de Guto Graça Mello e de Roberto de Carvalho (também na guitarra, violão, piano e sintetizador). Magos de estúdio faizeram magia com seus instrumentos: Lincoln Olivetti pilotando pianos, sintetizadores, bass synth e minimoog consolidava ali um estilo que marcaria época e faria dele uym dos mais requisitados produtores da cena musical. E ainda tinha Robson Jorge (guitarra), Jamil Joanes (baixo), Picolé (bateria), Chico Batera (cowbell, timbales e marimba), Cláudia Niemeyer (baixo), Naila Scorpio (percussão) e Lulu Santos, que assinava como Luis Maurício (baixo), entre outros. Rita e essa turma toda era, literalemnte, um caso sério. A cantora ainda gravou flauta, castanholas, assovio, tabla síria e minimoog. Sem esquecer do apito em “Lança Perfume”, creditado na ficha técnica a Anibal, um personagem criado por Rita.

Em “João Ninguém” havia um rei pé-de-chinelo, gente de bem e dono do aldeia. Esse alguém era ninguém menos do que João Baptista Figueiredo, o ditador de plantão naqueles anos. A letra persiste até hoje como um alerta para governantes caricatos (que estão aí até hoje), aqueles que “quanto mais tem, mais quer” – o tipo que só pensa em se dar bem. Para quem não lembra da música, ouça com atenção a fala debochada de Rita que ganhou ares assustadoramente atuais “Brazil no jungle/ Brazil is money/ Money is good/ No money, no good”. Não lembra? Vamos ouvir em mais uma performance no especial Rita Lee Jones:

Rita Lee tem um dom. O de viajar para qualquer ponto do universo  e nos levar junto. Como na delicada “Shangrilá” (“Se me der na telha sou capaz / De enlouquecer / E mandar tudo pr’aquele lugar / E fugir com você pra Shangrilá”). Leva a gente, Rita!

Em “Nem Luxo Nem Lixo” – outro super hit! – Rita, naquela “canoa furada, remando contra a maré”, canta dois pedidos: saúde, pra gozar no final. E imortalidade. Ora, isso ela já tem! Basta ouvir a versão que Marina Lima – uma legítima discípula de Rita gravou justamente para esta canção em arranjo que sacudiu as pistas de dança mostrando o vigor da obra da nossa diva ruiva:

O icônico álbum 'Rita Lee', de 1980, ganha edição especial em vinil branco - Foto: Divulgação
O icônico álbum ‘Rita Lee’, de 1980, ganha edição especial em vinil branco – Foto: Divulgação

Quarenta anos depois, sim isso mesmo! E o álbum “Rita Lee”, de 1980, um patrimônio da música popular brasileira, é relançado pela Universal Music numa edição especial em vinil – um convite irresistível para que a gente volte no tempo, para relembrar uma fase incrível de uma estrela de brilho próprio, colocar a bolacha branca (isso mesmo! Um vinil branco com selo dourado, como na imagem ao lado) na vitrola, devorar o encarte com as artes originais. Uma excelente audição para todos!

Crédito da foto em destaque: Guilherme Samora

 

 

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