Análise

A Revolução dos Cravos e sua trilha sonora

Revolução dos Cravos

Por Sophia Magalhães

Em nosso país o mês de abril é lembrado pelo malfadado golpe empresarial-militar que nos lançou num  período de 21 anos de ditadura. Os militares insistem em chamá-lo  “revolução” e passaram a comemorá-la no dia 31 de março para fugir ao dia da mentira. Sabemos que foi golpe o movimento militar deflagrado em primeiro de abril de 1964, dia chuvoso e triste em que as crianças ficaram sem aulas e nas ruas só se viam tanques de guerra com soldados que pareciam intimidar todos aqueles que insistiam em sair de casa, desobedecendo as ordens do comando militar. Num mesmo mês de abril, em 1974, portanto dez anos depois, dia 25, triunfava em Portugal a Revolução dos Cravos rompendo com o regime ditatorial que havia durado mais de quatro décadas – o regime salazarista. Restabelecia-se ali a liberdade democrática que promoveria transformações sociais em todo o país.

Nesse dia, uma emissora de rádio portuguesa deu a senha para o início da revolução ao tocar a música “Grândula Vila Morena”, de Zeca Afonso, que fora proibida pela censura salazarista. De imediato, um levante militar depôs Marcelo Caetano colocando no poder o general Antonio de Spínola.

Lá os militares, verdadeiramente revolucionários, foram representados pelos lendários capitães de abril enquanto a população agradecida saía às ruas distribuindo aos soldados a flor nacional: os cravos. E eram cravos vermelhos, da cor do sangue, da cor da luta que travavam contra o regime que os oprimiu por tanto tempo.

Neste 25 de abril comemoramos o aniversário desse movimento. Em 46 anos Portugal mudou bastante. Arrefeceram-se os arroubos socialistas de 74, mas governos progressistas contribuíram para que o país deixasse de ser o patinho feio da Europa. Tornou-se um país moderno e, apelando para acordos e geringonças políticas, como lá eles nomeiam as coalizões partidárias, ainda conseguem se equilibrar numa estabilidade capaz de garantir um padrão de vida razoável aos seus habitantes e a um número avassalador de imigrantes – em sua maioria brasileiros – que para lá se dirigem.

Em 2009 morei em Portugal por seis meses. No bairro conservador de classe média onde residi encontrei pessoas que ainda nutriam ódio ao regime implantado em 1974. Em geral eram idosos e fãs de Amália Rodrigues que, de certo modo, era reconhecida como simpática à causa salazarista. Pessoalmente, eu tinha de Amália a melhor das impressões por causa de minha avó portuguesa que a adorava e comprava todos os seus discos. Cresci ouvindo Amália. “Não sei, não sabe ninguém/Por que canto o fado/Neste tom magoado/De dor e de pranto/ (…) Foi Deus/Quem me pôs no peito/ Um rosário de penas/ Que vou desfiando/E choro a cantar…”

No período em que morei em Lisboa ampliei meu repertório. Conheci Mariza, Ana Moura, Camané, Cuca Roseta, Carminho… Mas foi Carlos do Carmo quem me fisgou. Além do repertório tradicional e de uma voz belíssima, Carlos do Carmo não apenas se proclamava, mas era tido pelos mais antigos como ‘comunista’, palavra que muitos pronunciavam com cara de nojo.

Ao saber disso, corri a comprar os CDs de Carlos do Carmo, que, infelizmente, nos deixou em janeiro deste ano. A partir de então, passei a travar uma verdadeira guerra musical com os vizinhos ‘amalistas.’

Era um ‘Foi Deus’,  ‘Nem as paredes confesso’ pra lá; ‘Lisboa menina e moça’, ‘Por morrer uma andorinha’ pra cá… De facto, (para usar o português deles) não nos entendíamos. Bobagem! Quando estive no Museu do Fado (incrível!) me acabei com Amália e outros tantos fadistas que nem conhecia, mas passei a amar.

Mas voltemos ao 25 de abril que hoje se comemora. E, como não poderia deixar de ser, minhas memórias são impregnadas de mementos musicais. Fico com dois para lembrar Portugal, do 25 de abril e dos amigos comunistas que lá deixei: “Grândula Vila Morena”, de Zeca Afonso e “Fado Tropical”, de Chico Buarque e Rui Guerra que, certamente, compuseram a canção nos idos dos 70 quando sonhavam com uma revolução parecida por aqui. Uma Revolução dos Cravos temperada com esse pouquinho de Brasil, iáiá…

Nossa revolução não veio. A ditadura caiu em 1985 e o que vimos foram acochambramentos políticos que, ao contrário da geringonça portuguesa, colocaram no poder liberais que se julgavam democratas. Vá lá que fossem, não nos convenceram. Tivemos nossa redenção em 2002 quando um operário chegou ao poder e seu partido, o dos trabalhadores, lá se manteve por mais de uma década.

Mas, como a história não é linear, mas dialética, feita de avanços e recuos, nossa democracia durou pouco. E hoje vivemos um verdadeiro pesadelo tendo à frente um capitão das trevas, incapaz, fascista e desumano.

Que os capitães de abril portugueses, agora idosos ou já falecidos, possam nos inspirar para que superemos o horror que nós, seus ‘irmãozinhos’ dos trópicos estamos a viver. E que a festa volte a ser bonita, ó pá! Vamos cantar e celebrar a revolução do Além Mar com seu cheiro dos cravos e do alecrim!

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