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Sem Genival Lacerda, o duplo sentido perde o sentido

Por Carlos Monteiro

Severina Xique-Xique enlutou, enlutaram também o Gato Tico e o Jegue. Morreu, aos 89 anos, Genival Lacerda o Rei do Duplo Sentido. O cantor e compositor paraibano, nascido em Campina Grande, interior da Paraíba, em 1931, foi autor de grandes sucessos do forró, como: “Severina Xique Xique”, “Rock do Jegue”, “Mate o Véio Mate”, “O Chevette da Menina”, “O Gato Tico”, “De Quem é Esse Jegue”, “Radinho de Pilha”, “Julieta”, “O Kiko Cheiroso”, “Vizinha Fofoqueira”, “A Véia Debaixo da Cama”, “De quem é esse jegue?” e tantas outras pérolas do humor e da alegria que tanto encantaram o povo.

Vítima de complicações da Covid-19, estava internado na Unidade de Terapia Intensiva – UTI, há 38 dias, em um hospital da capital pernambucana, onde morava nos últimos 25 anos, no bairro de Boa Viagem, na zona sul da cidade, com um de seus filhos – João Lacerda. Em maio deste ano teve um AVC – Acidente Vascular Cerebral e vinha se recuperando apesar da hipertensão e diabetes. Antes de contrair a doença, comandou em 24 de julho participou de uma live no YouTube:

Genival Lacerda, seu cunhado Jackson do Pandeiro e um maiga da família - Foto: Reprodução
Genival Lacerda, seu concunhado Jackson do Pandeiro e um amigo da família – Foto: Reprodução

Ao longo da carreira gravou mais de 50 discos. Bebeu em fontes como Luís Gonzaga e Jackson do Pandeiro, seu parente distante – a irmã do ‘Rei do Ritmo’ era casada com o irmão de Genival. Em 1978, gravou “Tributo a Jackson do Pandeiro” em homenagem ao concunhado.

Seu primeiro LP foi lançado em 1964, pela Continental, já no Rio de Janeiro quando cantava e tocava seu acordeom em várias casas de forró cariocas –“ Rei da Muganga” foi um sucesso. Com músicas como “Palavras do Vovô”, “O Dedo De Deus”, “O Casamento Deu e Maria”, tocou bastante nas rádios do Nordeste brasileiro. De lá para cá, emplacou vários êxitos. Em 1970 chegou a gravar um disco em parceria com o ator paraense Lúcio Mauro – “As Trapalhadas de Cazuza e seu Barbalho”.

Suas músicas com duplo sentido alavancaram a carreira. Em 1975, lançou o álbum “O Senador Do Rojão ‎– Aqui Tem Catimberê” com a música carro-chefe “Severina Xique-Xique”, em parceria com João Gonçalves, que resolveu comprar boutique para a vida melhorar. “Ele tá de olho é na boutique dela, ele tá de olho é na boutique dela…” diz a letra. O Brasil inteiro cantou. Vendeu mais de 850 mil cópias.

Em 1979, lançou “Rádio de Pilha”, que foi dado de graça. “…Mas ela deu o rádio/Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio/Ela deu, sim, foi pra fazer pirraça, mas ela deu de graça/O rádio que eu comprei e lhe presenteei//Ela deu o rádio e nem me disse nada, ela deu o rádio/Ela deu, foi pra fazer pirraça/Ela deu de graça/O rádio que eu comprei…”, atualizada em 2016 para “Me Dê o Seu Wi-Fi”, que você ouve aqui:

Sempre renovando, em 1995 lançou “Forró Dance” com músicas inéditas e velhos sucessos remixados e sampleados. “Julieta”, aquela do “Julieta-ta, tá me esperando, ganhou uma versão dancing.

Com capas politicamente incorretas, na sua maioria com modelos de biquinis em poses sensuais acompanhadas do cantor, apostava na sonoridade e cacofonia para dar sentido ao duplo sentido de suas letras. O maior exemplo é “Gato Tico”: “…O tico tem um defeito/Que nem da pra consertar/O defeito do tico/É que é danado pra miar//Tico mia na sala,/Tico mia no chão/Tico mia na cozinha, encostado no fogão/Tico mia no tapete, Tico mia no sofá/Tico mia na cama, toda hora sem parar//Tico mia no colo, Tico mia no chão/Tico mia sentado, em frente à televisão…”.

No documentário “O Rei da Munganga”, lançado em 2008 e dirigido pela documentarista carioca Carolina Paiva, sua história é mostrada em uma turnê pelo Nordeste brasileiro, sua relação com aquela região e seu povo, e que você assiste aqui:

Com Ivete Sangalo, em 2010, gravou “O Chevette da Menina”. O refrão “Coitadinha da Ivete./Facilitou, estragaram seu Chevette./Mas coitadinha da Ivete./Em menos de uma semana, estragaram o seu Chevette…”, foi mote para o dueto. Em seu álbum “Por Onde Andará Stephen Fry” (1997), Zeca Baleiro recebeu Genival para gravar o techno-xaxado “O Parque da Juraci”, uma brincadeira com o filme quase homônimo de Steven Spielberg. Vejam o divertido clipe oficial:

O céu está em festa, na Terra não deu tempo de trocar as pilhas.

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