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A Santíssima Trindade e a praça da Velha Guarda

Donga, Pixinguinha e João da Baiana, a Santíssima Trindade do samba - Foto Reprodução

Por Jair Martins de Miranda*

Pixinguinha, João da Baiana e Donga são personagens de importância incontestável na história do samba, do carnaval carioca e, consequentemente, da música e cultura popular brasileiras: desde participações no Grupo do Caxangá (1913), passando pelo Oito Batutas (1922) até integrar o Grupo da Guarda Velha (1931) e o conjunto da Velha Guarda (1956), foram protagonistas de um movimento musical que fundou, em paralelo e à revelia do movimento intelectual e modernista de 1922, um outro movimento cultural por meio de uma música popular genuinamente brasileira, ainda hoje moderna, com várias obras de sucesso que transitam da vanguarda de então à velha guarda de hoje.

Como se não bastasse todo esse legado, há muito referendado, gravado e regravado por seus contemporâneos e atuais admiradores, foram amigos inseparáveis e músicos excepcionais nos muitos momentos marcantes da nossa música: a exitosa excursão para Paris com Os Batutas, por exemplo, prevista para um mês, se estendeu por mais cinco meses, tamanho o sucesso, a aceitação e o reconhecimento externo daquela nova música brasileira, naquela capital cultural da Europa. Não é à toa que esse trio ficou consagrado e conhecido como a “Santíssima Trindade”, tamanha foi sua influência na formação da música brasileira.

Fundadores do samba urbano no Rio

Pixinguinha, João da Baiana e Donga, a Santíssima Trindade do samba - Foto Reprodução
Pixinguinha, João da Baiana e Donga, a Santíssima Trindade do samba – Foto Reprodução

Portanto, não é surpresa se hoje em dia essa santíssima trindade, uma entidade quase religiosa, seja venerada por uma legião de músicos e admiradores mundo afora: afinal, tanto Donga, como João da Baiana e Pixinguinha podem ser considerados como os legítimos fundadores do samba urbano no Rio de Janeiro ao participarem como os principais protagonistas das festas e rodas de samba na casa da Tia Ciata, das gafieiras e dos bailes da Lapa e do Centro da Cidade do começo do século XX, quando a musicalidade do lundu, do maxixe, do samba e do chorinho passaram a dominar a noite Carioca, a era de ouro do rádio, a época dos cassinos e dos dancings e mesmo o começo da bossa-nova quando Tom Jobim e Vinicius participavam com eles de encontros memoráveis.

Foram também, juntos ou separados, personagens importantes na popularização do samba e do carnaval ao estenderem para as ruas da cidade, aquele nascente caldeirão cultural brasileiro, consagrando sucessos musicais que se eternizaram no cancioneiro e imaginário popular, a começar pelo estrondoso sucesso de “Pelo Telefone”, de Donga, no carnaval de 1917.

Há de se reconhecer, sem dúvida, o mérito desse trio por uma renovação e evolução da música brasileira, mas também, e em especialmente, por terem inaugurado um movimento de valorização do samba e de  profissionalização dos músicos de samba e choro, até então marginalizados pela sociedade racista, burguesa e afrancesada daquele momento. Até porque nem tudo foi fácil para esses desbravadores.

A reação contra a “Santíssima Trindade”

É digno de nota, por exemplo, a reação de alguns intelectuais, escritores e jornalistas da época, que, a contragosto daquela renovação, consideravam um acinte para a cultura brasileira, o choro, o samba e um grupo de “pardavascos” – forma pejorativa que se referiam a eles, como músicos negros – representarem o Brasil e a música brasileira em Paris, naquela temporada de sucesso dos Batutas.

Por tudo isso e por muitas outras contribuições que Donga, João da Baiana e Pixinguinha nos legaram – e, que por questões de espaço, não cabem neste breve artigo –, é que essa “Santíssima Trindade”, merece todas as honras e homenagens. Basta observar nos dias de hoje a dimensão que o samba tomou na cultura dos brasileiros, especialmente nas casas de show surgidas no bairro boêmio da Lapa, a partir da sua revitalização na década de 1990.

Praça na Lapa é homenagem que ficou no papel

Sobre a homenagem a essa Santíssima Trindade, tenho a dizer que ela existiu na Lapa, mas infelizmente ficou incompleta. Explico: o prefeito Luiz Paulo Conde aceitou a minha sugestão de homenageá-los e com o decreto 17.104, de 20 de outubro de 1998, nomeou como Praça da Velha Guarda a área sob os Arcos da Lapa, entre a rua Mem de Sá e a Ladeira de Santa Teresa, onde aconteciam as rodas de samba do Restaurante Arco da Velha, mas logo depois o restaurante fechou e a praça nunca foi sinalizada, nem instalado o mural-memorial (ilustração) sugerido à Prefeitura em várias ocasiões.

Considerando a importância desse trio para a nossa cidade, nitidamente musical, fica aqui a sugestão para a Prefeitura ou para quem se interessar em completar essa homenagem, sinalizando a praça e instalando o mural-memorial, justamente no bairro onde Donga, Pixinguinha e João da Baiana fizeram muita música, muita história e ainda inspiram muitos músicos e deliciam muitos amantes da música brasileira. Nunca é Tarde!

 

*Jair Martins de Miranda – É doutor em ciência da informação pela UFRJ e professor associado do Departamento de Arquivologia do Centro de Ciências Humanas e Sociais da UNIRIO. Coordenador do projeto Memorável Samba, foi proprietário do Restaurante Arco da Velha, no início da revitalização da Lapa, na década de 1990. É colunista no site Negrxs 50 Mais, que aborda vários aspectos da cultura negra.

 

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