MPB

Almério e Ney escancaram a cara do Brasil de Cazuza

Almério e Ney Matogrosso - Fotos: Ana Migliari/Divulgação

Em julho passado, em meio à pandemia, Almério recebeu um telefonema da produtora Ione Costa perguntando se ele sabia cantar “O Tempo Não Para”, de Cazuza. “Respondi que sim, que cantei essa canção a vida inteira nas noites de barzinho em Caruaru. Perguntei se ela queria que eu cantasse essa canção, que eu sabia de frente pra trás, de trás pra frente, e ela respondeu: ‘Não! Eu quero um disco de Almério cantando Cazuza’”, conta o pernambucano, uma das vozes mais celebradas na nova geração da MPB.

“Eu paralisei por alguns segundos e logo começou a surgir muita inspiração. Eu sou do Agreste de Pernambuco, nasci na cidade de Altinho, de família humilde. Era 1993 quando meu irmão, de mais idade do que eu, começou a trabalhar em Caruaru e lá ele comprou o primeiro CD: era uma coletânea de Cazuza. Dois anos depois conseguimos comprar um discman e eu ficava lendo e relendo o encarte com as letras, imaginando a força dele. Um cantor, compositor, poeta do Rio de Janeiro, cenário dos filmes, novelas, livros e músicas que eu consumia, quase inalcançável pra mim. A música do Cazuza veio me beijar e me salvar, atravessando horizontes pra descansar meu coração numa cidade perdida no mapa do planeta”, relembra Almério.

Assim nasceu o projeto em tributo a Agenor de Miranda Araújo Neto (1958-1990), o irriquieto Cazuza, um compositor cuja obra espalha contemporaneidade até os dias de hoje e que completaria 63 anos neste domingo (4), data em que chega às plataformas digitais o primeiro single do álbum “Tudo É Amor” pela Biscoito Fino.
E a faixa escolhida foi uma das mais ácidas canções do jovem bardo carioca, “Brasil”, com sua poesia urgente e visceral de Cazuza, e participação especial de Ney Matogrosso. Lançada originalmente no álbum “Ideologia” (1988), “Brasil” reverbera ainda mais nos dias sombrios que vivemos, 33 anos depois de escrita, como comenta Ney: “Fico impressionado com a atualidade do pensamento do Cazuza, não somente em Brasil; outras músicas que estão no disco do Almério também mantém a atualidade”. Confiram o single:

Almério e Ney Matogrosso - Fotos: Ana Migliari/Divulgação
Almério e Ney Matogrosso – Fotos: Ana Migliari/Divulgação

Convidado para gravar em dueto com o cantor pernambucano, que já conhecia há algum tempo, Ney destaca que foi fácil ajustar sua voz com a do pernambucano que, para muitos, é comparado a Ney por seu estilo marcadamente teatral e performático, além do poderoso timbre. “A gravação ficou muito boa”, avaliza, com a propriedade de quem conhece como poucos o universo cazuziano.

Com produção de Marcus Preto, “Tudo É Amor” tem lançamento previsto para maio. “Marcus nos sugeriu Pupillo como diretor musical, para que o disco tivesse essa pegada pernambucânica “pop rock mangue agreste”, que é como eu penso, sinto e canto Cazuza. Meu maior desafio, depois de quatro meses de pesquisa, de mergulho na obra e nas canções dele, foi encontrar um jeito próprio de cantar e interpretar o repertório que selecionamos juntos – eu, Marcus, Ione e André Brasileiro, meu produtor e empresário”, conta Almério. “Marcus nos trouxe uma equação equilibrada e poética de como pensava o disco, o repertório se divide e se complementa em 3 hits, 3 semi hits e 5 lados B. Essa base nos norteou para buscar as músicas que dialogavam entre si, criando uma narrativa”, completa.

Para Almério, “cantar ‘Brasil’ já é um mar de desafios, por muitos motivos. Eu precisava de uma voz poderosa e luminosa como a do Planeta Ney, que foi de uma generosidade e beleza de emocionar o mundo. Dois rios de gerações cantando ‘Brasil mostra a tua cara’ nessa conjuntura atual, é hastear a bandeira da esperança e da luta em cada brasileira e brasileiro”, conclui.

Além da gravação de “Brasil”, um segundo single será lançado nas plataformas antes da chegada do álbum, a ser editado pela Biscoito Fino: será a versão de Almério para “Amor Amor” (Cazuza / George Israel / Roberto Frejat), canção originalmente gravada em 1984, no lado B de um compacto simples que continha a faixa-título do filme “Bete Balanço”. Ambas foram feitas especialmente para a trilha sonora do longa-metragem.

 

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