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‘Adeus Ano Velho’, a canção chiclete, faz 70 anos

Por Carlos Monteiro – texto e foto

 

Davi Nasser - Foto: Reprodução
Davi Nasser – Foto: Reprodução

Sucesso anual de um dia, nunca uma música fez tanto sentido e foi tão aguardada, ainda mais, em se tratando de um hino ao “Ano-Novo”, alguma coisa meio piegas, massificada, sempre presente nos comerciais de fim de ano das Organizações Tabajara, mas que esse ano dará o tom da festa.

A valsa “Fim de Ano”, mais conhecida como “Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo”, composta por David Nasser e Francisco Alves, é figura carimbada em toda a virada de ano. Toca à meia-noite, toca nas chamadas, toca ao meio-dia, e como toca, parece estar randômica em todo 31 de dezembro. É uma espécie de “Então é Natal” na versão ‘réveillon’. É chiclete, todo mundo sabe a primeira estrofe de cor, salteado e de trás para frente e vice-versa. Mesmo que não goste você vai cantarolá-la. Não tem jeito.

Foi gravada em 1951 pelo cantor paulista João Dias, portanto, faz exatos 70 anos em 2021. São setenta anos desejando dinheiro no bolso, realizações e, o mais importante para estes tempos de pandemia; saúde! Muita saúde, ‘pra’ dar, vender, emprestar, alugar, consignar, arrendar e, até quem sabe, distribuir plenamente. Pura Tia Rita tão cansada de lero-lero, tão cheia de graça, fazendo tanta gente feliz. Confira a gravação original:

Quero mais saúde!

Nossa Rainha Mutante, genuíno rockin’ roll, vai além: quer saúde, pede saúde. Tanta metamorfose ambulante de opiniões formadas sem nada saber para esse tal de mundo melhor, tanta insensatez, negacionismo e fórmulas de Merlin cloroquinadas em pirlimpimpim, Madame Lee decreta: “…Mas ninguém sai de cima, nesse chove não molha/Eu sei que agora eu vou é cuidar mais de mim…” porque não é a gripe do amor. É isso, mais saúde, menos jacaré-do-papo-furado-verde-amarelo-patriótico.

 

Voltando à valsa “Fim de Ano”, a segunda estrofe da canção-réveillon, totalmente desconhecida pelo público e que a maioria não sabia existir, faz votos de felicidades aos desacompanhados e acompanhados: “…Para os solteiros, sorte no amor/Nenhuma esperança perdida/Para os casados, nenhuma briga/Paz e sossego na vida.”, mas o amor, a sorte, a esperança, a paz e o sossego devem ser para todos. A esperança de que tudo vai ficar bem, que não usamos o lugar-comum ‘dias melhores virão’ em vão, à toa.

O povo chora por tanta gente boa que partiu nesse rabo de foguete, chora com tanta tristeza, tanta indiferença, tanta falta de humanidade, tanta incompetência e intolerância, tanto egoísmo e vaidades. O povo sofre com o descaso do ‘e daí, com as mazelas do dia a dia, com ‘pra que tanta ansiedade’.  O povo sofre. O povo roga por melhoras, o povo só quer ser feliz. Pai, afaste de nós esse cale-se em forma de cálice que nos amordaça, que nos sufoca, que provoca este nó na garganta, que nos tira o sorriso.

Vamos gritar para 2020, quando os ponteiros se cruzarem para às doze badaladas de um novo tempo, à plenos pulmões: “vaza, sai fora, já deu, te manda, chispa daqui, dá o pira, pega o beco!”. Vamos iniciar o novo ciclo ansiando pelas vacinas, pela responsabilidade dos governantes, pela cura, pelo arrefecimento da pandemia, pela diminuição das desigualdades. Por um mundo melhor. Aí vem um novo dia, de um novo normal. Talvez nada seja como antes, e o amanhã? O depois de amanhã? Um Menestrel, quem sabe, um saltimbanco cheio de amor no coração, espalhando esperança, transformando sal em mel, falando a língua do povo, cavaleiro cavalheiro, enchendo de esperanças o Brasil, essencialmente Bituca.

A música dessa passagem de ano vai ser diferente, vai ser  para um novo tempo em que as brumas sejam dissipadas pelo Sol, que brilhará mais uma vez, queimando as sementes do mal. Uma música de esperanças renovadas, de novos momentos em paz. Que fale de amor, em recomeço, que fale mais alto ao coração: “No novo tempo, apesar dos castigos/Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos/Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer//No novo tempo, apesar dos perigos/Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta/Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver…”. Vai ser Lins e Martins. Vai ser saúde!

Queremos saúde, saúde para dar e vender!

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