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Arthur Nogueira e sua visão de Caetano

Arthur Nogueira - Foto: Miro

Saudado como um dos mais respeitados jovens compositores da atualidade, o paraense Arthur Nogueira deu uma pausa na produção de seu quinto álbum de inéditas para mergulhar na essência musical de um dos complexos autores brasileiros que é Caetano Veloso. A obra do baiano é revisitada sob um olhar intimista do jovem artista, que ressignifica canções do ídolo no simples, porém arrojado formato de voz e violão.

Durante a pandemia, Arthur a recebeu o convite do SESC RJ para fazer uma live interpretando as canções de Caetano nesse formato. O projeto despertou o interesse do DJ Zé Pedro, proprietário e curador da gravadora Joia Moderna, que provocou o paraense a registrar suas versões caetânicas em estúdio. “Sucesso Bendito”, música gravada por Maria Bethânia em 1984, foi a faixa escolhida para dar nome à homenagem de Arthur ao artista brasileiro que mais o inspira.

Arthur Nogueira diz que gravar as canções de Caetano sem o apoio de uma banda foi seu trabalho mais difícil - Fotos: Miro
Arthur Nogueira diz que gravar as canções de Caetano sem o apoio de uma banda foi seu trabalho mais difícil – Fotos: Miro

“O álbum é uma investigação do Brasil sob a ótica de um dos maiores artistas brasileiros. Foi o trabalho mais difícil que fiz na vida: a primeira vez que me debrucei como interprete sobre a obra de um autor sozinho sem banda ou qualquer instrumento de apoio”, explica Arthur, que conta que sempre teve receio de se apresentar desta forma por não se considerar um exímio violonista.

Curiosamente esse temor dissipou-se justamente com as palavras de Caetano após um show que o paraense fez em Salvador. “Quando soube que Caetano estaria na plateia fiquei nervoso demais. Quando ele veio falar comigo no camarim, contei que havia cometido uns erros no começo da apresentação. Ele comentou que isso sempre acontecia com ele. Foram palavras que me acalmaram e me deram segurança para seguir me apresentando em voz e violão, tanto que essa turnê acabou seguindo para a Europa”, recorda o músico.

O primeiro contato de Arthur Nogueira com a obra de Caetano se daria bem cedo. “Lembro que quando eu tinha algo em torno de cinco anos, minha família costumava passar as férias numa casa que tínhamos na Ilha de Mosqueira, nos arredores de Belém. Meu pai costumava gravar fitas cassete para tocar no carro e num certo momento, eu ouvi Caetano interpretando ‘Felicidade’, de Lupicínio Rodrigues. Pedi ao meu pai para repetir várias vezes. Aquela felicidade me deu um encantamento”, rememora Arthur, que começou a cantar e tocar na noite por volta dos 14 anos (“Meus pais precisavam ir junto”), mas só se decidiu em seguir pela carreira artística aos 21 anos, depois de gravar seu primeiro disco.

Logo depois, já no Rio, iria conhecer o ídolo de perto. “Certa noite, o Antônio Cícero, um de meus parceiros mais frequentes, me convidou para jantar. O que ele não disse era que o Caetano estaria conosco. Foi um momento especial e de lá pra cá volta e meia nos falamos ou trocamos emails”, conta.

Diferente da live, em que escolheu um repertório mais solto, Arthur selecionou as canções do disco seguindo um roteiro. “Quando eu e Zé Pedro comunicamos à Paula Lavigne sobre o projeto, o Caetano foi muito generoso e liberou toda o seu catálogo para que escolhêssemos qualquer obra. Com essa liberdade, ficou mais fácil construir uma linha narrativa”, explica o intérprete  que pinçou aquelas que considera mais associadas ao ofício de cantar como “Pronta pra Cantar”, composta para Maria Bethânia e lançada por ela em dueto com Nina Simone em 1990; ou “Força Estranha”. “Existe um fascínio e um mistério em torno do canto. O álbum é sobre essa força estranha que faz com que a gente possa acessar um lugar de grande beleza através da música”, pontua.

O repertório é elegante e ainda abarca ainda toda a dramaticidade do compositor com “Giulietta Masina” e “Drama”, e o romantismo de “Menino Deus” e “Eu te amo”. Tudo com o DNA de Arthur. “Tenho em casa songbooks do Caetano. É claro que consultei os livros, estudei as harmonias. Mas se eu optasse em fazer um cover, eu não acrescentaria nada às canções”, justifica o artista, que revela ainda não se saber se Caetano ouviu o álbum e se gostou do resultado. “Até hoje estou em duvida se devo ou não perguntar a ele. Essas coisas me travam”, confidencia.

Produzido por Alexandre Fontanetti, o álbum foi gravado ao vivo no estúdio Space Blues, em São Paulo, em 19 de junho de forma analógica, com microfones valvulados. “Gravei tudo numa tarde e escolhi o Fontanetti, que é um excelente violonista, para fazer essa captação de som”, argumenta. Em seu trabalho como engenheiro de som, Alexandre Fontanetti acumula dois Grammys Latinos em álbuns de Céu (“Apká”, de 2019) e de Nando Reis e os Infernais (“Jardim-Pomar”, de 2016).

Aos 33 anos, Arthur Nogueira acumula quatro álbuns próprios –  “Sem Medo Nem Esperança” (2015), “Presente – Antônio Cícero 70” (2016), “Rei Ninguém” (2017) e “Arthur Nogueira no Estúdio Showlive – Ao Vivo” (2019). O próximo vai se chamar “Brasileiro Profundo”, nome extraído de canção homônima em nova parceria com Antônio Cícero. “Será um álbum que fala da potência do povo brasileiro, fruto da miscigenação, o que nos faz tão especiais. E isso tem a ver com Caetano, que é um baiano, mas também carioca e cidadão do mundo”, acredita.

Como compositor teve canções gravadas por Gal Costa e Fafá de Belém. além de ter produzido os álbum “Humana” (2019), de Fafá; e “Só” (2020), de Adriana Calcanhotto. “Fafá é uma cantora de palco, uma artista popular habituada a grandes plateias, mas manifestou o desejo de gravar um trabalho que trouxesse uma contemporaneidade, de crônica desses tempos em que vivemos, e me confiou essa missão. Montei a banda e fiz a ponte entre ela e compositoras como a Letrux. No álbum, ela mostra a mulher que existe atrás do riso e ‘Humana’ recebeu muitos elogios da crítica”, destaca.

O trabalho com Calcanhotto veio meio em sequência, nos primeiros meses da pandemia. “A Adriana me convidou a produzir uma faixa, composta neste período de isolamento social. Todos os músicos teriam que gravar de suas casas. Depois da primeira, pediu mais uma e depois mais uma. Perguntei a ela se estávamos gravando um álbum ela disse que sim. Adriana montou um home estúdio, mas como ela mora numa área bem verde (no Alto da Boa Vista), todos os vocais dela vinham com alguns ruídos de grilos. Precisei tirar aquilo tudo, mas deixei um pedaço e sampleei na introdução de uma das faixas”, avisa.

“Me tornei produtor musical sem essa intenção e tive a sorte de trabalhar com duas mulheres que se entregam e que estavam dispostas a se desafiar”, comenta.

Arthur Nogueira gravou uma participação em episódio do podcast Faixa a Faixa em que detalha mais o processo de concepção de “Sucesso Bendito”. Ouça aqui:

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