Samba

Tunico da Vila fardado para sambar

Assim como seu pai, o cantor e compositor Tunico da Vila serviu o Exército. E a música brasileira agradece que tenha parado na patente de soldado para logo ser promovido a oficial combatente do samba. “Meu pai chegou até o posto de sargento. Mas eu saí rapidinho. Serviu como experiência do que eu não queria ser na vida”, comenta o artista neste 31 de março tão cheio de lembranças tristes mas necessárias para que o Brasil não cometa os mesmos erros do passado.

Tunico se recorda de chegar ao bairro dos bambas que nos deu Noel Rosa e Martinho da Vila e ouvir o conselho de Mestre Trambique, ensinava percussão para a criançada da escola de samba. “Ele me viu de farda e disse: ‘ô Tunico, se liga, sua farda é outra’. Senti o recado e fui tocar atabaques, depois ser percussionista, cantar samba que é a minha bandeira e carregar o meu pandeiro, a minha arma”, disse ele.

Tunico faz releitura de sucesso do pai

Com seu porte de pandeiro em dia, Tunico da Vila prepara um novo clipe. Trata-se de uma releitura de “Quero,Quero”, samba gravado em 1977 pelo pai Martinho. Versos ousados para época tais como “sou errado, sou perfeito, imperfeito sou humano, sou um cidadão direito e meu direito é soberano” ganham o reforço das rimas dos rappers BK, Dexter, Rappin Hood, Kamau, Rashid, o coletivo Melanina Mc´s e o próprio Martinho.

O samba, antecipa Tunico, ganha o reforço rítmico do hip hop e um pouco da pegada melódica do soul, dando à canção uma roupagem de samba-funk, bem atual.

E essa contemporaneidade aparece no clipe recheada de mensagens sobre liberdade e direitos humanos não apenas dos cantores, dos depoimentos de personalidades da música, intelectuais, artistas, professores e sambistas que falam o que querem-querem para as futuras gerações, entre os quais Pedro Bial, Sabrina Sato, Dudu Nobre, Carlinhos de Jesus, Flávio Migliaccio, Érico Brás, Daniela Sarahyba, Flávia Oliveira, entre outros.

O carinho e generosidade de Tunico fez com que estendesse o convite a este jornalista travestido de blogueiro. Nem preciso dizer que aceitei a convocação na hora, me alistando nesse mutirão pela liberdade.

“O samba fala do querer humano, do participar, do grito pelos direitos soberanos unindo samba e rap, duas culturas negras mensageiras. Acabou se tornando um desabafo coletivo, em tempos abafados para quem aprendeu sobre liberdade como eu. Convidei amigos e amigas para desabafarmos juntos, cada um ao seu modo. Na filosofia africana é assim, todo mundo junto, a música, a poesia cantada, libera energias e forças para um mundo melhor”, argumenta Tunico.

Ao aproximar a clássica letra de 1977 do universo rap, o artista sonha, pois os sonhos deles são necessários, em estimular os jovens à refletirem sobre o Brasil e o mundo em que vivemos. “Em tempos de resistir, de falta de afeto, de armamento, sandices é preciso enviar mensagens para quem está vivendo, querendo, lutando, para poderem continuar a sonhar, desejar e amar. Essa é a nossa potência, sem isso não há respiro para a alma. A música cumpre esse papel em qualquer tempo”.

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