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Sérgio Ricardo sai de cena, aos 88 anos

A música, o cinema e a cultura brasileira como um todo acordaram mais tristes na manhã desta quinta-feira (23) com a morte de um dos nossos mais múltiplos artistas. O cantor, compositor, escritor, ator e cineasta Sérgio Ricardo, aos 88 anos. O autor da trilha sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), obra-prima de Glauber Rocha, estava internado no Hospital Samaritano desde abril. A causa da morte foi insuficiência cardíaca. Sérgio havia contraído a Covid-19, mas havia se curado da doença em maio. Mesmo assim, precisou continuar no hospital por complicações em sua saúde. O enterro deve acontecer na tarde desta sexta, no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador. Por conta da pandemia em que nos encontramos, a cerimônia ficará restrita à família. Mas nosso sentimento de celebrar sua vida a partir de sua memória. Oitenta e oito anos muito produtivos. João Lufti (seu nome de batismo) deixou ao Brasil 21 álbuns (sendo quatro coletâneas, seis filmes e quatro livros,

Sérgio Ricardo rompeu com os colegas da Bossa Nova, de quem cobrou engajamento político - Foto: Reprodução
Sérgio Ricardo rompeu com os colegas da Bossa Nova, de quem cobrou engajamento político – Foto: Reprodução

Sua colaboração com o Cinema Novo foi muito além das partituras, pois o artista – um apaixonado pelo cinema – começou a dirigia seus próprios filmes como o curta O Menino da Calça Branca” (1962)” e seu longa de estreia “Esse Mundo é Meu” (1964). “A síntese do meu cinema sempre foi a exploração da sociedade pelo capitalismo. Sou o que se chama de ‘uma pessoas de antigamente’, um artista formado pela Nouvelle Vague, o movimento moderno dos franceses que libertou o cinema da dependência da técnica e da questão econômica, em nome da linguagem. E eu ainda sigo o que aprendei nos filmes daquela turma de franceses”, disse Ricardo, ao lançar um olhar sobre sua própria trajetória, numa de suas participações no Festival de Tiradentes (MG).

No início dos anos 1960, em paralelo a experiências cinematográficas, Sérgio Ricardo participou do Movimento de Música de Resistência, promovido pelo Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes (UNE), um dos marcos da resistência á ditadura militar. Participou dos festivais da canção que marcaram a música brasileira dos anos 1960. Ficou marcado por quebrar o violão e jogar na direção da plateia quando a execução de sua “Beto Bom de Bola” foi inviabilizada pelas vaias que dominavam o auditório durante o Festival da Record, em 1967:

Paulista de Marília, Sérgio estudou piano desde pequeno. Aos 17 anos, tocava em boates de São Paulo. Em 1952, passou a viver no Rio. Em 1958, por intermédio de Miele, foi apresentado a João Gilberto na casa de Nara Leão, nas origens da Bossa Nova. Seu LP autoral “A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo” (Odeon) foi um dos primeiros álbuns do movimento nascente. Sérgio Ricardo esteve entres os participantes do histórico show de 1962 no Carneggie Hall, em Nova York,  que projetou a Bossa Nova para o mundo. Sempre muito politizado, rompeu com os bossanovistas a quem dizia faltar engajamento político.

É nesse momento que sua ligação com a geração do Cinema Novo torna-se mais estreita. Em 1968, estreou como ator na peça “Sérgio Ricardo na Praça do Povo”, dirigida por Augusto Boal. Em seguida, apresentaria um programa de variedades no horário nobre da TV Globo, às quartas-feiras, chamado “Sérgio Ricardo em tempo de avanço”. O programa teve vida curta, pois o artista deixou a emissora após muito bate-boca com Boni que insistia em baixar o nível do programa, para torná-lo popular.

Em 1974, Sérgio Ricardo apresentava sua principal realização no cinema, o longa-metragem, “A Noite do Espantalho”, que tinha no elenco os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo. O trabalho foi premiado pelo Instituto Nacional do Cinema, ganhando duas estatuetas da Coruja de Ouro nas categorias melhor fotografia e melhor trilha sonora. O filme também foi laureado como melhor filme, melhor fotografia, melhor direção e melhor ator no I Festival de Cinema Brasileiro de Belém. Durante o Festival de Nova Iorque,a crítica internacional classificou o longa como um dos 15 melhores do ano. Ouça aqui a trilha sonora do longa:

Outro aspecto importante da trajetória de Sérgio Ricardo foi sua presença no movimento em prol dos direitos autorais dos músicos. Ao lado de colegas como Aldir Blanc, Jards Macalé e Maurício Tapajós, ajudou a fundar, em 1974, a Sombrás.  autorais. Em 2011, esteve na linha de frente de um movimento pela modernização do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

Sua contribuição ao cinema teve o reconhecimento da Cinemateca Brasileira, que restaurou as cópias 35mm de seus filmes, que foram lançados em DVD pela Lume Filmes em 2014. A digitalização de sua filmografia serviu de base para o show audiovisual “Cinema na Música de Sérgio Ricardo”, dirigido por sua filha, Marina Lutfi, no qual uma banda executava ao vivo as trilhas sonoras do seu repertório junto à projeção das cenas sobre o palco. O espetáculo virou um DVD, produzido por Cacumbu, Canal Brasil e Biscoito Fino. Veja o show completo aqui:

E a obra derradeira de Sérgio Ricardo foi o longa-metragem “Bandeira de Retalhos”, que começou a ser rodado em 2017 e foi lançado no ano seguinte. “É um filme político e agressivo. Tá todo mundo espezinhado, vendo o Brasil ser vendido por exterior, com essas leis todas”, disse, na ocasião, ao jornal Folha de S. Paulo. Em 2019, lançou o livro de poemas “Canção Calada”, contendo 139 poemas escritos desde a década de 1980, e mais alguns desenhos pessoais.

A nota da família

Veja, abaixo, a nota da familia do artista: “Hoje pela manhã partiu nosso mestre Sérgio Ricardo, nosso amado João Lutfi, aos 88 anos de muita luta e amor, muita resistência, alegria, artes e infinitas expressões. Até os mais inspiradores guerreiros precisam descansar. Sérgio será sempre mais que Sérgio, mais que João. Estará pra sempre em toda diversidade que nos cria. Nosso compositor de múltiplos, que faz o braço ser mais que braço, a voz ser mais que voz, e o um ser um mais um”.

 

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