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Sorriso Rei mostra Mahmundi do outro lado do balcão

Uma das celebradas cantoras e compositoras da nova geração da MPB, Mahmundi sabe desde que nasceu o valor de ocupar espaços na sociedade e reafirma diariamente, por mais que diga que isso cansa, sua condição de artista, mulher e preta. “Mas sei que minha trajetória pode inspirar mais pessoas e vou repetir isso sempre que for necessário pois o povo preto quer ter dinheiro, quer poder frequentar os lugares”, diz a artista nascida no subúrbio de Marechal Hermes e que chega a mais uma conquista: tornou-se diretora criativa da Universal Music e seu primeiro trabalho está a partir de hoje, Dia da Consciência Negra, disponível nas plataformas de vídeo e streaming.

Jovelina Pérola Negra - Foto: Reprodução
Jovelina Pérola Negra – Foto: Reprodução

“Sorriso Rei” é um projeto feito em sua maioria por artistas e profissionais pretos que revisita grandes artistas negros de nossa música. Os dois primeiros homenageados são Gilberto Gil e Jovelina Pérola Negra (1944-1998). O baiano tem a sua “Tempo Rei” interpretada por Xande de Pilares, Léo Santana e Priscila Tossan. Já a veterana sambista terá a linda “Sorriso Aberto” regravada por Mumuzinho, Malía, Mc Zaac e Ruby.

Gilberto Gil - Foto: Gerard Giaume
Gilberto Gil – Foto: Gerard Giaume

Do outro lado do balcão, Mahmundi justifica a escolha do repertório. “São duas músicas clássicas, de pessoas pretas e de vertentes muito diferentes. Gil tem aquela profundidade e intelectualidade, mas sua sensibilidade diante do mundo faz com que suas canções tenham apelo popular. Escolhi também ‘Sorriso Aberto’, de Guará Sant’anna e interpretada pela Jovelina. Quis trazer dois universos completamente diferentes, do samba, da música do Gil, que é uma música que a gente quase não entende qual é o estilo dela. Essas duas marcaram época, trouxeram essas novidades para a comunidade dos artistas populares pretos, de histórias completamente diferentes”, acentua Mahmundi, cuja formação inicial na música se deu no meio gospel – até os vinte e poucos anos, ela praticamente nada sabia sobre a “música secular”, que é como os evangélicos se referem aos estilos musicais sem cunho religioso.

Mahmundi e Priscila Tossan no estúdio - Foto: Reprodução YouTube
Mahmundi e Priscila Tossan no estúdio – Foto: Reprodução YouTube

Ao sair de casa para viver de música, Mahmundi, nome artístico da carioca Marcela Vale, trabalhou 13 anos nas mesas de som do Circo Voador. Nos bastidores de shows de todo tipo de artistas, dominou as novas tecnologias e absorveu toda a música que pôde, sem preconceitos para ouvir e, obviamente, para criar. “Esse distanciamento me permite mexer na música sem qualquer pudor”, explica ela, ao falar dos arranjos do projeto em que se percebe uma “Tempo Rei” suingado que flerta tanto com o samba quanto com os ritmos eletrônicos ou a “Sorriso Aberto” que pede licença ao samba de fundo de quintal para vestir tecidos sonoros do século 21. “Foi um desafio, pois é difícil mixar um samba como se fosse trap, mas a música vai acontecendo. Os sintetizadores entram e a música simplesmente vai acontecendo”, avalia. Ouça aqui os singles de “Tempo Rei” e “Sorriso Aberto”:

Além dos dois singles, serão ainda divulgados dois clipes e um documentário, dirigido por Yasmin Thayná, cineasta carioca que recebeu o prêmio de “Melhor Curta-metragem” da Diáspora Africana da Academia Africana de Cinema (AMAA Awards 2017). O documentário “Sorriso Rei” registra os bastidores da gravação dos dois singles do projeto e traz depoimentos dos artistas participantes do projeto e importantes reflexões sobre a presença do povo preto na sociedade e na cultura brasileira. Assista aqui:

Os artistas negros que atuam no projeto são todos do casting da Universal, mas foram recrutados, um a um, em conversas telefônicas pela produtora, que diz ter adorada a convivência em estúdio com colegas de diferentes partes do Brasil e de gerações, cada um com sua história, cada um com sua voz que precisou ser adequada aos tons escolhidos para os arranjos. “Ela mandava as vozes-guia no tom definido gravadas por ela mesma”, conta a mineira Ruby, de 24 anos, e que está para lançar em 2021 seu primeiro álbum com foco em soul em R&B. “Sou uma produtora que canta. Isso ajuda os intérpretes”, filosofa Mahmundi, extremamente empolgada com a nova fase em sua carreira.

Mahmundii torce para que o projeto Sorriso Rei gere novos frutos - Fotos Lucas Nogueira
Mahmundi torce para que o projeto Sorriso Rei gere novos frutos – Fotos Lucas Nogueira

A produtora de primeira viagem conta que nos dias que antecederam as gravações das faixas de Sorriso Rei em estúdio ela parou de namorar e até mesmo de ouvir playlists no Spotify, “para não receber influências de fora”.

Mahmundi torce para que esse pacote de lançamentos seja o início de um projeto maior. “O plano é que ‘Sorriso Rei’ seja o pontapé inicial para vários projetos que a gente pretende fazer junto da Universal, porque eu amo fazer isso, eu amo música. E é maravilhoso estar perto de uma nascente de música. Eu quero muito explorar isso, ter mais artistas, aprender nesses processos e produzir as minhas músicas”, avisa.

Ao falar sobre consciência negra, Mahmundi, aos 34 anos, mostra maturidade e indignação permanente sobre a condição do negro numa sociedade que ainda cultiva o racismo. “Eu até esqueço esta data porque a minha vida já é todo dia uma vida de consciência negra. Amanheci esses dias com a notícia de que Cadu Barcellos, um cara da minha idade, foi esfaqueado voltando de um evento na Lapa. Isso deixa a gente muito triste, porque Cadu era um cineasta, era um parceiro, pra mim, essa coisa da consciência negra é todos os dias, quando a gente perde um dos nossos amigos, quando a gente perde mais uma pessoa vítima de suicídio, vítima de problemas, desemprego, problemas de saúde mental, o próprio racismo”, critica.

“Então, para mim, o plano com ‘Sorriso Rei’ é mostrar para a molecada que tem muita coisa acontecendo, muita coisa para se orgulhar e para celebrar. Nem vou ficar me apegando ao 20 de novembro, que acho que é uma data importante, em que a gente afirma isso para o Brasil, para o mundo, mas todo dia para mim é dia 20 de novembro”, afirma a cantora, ganhadora do Prêmio Multishow de 2014 na categoria Nova Canção com o single “Sentimento” e que já gravou três álbuns: “Mahmundi” (2016), “Para Dias Ruins” (2018) e “Mundo Novo” (2020). Em 2019, foi indicada ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa com “Para Dias Ruins”.

 

 

 

 

 

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Mahmundi e seu eterno aprendizado

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